As Fraudes do Médium Mirabelli (Parte 6)

Dando prosseguimento às reportagens do Correio Paulistano.

Correio Paulistano – Sexta-feira, 2 de junho de 1916, página 3 

No mundo das maravilhas

É mister que se faça luz na noite do mistério 

O sr. Carlos Mirabelli, a nosso ver, não passa de um hábil prestidigitador 

Os nossos colegas da “Gazeta” não entenderam positivamente as nossas palavras. Tanto assim que, depois de longas considerações que em nada contribuíram para o esclarecimento do problema, que a muitos, inclusive os colegas, se depara indecifrável, terminam por dizer: “os nossos fatos aí estão; venham agora os fatos do ‘Correio Paulistano’” 

Esquecem-se os jornalistas do vespertino que não nos deram fatos, mas simplesmente palavras. Porque os fatos devem ser aqueles que demonstrem praticamente a realidade ou não dos fenômenos provocados pelo sr. Carlos Mirabelli. Neste caso, como já dissemos, é inútil, por nada elucidar, toda e qualquer discussão ou polêmica. Uma prova cabal desta asserção é que quem mais discute e insiste sobre a “mediunidade em foco”, são os nossos colegas, não obstante haverem confessado claro e bom som que nunca assistiram a experiência alguma do sr. Mirabelli, e bem assim, nem as que realizamos nós, com o intuito único de que S. Paulo não se deixe intrujar por um simples prestidigitador. Diante disto, podemos ainda adiantar que conhecemos a fundo os trabalhos desse esperto discípulo de Hermann, como também as que realizamos, pelo que poderíamos, com pleno conhecimento de causa, discutir o assunto, muito embora, para que não haja margem a sofismas e falsas interpretações, desejemos vê-lo liquidado no terreno da prática, com fatos. Isso é o que provaremos, de acordo com o nosso repto, na prometida “sessão experimental”, que já vai ficando para as calendas, mercê das evasivas do “maior médium destes últimos séculos”… 

A “Gazeta”, segundo ainda se conclui de seu editorial de ontem, mais uma vez voltou a duvidar das nossas afirmações, defendendo com mal dissimulado calor a “mediunidade do homem misterioso”, chegando mesmo a chamar o nosso secretário de prestidigitador – quando o nosso empenho, nobre e elevado, é tão somente esclarecer a verdade em benefício da ciência e da cultura paulista. 

No mesmo artigo diz ainda o vespertino: “Resta provar que o sr. Mirabelli realmente mistifica com “truques” os assistentes. Essa prova o ‘Correio Paulistano’ não nos a deu ainda. E é realmente para surpreender que só o redator secretário do brilhante matutino haja descoberto o que ninguém ainda descobriu”. 

A prova, que o ludibriado jornalista deseja, e que nós, por nossa vez, desejamos ainda mais, para o fim de, com ela, desvendar as intrujices do prestimano, será dada na reunião prometida ao sr. Mirabelli, caso este não continue a esquivar-se com subterfúgios, o que comprova mais uma vez a sua esperteza de hábil truquista… 

Não pretendemos ser mais “ladinos” que os distintos e conceituados cavalheiros que a “Gazeta” cita. Teríamos sido, como eles, vítimas da nossa boa fé, se o acaso não nos fizesse encontrar no tapete do nosso salão nobre a prova material do truque, “aparelho” com que o pseudo-médium ludibriou tanta gente e com o qual, como dentro de poucos dias provaremos, conseguimos reproduzir os mesmos “fenômenos” que elevou o “homem misterioso” ao sétimo céu da glória… 

Finalizando o artigo questionado, a “Gazeta”, depois de narrar um caso de mediunidade locomotora do sr. Mirabelli, escreve: “O nosso prezado colega do ‘Correio Paulistano’ terá descoberto também esse novo ‘truque’ do sr. Mirabelli?” 

Também. E isso ficará elucidado exuberantemente na nossa “VASTA E SENSACIONAL REPORTAGEM SOBRE O CASO”. 

Os colegas não perdem por esperar, muito pelo contrário… 

*          * 

Temos esperado pacientemente que o sr. Mirabelli realize a prometida experiência para “provar a veracidade dos fenômenos” por nós contestada. Essa prolongada espera da nossa parte exprime significativamente a lealdade com que agimos nesta questão, não porque o mistificador mereça contemplações, mas apenas com atenção ás pessoas de conceito que o cercam. 

Diante das indesculpáveis e comprometedoras “evasivas” do sr. Mirabelli – bastantes para certificar, ante a opinião pública, a falsidade dos seus predicados de médium – tomamos nós a iniciativa de promover a realização da “grande prova”. 

Como o sr. Mirabelli repute impróprio o salão nobre desta folha, para levar a efeito a sessão por nós tão desejada – se bem que ali já houvesse realizado várias experiências – conseguimos, graças à gentileza do dr. Numa de Oliveira, obter, para tal fim, a excelente sala do seu escritório, situada á rua 15 de Novembro, 6t, e na qual o ilusionista já operou várias vezes. 

Desde já, e por este meio, convidamos a comparecer àquele local, amanhã, às 20 horas, as conceituadas pessoas indicadas pelo contestado médium, ou “alguém por ele”, e que são as seguintes: 

Srs. drs. Washington Luis, Reynaldo Porchat, Alcântara Machado, Synesio Pestana, monsenhor Sentroul, Eduardo Guimarães, Candido Rodrigues, Guilherme Álvaro,  Jorge Tibiriçá, Nestor Pestana, Brant (da Escola Politécnica), Vicente de Carvalho, Carlos de Castro, Nogueira Martins, Diogo de Faria, monsenhor Benedicto, Luiz Piza, Alberto Seabra, Horácio de Carvalho e Herculano de Freitas. 

Constando-nos que o sr. Mirabelli se retirou da cidade para lugar ignorado, queremos dever aos nossos colegas da “Gazeta” uma distinta fineza, que muito nos penhorará: descobrir o paradeiro do médium e convidá-lo para que ao menos compareça ao local acima indicado. 

*          * 

O sr. Marques Schmidt, amigo e procurador do sr. dr. Carlos de Niemeyer, endereçou à “Gazeta”, em data de ontem, a seguinte carta: 

“Exmo. Sr. diretor da ‘Gazeta’

– Nesta – Atenciosas saudações – A folha vespertina, que v. exc. com reconhecida competência dirige, noticiou, ontem, em caracteres ostensivos, que “o dr. Carlos de Niemeyer partiu, inesperadamente, para o Rio”. 

Amigo e procurador que sou daquele ilustrado médico, peço vênia a v. exc. Para contrariar a maliciosa informação que foi prestada a “A Gazeta”. O dr. Carlos de Niemeyer não partiu “inesperadamente”, pois é certo que este distinto facultativo pretendia seguir para o Rio em meados do mês que ontem findou e, se não o fez até anteontem, não podia deixar de o fazer nesta data, por isso que a sua presença no Rio se impunha, pois ali se festejou ontem a data genetlíaca do nobre progenitor do meu prezado amigo. 

O verdadeiro motivo da viagem do dr. Niemeyer ilide incontestavelmente, pois a suposição que pode resultar da notícia referida de que ele, ao ser reptado pela “Gazeta” no caso Mirabelli, julgou mais cômoda a posição de trânsfuga. 

Agradecendo a gentileza da atenção que v. exc. me dispensar, acolhendo estas linhas, subscrevo-me com as seguranças de minha alta estima – (a) Marques Schmidt.” 

Por nossa vez, confirmamos as palavras do sr. Schmidt. O distinto facultativo foi passar o dia de ontem em companhia de seu venerando pai, o marechal Conrado Jacob de Niemeyer, que festejava o seu aniversário natalício.

Uma resposta a “As Fraudes do Médium Mirabelli (Parte 6)”

  1. William Diz:

    Crítica: As Fraudes do Médium Mirabelli (Parte 6)
    -
    Basicamente o texto faz promessas de descobrir a fraude, perante as desconfianças de seus colegas de profissão (que não pertencem ao “Correio Paulistano”). O conteúdo está impregnado de sensacionalismo.

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