As Fraudes do Médium Mirabelli (Parte 13)

Dando prosseguimento às reportagens do Correio Paulistano.

Correio Paulistano – Domingo, 11 de junho de 1916, página 2 

No mundo das maravilhas

É mister que se faça luz na noite do mistério 

O sr. Carlos Mirabelli, a nosso ver, não passa de um hábil prestidigitador 

Não fosse o havermos magnanimamente estabelecido o número de CIN CO sessões para o sr. Mirabelli demonstrar a sua força misteriosa, a epigrafa desta publicação poderia ser desde já reduzida a esta simples locução, usada em priscas eras pelos povos do Laclo: 

ACTA EST FABULA 

Em que pese aos nossos simpáticos colegas da “Gazeta”, para nós, de fato, há muito que a farsa terminou. O sr. Mirabelli não produziu, não produz, não produzirá coisa alguma das que estão em jogo, que não seja com o auxílio da sua agilidade de prestimano. 

Se os “fenômenos” conseguidos por um redator desta folha não se apresentam com a mesma rara perfeição que os de Mirabelli, como disse ontem a nossa apreciada colega vespertina, aliás um pouco contrariamente ao que já afirmou em seu número de 5 do corrente, é que ao nosso companheiro de trabalho falecem dois requisitos de primeira ordem para o caso: o tirocínio adquirido no picadeiro de um circo de cavalinhos, a afirmativa desrespeitosamente falsa de que os realiza por obra e graça da alma de algum papá….

 

Mas não é a falta de tirocínio o que mais contribui para a imperfeição de trabalhos dessa natureza: o que mais prejudica a ilusão é por certo a segurança do truque. Porque, em verdade, o espírito humano está sempre propenso a acreditar no que é misterioso. E isto é tanto mais verdadeiro, quanto é dolorosamente certo que há indivíduos de responsabilidade literária e científica que toleram, com desmesurado carinho, o mais audacioso embusteiro só por deferência às almas do outro mundo, só por amor do desconhecido. Isto não chega a ser ridículo, porque tem o aspecto de um soleníssimo protesto contra as misérias da terra e as maroteiras dos vivos… 

Quanto ao movimento cabalístico da gaveta, a que alude a nossa distinta colega da tarde, aí, para provar o que realizamos em condições PERFEITAMENTE IDÊNTICAS às do sr. Mirabelli, não bastam os testemunhos valiosos prestados pelos srs. drs. Reynaldo Porchat e Bueno de Miranda, ocorre-nos perguntar à “Gazeta” que valor teria, nesse caso, a ata redigida na residência do sr. coronel Goulart, a propósito do mesmo “fenômeno”, e assinada, tal como a nossa, pelos mesmos dois ilustres cavalheiros? Lá e cá, disseram eles, na casa do sr. coronel e na redação do “Correio Paulistano”, da mesma forma girou uma gaveta, e da mesma forma uma gaveta caiu de cima da garrafa. Lá e cá, asseguraram os dois preclaros do júri, nenhum truque foi percebido. Contra, pois, o testemunho do nosso ilustrado colega dr. Couto de Magalhães, opomos o de mais dois cavalheiros não menos ilustrados. Pondo no mesmo nível a idoneidade moral dos três conceituadíssimos depoentes, reservamo-nos apenas o direito de salientar em nossa favor a importância do número… 

O “Correio Paulistano” não analisará definitivamente as mistificações do sr. Mirabelli enquanto não se realizaram todas as CINCO sessões estipuladas no repto que lançou. Tem, porém, pouca esperança que a intrujão leve a cabo as duas experiências que ainda faltam para completar a farta série que estabelecemos: por isso que um conhecido escritor, dado a estudos de ocultismo e suficientemente enfronhado no esoterismo de várias doutrinas, já declarou à “Gazeta” que, para o sr. Carlos Mirabelli manifestar as suas forças misteriosas, não basta transferir-se do edifício da nossa folha, onde outrora, tantas vezes, e tão facilmente, se exibiu à custa de aloirados espíritos. Não basta isso; será preciso que os três representantes do “Correio paulistano” não perturbem o bruxo com a sua incômoda presença. 

A nosso ver, porém, ou o ilustrado ocultista, informante da “Gazeta”, labora em erro, ou os espíritos com que se familiarizou Mirabelli, menos mal se sentem nas pensões alegres, no meio das hetairas, sem a desejada, pedida e proclamada concentração, que a lascívia não permite, do que ao lado de jornalistas e de poetas, numa casa de trabalho cotidiano e honrado, onde reina a serenidade da inteligência, da moral e da ordem. Porque o sr. Mirabelli, sabem-no todos, já deu com admirável êxito várias funções em casa de horizontais, como oportunamente salientaremos com todos os pormenores. 

No que respeita à referência, aliás pouco lisonjeira, feita pelo conceituado ocultista de modo por que se portou o nosso companheiro sr. Plinio Reys, nas sessões realizadas por Mirabelli, na redação deste jornal, revela notar que ela não é absolutamente verdadeira. 

A fina educação de Plínio Reys repele a atitude que lhe pretendeu atribuir, a respeito do que pôde dar seu testemunho o próprio diretor da “Gazeta”. Além disso o esclarecedor da nossa ilustrada colega, quiçá devido ao seu grande trabalho de concentração, se esqueceu, lamentavelmente para ele, de informar uma coisinha mais à “Gazeta”, qual fosse a de Plínio Reys na segunda experiência, infrutiferamente realizada, se retirou do recinto, e mais ainda: que deixou de comparecer à última reunião, com que o lápis do sr. dr. Couto de Magalhães reiteradamente se conservou imóvel no fundo cristalino de uma cristalina garrafa… 

Tudo quanto narrado [fiea?] pode, sem dúvida, ser atestado pelo nosso simpático e brilhante colega dr. Couto de Magalhães, sobre cuja convicção a propósito dos truques do sr. Mirabelli nenhuma dúvida temos mais, dada a significativa frase que lhe ouvimos na última sessão, verificada: sendo de notar que, para esse triunfo do “Correio Paulistano”, não levamos em conta as experiências, que, na mesma ocasião, com sucesso e aplausos da assistência, realizou o distinto jornalista… 

De resto, só nos cumpre dizer que o “Correio Paulistano”, nesta nobre campanha em que está empenhado, não cogita de salvar os crentes incorrigíveis do tremendo fiasco de se deixarem ludibriar por Mirabelli e nosso brado é apenas um momento aos homens de verdadeira cultura científica. E caso, por certo, ouvindo-nos, aguçarão a sua perspicácia…

 

Uma resposta a “As Fraudes do Médium Mirabelli (Parte 13)”

  1. William Diz:

    Crítica: As Fraudes do Médium Mirabelli (Parte 13)
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    O “Correio Paulistano” de forma cínica diz que para eles há muito tempo a farsa terminou, mesmo não demonstrando a “fraude” de Mirabelli. A maior sacada, por enquanto, foi simular um fenômeno e só (algo que James Randi adora fazer para induzir que refutou algo).
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    Basicamente, na verdade, fazem um discurso pomposo dizendo que os intelectuais fora do círculo dos poderosos indivíduos do jornal, possuem enorme “carinho” pelos entes queridos falecidos, assim como pelo consolo devido às conseqüências naturais, deixando-se enganar, por fim.

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