ESPECIAL DE NATAL! Livro “Como a Igreja Católica Construiu a Civilização ocidental” (2008) – Capítulo 04

Neste capítulo Wood aborda as Universidades e mostra como a Igreja Católica incentivou o uso da razão e protegia os universitários.

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Atenção: Isso não é uma defesa da Doutrina Católica. Não acredito que Maria pariu virgem muito menos que continuou assim após o parto; que Jesus multiplicou pães e peixes, etc. Também abomino a discriminação que é feita contra homossexuais (ao dizer que homossexualismo é pecado)  bem como a propaganda feita contra o aborto, o incentivo ao não uso de camisinha e afins.

IV.

A IGREJA E A UNIVERSIDADE

UMA INSTITUIÇÃO ÚNICA NA HISTÓRIA 

Embora muitos colegiais de hoje não sejam capazes de situar cronologicamente a Idade Média, estão convencidos que foi um período de ignorância, superstição e repressão intelectual. Nada mais longe da verdade, pois é à Idade Média que devemos a maior – e inigualável – contribuição intelectual civilização ocidental para o mundo: o sistema universitário.

A Universidade foi um fenômeno completamente novo história da Europa. Nada de parecido existira na Grécia ou Roma antigas[1]. A instituição que conhecemos atualmente, e as suas Faculdades, cursos, exames e títulos, assim como a distinção entre estudos secundários e superiores, chegaram-nos diretamente do mundo medieval. A Igreja desenvolveu o sistema universitário porque, com palavras do historiador Lowrie Daly, era “a única instituição na Europa que manifestava um interesse consistente pela preservação e cultivo do saber”[2].

Não podemos estabelecer com precisão as datas em que as universidades surgiram, em Paris e Bolonha, Oxford e Cambridge, visto que tiveram os seus primórdios nas escolas das catedrais e nas posteriores reuniões informais de professores e alunos. Mas podemos dizer com segurança que começaram a ganhar forma na segunda metade do século XII.

Para identificarmos determinada escola medieval como universidade, devemos atentar para algumas características. Uma universidade possuía um núcleo de textos obrigatório, com base nos quais os professores faziam as suas preleções e, ao mesmo tempo, expunham idéias próprias. Caracterizava-se também por estabelecer currículos acadêmicos bem definidos, que duravam um número de anos mais ou menos fixo, assim como por conferir diplomas. A concessão do título de “mestre” permitia a quem o recebesse o acesso ao grêmio dos docentes, tal como um artesão elevado a mestre era admitido no grêmio da sua profissão. Embora muitas vezes as universidades tivessem de batalhar junto das autoridades externas pela sua autonomia, geralmente conseguiam-na, assim como o seu reconhecimento legal como corporações[3].

O Papado desempenhou um papel capital na fundação e incentivo das universidades. Nos tempos da Reforma, havia oitenta e uma universidades. Trinta e três delas possuíam estatuto pontifício: quinze estatuto real ou imperial; vinte gozavam de ambos, e treze não tinham nenhuma credencial[4]. Havia consenso em que uma universidade não podia conceder diplomas sem a aprovação do papa, do rei ou do imperador. O papa Inocêncio IV concedeu oficialmente esse privilégio à Universidade de Oxford em 1254. Como o Pontífice (de fato) e o Imperador (em teoria) possuíam autoridade sobre toda a Cristandade, era a eles que a universidade costumeiramente tinha de recorrer para obter o direito de emitir diplomas. Uma vez obtido o reconhecimento de uma ou outra dessas autoridades, os diplomas universitários eram respeitados por toda a Cristandade. Já os diplomas conferidos apenas com a aprovação de monarcas nacionais eram considerados válidos unicamente no reino no qual eram emitidos[5].

Em certos casos, como o das Universidades de Bolonha, Oxford e Paris, o título de mestre dava a quem o possuía o direito de lecionar em qualquer lugar do mundo: era o ius ubique docendi. Vemo-lo pela primeira vez em um documento do papa Gregório IX, datado de 1233, relativo à Universidade de Toulouse, e que se tornou um modelo para o futuro. Em fins do século XIII, o ius ubique docendi tornou-se “o selo jurídico distintivo da Universidade”[6]. Teoricamente, esses professores podiam dar aulas em qualquer centro universitário da Europa Ocidental, mas, na prática, cada instituição preferia examinar o candidato antes de admiti-lo[7]. De qualquer modo, esse privilégio concedido pelos papas contribuiu significativamente para a disseminação do conhecimento e para a formação do conceito de uma comunidade acadêmica internacional.

CIDADE E TOGA 

A participação dos papas no sistema universitário estendeu-se a muitos outros assuntos.

Um olhar de relance sobre a história da universidade medieval revela que não eram incomuns os conflitos entre a universidade e o povo ou o governo local. Os habitantes da cidade nutriam com freqüência sentimentos ambivalentes em relação aos estudantes universitários: por um lado, a universidade era um presente para os comerciantes locais e para a atividade econômica em geral, una vez que os estudantes traziam dinheiro para gastar: mas por outro lado, esses estudantes podiam ser irresponsáveis e indisciplinados. Como explicava um comentarista moderno, os habitantes das cidades em que se situavam as universidades medievais amaram o dinheiro, mas odiavam os estudantes. Como resultado, ouvia-se muitas vezes os estudantes e os seus professores queixarem-se de que eram “tratados com abuso pelos cidadãos locais, com dureza pela polícia, desatendidos nas suas demandas legais e ludibriados no preço dos aluguéis, alimentos e livros”[8].

No meio dessa atmosfera tensa, a Igreja rodeou os estudantes universitários de uma proteção especial, concedendo-lhes o chamado beneficio do clero. Os clérigos gozavam na Europa medieval de um estatuto especial: maltratá-los era um crime extraordinariamente grave: tinham o direito de que as suas causas fossem julgadas por um tribunal eclesiástico, e não pelo civil. Os estudantes universitários, como atuais ou potenciais candidatos ao estado clerical, passaram também a gozar desses privilégios. Os governantes civis também lhes estenderam muitas vezes uma proteção similar em 1200, Filipe Augusto da França concedeu e confirmou esses privilégios aos estudantes da Universidade de Paris, permitindo-lhes ter as suas causas julgadas por um tribunal especial, que certamente lhes seria mais simpático do que os tribunais da cidade[9].

Os papas intervieram em defesa da universidade em numerosas ocasiões. Em 1220, o papa Honório III (1216-1227) pôs-se do lado dos professores de Bolonha, que protestavam contra as violações das suas liberdades. Quando o chanceler de Paris insistiu em que se jurasse lealdade à sua pessoa, o papa Inocêncio III (1198-1216) interveio. Em 1231, perante a intromissão das autoridades diocesanas locais na autonomia institucional da universidade, o papa Gregório IX lançou a bula Parens scienliarum, em favor dos mestres de Paris. Nesse documento, concedeu efetivamente à Universidade de Paris o direito à autonomia de governo, com a qual podia elaborar as suas próprias regras a respeito dos cursos e pesquisas; e submeteu-a diretamente à jurisdição pontifícia, emancipando-a da interferência diocesana. “Com esse documento – escreve um historiador –, a Universidade de Paris atingiu a maioridade e entrou na história do direito como uma corporação intelectual plenamente formada, destinada ao preparo e aperfeiçoamento acadêmicos”[10].

Foi ainda nesse mesmo documento que o papa procurou zelar pela justiça e concórdia no ambiente universitário, mediante a concessão de um privilégio conhecido como cessatio – o direito de os alunos entrarem em greve, se fossem tratados de modo abusivo. Consideravam-se justa causa para a greve os preços extorsivos fixados para o alojamento, a injúria ou mutilação de um estudante sem que houvesse uma satisfação adequada dentro do prazo de quinze dias, bem como a prisão ilegal de um estudante”[11].

Tornou-se comum que as universidades remetessem as suas queixas ao Papa[12]. Em várias ocasiões, os pontífices intervieram para obrigar as autoridades universitárias a pagar aos professores os seus salários; assim o fizeram Bonifácio VIII, Clemente V, Clemente VI e Gregório IX[13]. Não é de admirar, pois, que um historiador tenha declarado que “o mais sólido e confiável protetor [das universidades] foi o Papa de Roma. Foi ele quem lhes concedeu, aumentou e protegeu um estatuto privilegiado em um mundo de freqüentes conflitos de jurisdições”[14].

No seu estágio inicial, a universidade carecia de edifícios ou de um campus próprio. Consistia em um corpo de professores e alunos, não em um local específico. As aulas eram ministradas em catedrais ou em salas privadas. Não havia bibliotecas, e teria sido difícil adquirir significativas coleções de livros, mesmo que as universidades possuíssem instalações próprias. Os livros absolutamente necessários aos estudantes eram em geral alugados, em vez de comprados. 

Ao que parece, muitos estudantes universitários medievais provinham de famílias de poucas posses. A maior parte dos estudantes de artes (em sentido amplo) tinha entre catorze e vinte anos de idade. Muitos matriculavam-se na universidade com o objetivo de se prepararem para uma profissão, e por isso não é de surpreender que o curso mais freqüentado fosse o de Direito. Havia também frades entre os estudantes: eram homens que desejavam simplesmente ampliar os seus conhecimentos ou contavam com o patrocínio de um superior eclesiástico[15].

O que é que se estudava nessas instituições? Começava-se pelas sete artes liberais, para os principiantes, e prosseguia-se tom o direito civil e canônico, a filosofia natural, a medicina e a teologia. Quando as universidades ganharam forma no século XII, foram as felizes beneficiárias dos frutos daquilo que alguns historiadores denominaram “a Renascença do século XII”[16]. Os intensos esforços de tradução permitiram recuperar muitas das obras do mundo antigo – sobre a geometria euclidiana, a lógica, a metafísica, a filosofia natural e a ética aristotélicas –, bem como as obras de medicina de Galeno. Também os estudos jurídicos começaram a florescer, particularmente em Bolonha, quando foi descoberto o Digesto, coleção das decisões dos jurisconsultos romanos mais célebres, transformadas em lei e integradas no Corpus juris civilis pelo imperador Justiniano no século VI, e que está na base de todos os códigos civis modernos.

VIDA ACADÊMICA 

A distinção que hoje fazemos entre os estudos de graduação e os de pós-graduação seguia mais ou menos os padrões de hoje. E, também como hoje, algumas universidades eram especialmente conhecidas pelo seu alto nível em determinadas áreas: assim, Bolonha tornou-se famosa pelo seu curso de direito e Paris pelos de teologia e de artes.

O graduando ou artista (isto é, o estudante das artes liberais), assistia a conferências, participava dos debates que eventualmente se organizavam nas aulas e assistia aos que eram entabulados por outros. As preleções versavam geralmente sobre textos importantes, muitas vezes dos clássicos da Antigüidade. Além dos comentários sobre esses textos, os professores passaram a incluir gradualmente uma série de questões que deviam ser resolvidas pelo recurso ao pensamento lógico. Com o tempo, a análise dessas questões substituiu basicamente os comentários de textos. Esta foi a origem do método escolástico de argumentação por meio da discussão de argumentos contrapostos, tal como a encontramos na Summa theologiae de São Tomás de Aquino.

O mestre designava alunos para defenderem aspectos contrários de uma questão. Quando acabava a interação entre as partes, cabia ao professor “definir” ou resolver a questão. Para obter o diploma de bacharel em artes, o aluno devia resolver satisfatoriamente uma questão perante os examinadores, depois de provar, naturalmente, que possuía a preparação adequada e que estava apto para ser avaliado. Essa ênfase na argumentação meticulosa, na exploração de um “caso” (um exemplo) pela discussão de cada um dos seus aspectos com argumentos racionais, soa como o oposto daquilo que se costuma associar a vida intelectual do homem medieval. Mas era assim que funcionava o processo para a obtenção de um diploma.

Uma vez que o examinando dirimia satisfatoriamente a questão, era-lhe conferido o diploma de bacharel em artes. O processo levava normalmente quatro ou cinco anos. Chegado a este ponto, o estudante podia simplesmente dar por terminada a sua formação, como faz hoje em dia a maior parte dos bacharéis, e sair em busca de um trabalho remunerado (até mesmo como professor nalguma das escolas menores da Europa), ou decidir continuar os seus estudos e obter um diploma de pós-graduação, o que lhe conferiria o título de mestre e o direito de lecionar em uma universidade[17].

É difícil determinar o intervalo de tempo exato que costumava transcorrer entre a obtenção da licenciatura e a do mestrado, mas uma estimativa razoável é que oscilava entie seis meses e três anos. Sabe-se de um candidato que, certamente por ter lido todos os livros requeridos, recebeu os dois diplomas em um mesmo dia[18].

Contrariando a impressão geral de que as pesquisas estavam impregnadas de pressupostos teológicos, os estudiosos medievais tinham um grande respeito pela autonomia de tudo quanto se referisse à filosofia natural, um ramo que se ocupava de estudar o funcionamento do mundo físico e, particularmente, as mudanças e o movimento nesse mundo. Procurando explicações naturais para os fenômenos da natureza, esses pesquisadores mantinham os seus estudos à margem da teologia. Como escreve Edward Grani em Deus e a razão na Idade Média, “exigia-se dos filósofos naturais das faculdades de artes que se abstivessem de introduzir teologia e temas de fé na filosofia natural”[19].

Esse respeito pela autonomia da filosofia natural, em relação à teologia, também se observava entre os teólogos que escreviam sobre ciências físicas. Um irmão dominicano pediu a Alberto Magno, o mestre de São Tomás de Aquino, que escrevesse um livro de física que os pudesse ajudar a entender as obras de física de Aristóteles. Temendo que esperassem um trabalho entremeado de idéias teológicas, Alberto Magno rejeitou antecipadamente a idéia, esclarecendo que as idéias teológicas pertenciam aos tratados de teologia, e não aos de física.

O estudo da lógica na Idade Média fornece-nos mais um testemunho do compromisso com o pensamento racional nessa época. “Através dos sólidos cursos de lógica – escreve Grant –, os estudantes medievais eram instruídos acerca das sutilezas da linguagem e das armadilhas da argumentação. Daí o grande peso que se dava à importância e utilidade da razão na educação universitária”. Edith Sylla, uma especialista em filosofia natural, lógica e teologia dos séculos XIII e XIV, escreve que deveríamos “maravilhar-nos com o nível de sofisticação lógica que com certeza atingiram os universitários de Oxford do século XIV”[20].

Naturalmente, os mestres guiavam-se por Aristóteles, um gênio da lógica, mas também compunham os seus próprios textos de lógica. Quem escreveu o mais famoso deles? Um futuro papa, Pedro de Espanha (João XXI), na década de 1230. Por centenas de anos, a sua Summulae logicales serviu de texto-base, e lá pelo século XVII já tinha atingido 166 edições.

A IDADE DA ESCOLÁSTICA 

Se a Idade Média tivesse sido realmente um período em que as questões eram resolvidas pelo mero recurso aos argumentos de autoridade, esse rigor no estudo da lógica formal não faria sentido. O empenho com que se ministrava essa disciplina revela, pelo contrário, uma civilização que almejava compreender e persuadir. Para esse fim, os professores procuravam alunos capazes de detectar as falácias lógicas e de formular argumentos logicamente sólidos. Foi a idade da Escolástica.

É difícil chegar a uma definição da Escolástica que se possa aplicar a todos os pensadores a quem tem sido atribuída essa designação. Por um lado, o termo foi atribuído às obras eruditas produzidas nas escolas, isto é, nas universidades da Europa. Por outro, presta-se menos a descrever o conteúdo do pensamento dos autores dessas obras do que a identificar o método que usavam. Geralmente, a Escolástica estava ligada ao uso da razão como ferramenta indispensável para os estudos teológicos e filosóficos e para a dialética – confronlo de proposições opostas, seguido da solução da questão em debate pelo recurso à razão e à autoridade –, e como método de tratar assuntos de interesse intelectual. Com o amadurecimento dessa tradição, tornou-se comum que os tratados escolásticos seguissem uma pauta fixa: enunciado de uma questão, exposição dos argumentos de ambos os lados, manifestação do ponto de visia do autor e resposta às objeções.

Talvez o primeiro dos escolásticos tenha sido Santo Anselmo de Cantuária (1033-1109), o abade do mosteiro de Bec e depois arcebispo de Canterbury que, ao contrário dos demais, não ocupou nenhum cargo de docência, mas compartilhou com eles do empenho em usar da razão para analisar questões filosóficas e teológicas. Por exemplo, o seu Cur Deus homo examina de um ponto de vista racional por que era conveniente e adequado que Deus se fizesse homem.

Nos círculos filosóficos, no entanto, Santo Anselmo é bem mais conhecido pela sua prova racional da existência de Deus – o chamado argumento ontológico que intrigou e estimulou mesmo aqueles que dele discordavam. Para Anselmo, a existência de Deus era uma conseqüência lógica da própria definição de Deus. Tal como um bom conhecimento e profunda compreensão da idéia de “nove” implica que a sua raiz quadrada é “três”, assim também a profunda compreensão da idéia de Deus implica que esse ser deve existir necessariamente[21].

Anselmo postulou como definição inicial de Deus “aquilo em relação ao qual nada maior se pode conceber” (para simplificar, modificaremos essa formulação para “o maior ser concebível”). O maior ser concebível deve possuir todas as perfeições; caso contrário, não seria o maior ser concebível. Ora, a existência é uma perfeição, afirmava Anselmo, porque é melhor existir do que não existir. Suponhamos que Deus existisse apenas na mente das pessoas, mas não na realidade. Isso significaria admitir que o maior ser concebível existe unicamente como uma idéia nas nossas mentes e não tem existência no mundo extra-mental (o mundo fora das nossas mentes). Nesse caso, não poderia ser o maior ser concebível, uma vez que poderíamos conceber outro maior: um que existisse nas nossas mentes e também na realidade. Assim, a própria noção de “o maior ser concebível” implica imediatamente a existência de tal ser, porque, sem existência no mundo real, não seria o maior ser concebível.

A prova de Anselmo não convenceu muitos dos filósofos posteriores, incluindo São Tomás de Aquino – embora uma minoria tenha insistido em que Anselmo estava certo –, mas, ao longo dos cinco séculos seguintes e até mais além, a grande maioria dos filósofos viu-se compelida a levar em conta o raciocínio do santo. Muito mais significativo que as seculares reverberações desse argumento é, no entanto, o compromisso com o uso da razão que os escolásticos posteriores assumiram de modo ainda mais efetivo.

Outro dos primeiros escolásticos importantes foi Pedro Abelardo (1079-1142), um mestre muito admirado que lecionou durante dez anos na escola da catedral de Paris. Em Sic et non (“Sim e não”, cerca de 1120), Abelardo elaborou uma lista aparentes contradições, citando passagens dos primeiros Padres da Igreja e da própria Bíblia. Qualquer que fosse a solução para cada caso, cabia a razão humana – e mais concretamente aos discípulos de Abelardo – resolver essas dificuldades intelectuais. O prólogo de Sic et non contém um belo testemunho da importância da atividade intelectual e do zelo com que devia ser realizada:

“Apresento aqui uma coleção de afirmações dos Santos Padres pela ordem em que delas me lembrei. As disciepâncias que esses textos parecem conter levantam certas questões que devem constituir um desafio para que os meus jovens leitores concentrem todo o seu zelo em estabelecer a verdadee, assim agindo, cresçam em perspicácia. Como já foi definido, a primeira fonte de sabedoria é a inquirição constante e profunda. O mais brilhante dos filósofos, Aristóteles, encorajou os seus alunos a assumir essa tarefa com todo o peso da sua curiosidade [...]. Disse ele: “É tolice que alguém faça afirmações rotundas sobre estes assuntos, se não lhes dedicou muito tempo. É prática muito útil questionar todos os detalhes”. Ao levantarmos questões, começamos a pesquisar e, pela pesquisa, atingimos a verdade, como disse Aquele que é a própria Verdade: Buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Ele demonstrou-nos isso pelo seu próprio exemplo moral, quando foi encontrado, aos doze anos de idade, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e fazendo-lhes perguntas. Aquele que é a própria Luz, a plena e perfeita sabedoria de Deus, quis, pelas suas perguntas, dar exemplo aos seus discípulos antes de tornar-se modelo de mestres com as suas pregações. Portanto, quando cito passagens das Escrituras, é para estimular e incitar os meus leitores a pesquisar, dentro da verdade e da maior autoridade dessas passagens, com a maior seriedade que essa pesquisa possa ter”[22].

Embora o seu trabalho sobre a Trindade lhe tenha acarretado uma censura eclesiástica, Abelardo estava em grande sintonia com a vitalidade intelectual do seu tempo e partilhava com ela da confiança na capacidade da razão que Deus concedeu ao homem. Era ele um filho fiel da Igreja e o seu trabalho sempre se orientou para a construção e fortalecimento do grande edifício da verdade sustentada pela Igreja. Disse certa vez que não “desejava ser um filósofo, se isso significasse rebelar-se contra o Apóstolo Paulo, nem um Aristóteles, se isso significasse separar-se de Cristo”[23]. Os hereges – disse também – usaram argumentos da razão para atacar a fé e, por isso mesmo, era muito conveniente e apropriado que os fiéis da Igreja fizessem uso da razão para defender a fé”[24].

Embora tenha feito levantar algumas sobrancelhas na sua época, o uso que fez da razão para refletir sobre os assuntos teológicos viria a ser assumido por escolásticos posteriores, culminando, no século seguinte, em São Tomás de Aquino. Nota-se claramente a sua influência em Pedro Lombardo (1100-1160), que deve ter sido seu aluno.

Arcebispo de Paris durante um breve período, Pedro Lombardo escreveu as Sentenças, uma obra que se tornou um texto básico para os alunos de teologia dos cinco séculos seguintes. O livro é uma exposição sistemática da fé católica, em que se abordam numerosos assuntos, desde os atributos divinos até questões como o pecado, a graça, a Encarnação, a Redenção, as virtudes, os sacramentos e os novíssimos (morte, juízo, céu e inferno). De modo significativo, procura combinar a confiança na autoridade com a disposição de empregar a razão na explanação dos temas teológicos[25].

O maior dos escolásticos e, na realidade, uma das maiores inteligências de todos os tempos foi São Tomás de Aquino (1225-1274). A sua imensa obra, a Summa theologiae, levantou e respondeu a milhares de questões em teologia e filosofia, que vão da teologia dos sacramentos até à guerra justa ou à questão de saber se todos os vícios deveriam ser considerados crimes (São Tomás disse que não). Mostrou que Aristóteles – tido por ele e por muitos dos seus contemporâneos como o ponto alto do pensamento profano – podia ser facilmente harmonizado com os ensinamentos da Igreja.

Os escolásticos discutiram muitos temas significativos, mas, nos casos de Anselmo e Tomás de Aquino, prefiro concentrar aqui o foco na existência de Deus, talvez por ser o exemplo clássico do uso da razão em defesa da fé. (A existência de Deus pertence àquela categoria de conhecimentos que São Tomás considerava poderem ser atingidos tanto por meio da razão como da revelação divina). Já vimos o argumento de Santo Anselmo; São Tomás, por sua vez, desenvolveu na Summa theologiae cinco vias para demonstrar a existência de Deus, e descreveu-as ainda mais amplamente na Summa contra gentiles. Para se ter alguma idéia do caráter e da profundidade da sua argumentação neste ponto, deve-se ver como aborda a questão pelo ângulo do que é conhecido tecnicamente como o argumento da causalidade eficiente, e tomando por empréstimo um pedaço do argumento sobre a contingência e a necessidade[26].

Entenderemos melhor a visão de São Tomás se começarmos com uma experiência imaginária da nossa vida corrente. Suponhamos que eu queira comprar meio quilo de peito de peru em uma mercearia. Ao chegar lá, sou informado de que tenho de pegar uma senha antes de poder fazer o meu pedido. No entanto, justamente quando estou a ponto de pegar essa senha, dizem-me que tenho de pegar outra senha para poder pegar a senha anterior. E que, justamente quando estou para pegar esta última, devo pegar ainda outra. Deste modo, tenho de pegar uma senha, para pegar uma senha, para pegar uma senha, a fim de poder fazer o meu pedido no balcão da mercearia.

Suponhamos ainda que a série de senhas requeridas é infinita, isto é, que de cada vez que pego uma senha descubro que existe uma senha anterior e devo tê-la em meu poder antes de pegar a seguinte. Nessas condições, nunca chegarei ao balcão. Por lodo o sempre, daqui até o final dos tempos, estarei correndo atrás de senhas.

Mas se eu vir alguém que vem saindo da mercearia com meio quilo de rosbife comprado no balcão, saberei instantaneamente que, na realidade, a série de senhas não pode continuar para sempre, porque nesse caso ninguém poderia jamais ser atendido ao balcão. Portanto, a série tem de ser finita.

Este exemplo pode parecer muito distante da questão da existência de Deus, mas não o é: a prova de São Tomás é de certo modo análoga a ambos. Começa pela idéia de que todo o efeito requer uma causa e de que nada do que existe no mundo físico é causa da sua própria existência: é o chamado princípio da razão suficiente. Quando vemos uma mesa, por exemplo, sabemos perfeitamente que ela não apareceu espontaneamente. Deve a sua existência a algo mais: a um construtor e a uma matéria-prima anteriormente existente.

Uma coisa A deve a sua existência a alguma causa B. Mas B, por sua vez, não é um ser que exista por si mesmo, e tem também necessidade de uma causa C. Mas agora C precisa igualmente de uma causa D para existir. Tal como no exemplo da mercearia, deparamos com as dificuldades levantadas por uma série infinita. E se tivermos uma serie infinita, na qual cada causa requeira ela própria uma causa, então nada poderia jamais ter chegado à existência.

São Tomás explica que tem de haver, em conseqüência, uma Causa sem causa – uma causa que em si mesma não necessite de causa, e que, por conseguinte, dê início à seqüência de causas. Esta primeira causa – diz São Tomás – é Deus. Deus é um ser que existe por si mesmo, cuja existência é parte da sua própria essência. Nenhum ser humano deve existir necessariamente; houve um tempo antes de cada um de nós ter vindo à existência, e o mundo continuará a existir depois de cada um de nós ter morrido. A existência não é parte da essência nenhum ser humano. Mas com Deus é diferente: Ele não pode não existir. E não depende de nada anterior a si mesmo para explicar a sua existência.

UM “RIO DE CIÊNCIA” 

Este tipo de rigor filosófico caracterizou a vida intelectual das primeiras universidades. Não é de estranhar que os papas e outros homens da Igreja situassem as universidades entre as grandes jóias da civilização cristã. Era comum ouvir descrever a Universidade de Paris como a “nova Atenas”[27] – uma designação que evoca as ambições de Alcuíno quando, vários séculos antes, no período carolíngio, se propunha estabelecer uma nova Atenas no reino dos francos. O papa Inocêncio IV (1243-1254) descreveu as universidades como “rios de ciência cuja água fertiliza o solo da Igreja universal”, e o papa Alexandre IV (1254-1261) chamou-as “lâmpadas que iluminam a casa de Deus”. E é ao apoio dado pelos papas que se devem o crescimento e o êxito do sistema universitário. “Graças a essas intervenções pontifícias – escreve o historiador Henri Daniel-Rops –, o ensino superior foi capaz de expandir-se. A Igreja foi sem dúvida a matriz de onde saiu a Universidade, o ninho de onde ela levantou vôo”[28].

É um fato comprovado que uma das mais importantes contribuições medievais para a ciência moderna foi a liberdade de pesquisa no mundo universitário, onde os acadêmicos podiam debater e discutir as proposições apoiados na certeza da utilidade da razão humana. Contrariamente ao retrato grosseiramente inexato que se tem feito da Idade Média, a vida intelectual medieval prestou contribuições indispensáveis à civilização ocidental. “Os mestres da Idade Média – concluiu David Lindberg em The Beginnings of Western Science (1992) – criaram uma ampla tradição intelectual, sem a qual o subseqüente progresso na filosofia natural teria sido inconcebível”[29].

Christopher Dawson, um dos grandes historiadores do século XX, observou que, desde os tempos das primeiras universidades, “os mais altos estudos eram dominados pela técnica da discussão lógica: a quesito e o debate público, que tão amplamente determinaram a forma da filosofia medieval, sobretudo nos seus principais expoentes. “Nada pode ser perfeitamente conhecido – disse Roberto de Sorbonne – se não tiver sido mastigado pelos dentes do debate, e a tendência a submeter todas as questões, da mais óbvia à mais abstrusa, a esse processo de mastigação não só estimulava a perspicácia e a exatidão do pensamento como, acima de tudo, desenvolvia o espírito crítico e a dúvida metódica a que a cultura e a ciência ocidentais tanto devem”[30].

O historiador da ciência Edward Grant concorda com esse juízo: 

“O que foi que tornou possível à civilização ocidental desenvolver a ciência e as ciências sociais de um modo que nenhuma outra civilização havia conseguido até então? Estou convencido de que a resposta está no penetrante e profundamente arraigado espírito de pesquisa que teve início na Idade Média como conseqüência natural da ênfase posta na razão. Com exceção das verdades reveladas, a razão era entronizada nas universidades medievais com árbitro decisivo para a maior parte dos debates e controvérsias intelectuais. Os estudantes, imersos em um ambiente universitário, consideravam muito natural empregar a razão para pesquisar as áreas do conhecimento que não haviam sido exploradas anteriormente, assim como discutir possibilidades que antes não haviam sido consideradas seriamente”[31] 

A criação da Universidade, o compromisso com a razão e com a argumentação racional e o abrangente espírito de pesquisa que caracterizou a vida intelectual medieval representaram “um dom da Idade Média latina ao mundo moderno [...], ainda que nunca se venha a reconhecê-lo. Talvez esse conserve para sempre a condição de segredo mais bem guardado que a civilização ocidental leve durante os quatro séculos passados”[32]. Foi um dom da civilização cujo centro era a Igreja Católica.



[1] Cfr. Charles Homer Haskins, The Rise of Universities, Cornell University Press, Ithaca, 1957 [1923], pág. 1; id., The Renaissance of the Twelth Century, Meridian, Cleveland, 1957 [1927], pág. 369; Lowrie J. Daly, The Medieval University, 1200-1400, Sheed and Ward, New York, 1961, págs. 213-4.

[2] Lowrie J. Daly, The Medieval University, pág. 4.

[3] Richard C. Dales, The Intellectual Life of Western Europe in the Middle Ages, University Press of America, Washington DC, 1980, pág. 208.

[4] “Universities”, em Catholic Encyclopaedia,

[5] Ibid.

[6] Gordon Leff, Paris and Oxford Universities in the Thirteenth and Hourteenth Centuries: An Institutional and Intellectual History, John Wiley and Sons, New York, 1968, pág. 18.

[7] Lowrie J. Daly, The Medieval University, pág. 167.

[8] Joseph H. Lynch, The Medieval Church, pág. 250.

[9] Lowrie J. Daly, The Medieval University,  págs. 163-4.

[10] Ibid., pág. 22. O Papado, escreve Cobban, “deve ser considerado a principal influência responsável pela liberdade de que gozava a guilda (isto é, o corpo acadêmico organizado) de Paris” (Alan B. Cobban, The Medieval Universities: Their Development and Organization,  Methuen & Co., Londres, 1975, págs. 82-3).

[11] Lowrie J. Daly, The Medieval University, pág. 168.

[12] “Universities”, em Catholic   Encyclopedia, Alan B. Cobban, The Medieval Universities, pág. 57.

[13] “Universities”, em Catholic Encyclopedia.

[14] Lowrie J. Daly, The Medieval University, pág. 202.

[15] Gordon Leff, Paris and Oxford Universities in the Thirteenth and Fourteenth Centuries, pág 10.

[16] O estudo clássico é de Charles Homer Haskins, The Renaissance of the Twelth Century; veja-se também id., The Rise of Universities, págs. 4-5.

[17] Para fazer uma idéia da vastidão dos conhecimentos que se exigiam para obter o título de mestre, vejamos o que diz um historiador moderno a respeito dos textos com que o mestrando devia estar familiarizado: “Depois do bacharelado e antes de requerer a licença para lecionar, o estudante devia ter aprendido em Paris ou em outra universidade as seguintes obras aristotélicas: Física, Da geração e da corrupção, Do céu e o Parva naturalia; especialmente, os tratados de Aristóteles Da sensação e do sensível, Do sono e da vigília, Da memória e reminiscência, Da longevidade e brevidade da vida. Também devia ter estudado (ou ter planos de fazê-lo) Da metafísica,  além de ter assistido a conferências sobre os livros matemáticos. (O historiador) Rashdall, falando do currículo de Oxford, dá a seguinte lista de obras que deviam ser lidas pelo estudante no período entre a conclusão do bacharelado e a iniciação no mestrado: livros sobre as artes liberais; em gramática, Prisciano; em retórica, a Retórica de Aristóteles (três períodos) ou Tópicos (livro IV), de Boécio, ou a Nova Retórica, de Cícero, ou Metamorfose, de Ovídio, ou Poetria Virgilii; em lógica, De Interpretatione, de Aristóteles (três trimestres), ou Tópicos (livros I-III), de Boécio, ou Analíticos Anteriores, ou Tópicos, de Aristóteles; em aritmética e em música, Boécio; em geometria, Euclides, Alhacen ou a Perspectiva de Vitélio; em astronomia, Theorica Planetarium (dois trimestres) ou o Almagesto de Ptolomeu. Em filosofia natural: Física, ou Do Céu (três trimestres), ou Das Propriedades dos Elementos, ou  Meteoros, ou Dos Vegetais e Plantas, ou Da Alma, ou Dos Animais ou algum do De Parva Naturalia; em filosofia moral, a Ética ou a Política de Aristóteles (três trimestres), e em metafísica a Metafísica (dois trimestres, ou três se o candidato ainda não tivesse “defendido” o caso” (Lowrie J. Daly, The Medieval University, pág. 132-3).

A cerimônia pela qual se conferia o grau era muito variável; cada universidade tinha os seus usos. Na de Paris, revestia-se do caráter de uma cerimônia eclesiástica. O licenciado ajoelhava-se, na igreja de Sainte Geneviève, diante do vice-chanceler que lhe dizia: “Eu, pela autoridade a mim conferida pelos apóstolos Pedro e Paulo, confiro-te a licença para ensinar, ler [as lições magistrais], disputar e determinar [dar a solução de questões discutidas], além de exercer outros atos escolásticos e magisteriais, tanto na faculdade de artes de Paris como em todas as partes, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém” (ibid., pág. 135).

[18] Ibid,, pág. 136.

[19] Edward Grant, God and Reason in the Middle Ages, Cambridge University Press, Cambridge 2001, pág. 184.

[20] Ibid., pág. 146.

[21] Essa formulação do argumento de Santo Anselmo é do Dr. William Marra ( 1998), um velho amigo que ensinou filosofia durante décadas na Fordham University e que pertenceu à tradição minoritária de filósofos ocidentais convencidos de que essa prova racional era capaz de demonstrar a necessidade da existência de Deus.

[22] Citado em Edward Grant, God and Reason In the Middle Ages, págs. 60-61.

[23] David C. Lindberg, The Beginnings of Western Science, University of Chicago Press, Chicago, 1992, pág. 196.

[24] Sobre Abelardo como fiel filho da Igreja e não um racionalista do século XVIII translocado para o XIII, veja-se David Knowles, The Evoluion of Medieval Thought, págs. 111 e segs.

[25] Lowrie J Daly, The Medieval University, pág. 105.

[26] Veja-se o excelente artigo de James A. Sadowsky, “Can There Be an Endless Regress of Causes?”, em Brian Davies, ed., Philosophy of Religion: A Guide and Anthology, Oxford University Press, New York, 2000, pág. 239-42.

[27] Henri Daniel-Rops, A Igreja das catedrais e das cruzadas, trad. de Emérico da Gama, em História da Igreja de Cristo, vol. 3, Quadrante, São Paulo, 1993, pág. 348.

[28] Ibid., pág. 345.

[29] David C. Lindberg, The Beginnings of Western Science, pág. 363.

[30] Christopher Dawson, Religion and the Rise of Western Culture, págs. 190-1.

[31] Edward Grant, God and Reason in the Middle Ages, pág. 356.

[32] Ibid., pág. 364.

5 respostas a “ESPECIAL DE NATAL! Livro “Como a Igreja Católica Construiu a Civilização ocidental” (2008) – Capítulo 04”

  1. Carlos Diz:

    O maior problema no texto do Woods é a descontextualização dos eventos. Por exemplo, ele destaca a criação da “universidade” de Toulose em 1233 e que se “tornou modelo para o futuro” (sic). Esse é o texto em tom grandioso, porém bem diferente é o contexto da fundação da “universidade” em Toulouse.
    .
    Aquela foi uma época de horror em todos os aspectos. Em 1208 o papa Inocêncio ordena a cruzada contra os hereges cátaros e o rei de França, que desejava a anexação da região do Languedoc, fornece as tropas. No Languedoc florescia uma dissidência do cristianismo (os cátaros). As tropas (braço político) invadiram o Languedoc e, juntamente com a inquisição (braço religioso), dizimaram a heresia. Milhares morreram pela espada ou queimados pela inquisição. A “universidade” de Toulouse, que a primeira vista parece um nobre empreendimento, era muito um “centro de reeducação” destinada e ensinar a “sã doutrina” e não propriamente a universalizar o conhecimento.
    .
    Quando lê-se mais a frente no estilo panfletário do Woods que o papa tal ou qual fundou escolas e protegeu estudantes etc, etc, é necessário antes de mais nada analisar com cuidado o contexto dessas ações. A história descontextualizada até que pode parecer bonita, mas quando se procura as motivações via de regra o que se observa é a perene luta por influência e poder da igreja, e coitado dos que se colocavam como um obstáculo diante de seus caminho. O bispo Jacques Fournier, um dos destacados inquisidores que certamente torturou e queimou centenas de cátaros, tornou-se posteriormente papa. Não consta que ele tenha se arrependido pelos horrores que infligiu a outros cristãos cujo maior pecado foi divergir da doutrina católica romana; esse o contexto da criação da “universidade de Toulouse”.
    .
    A história da cruzada contra albigenses, a anexação do Languedoc pode ser encontrada na wikipédia. A página em francês e/ou inglês é mais completa que a em português.

  2. Vitor Diz:

    Oi, Carlos
    o Jacques Fournier, ao que me conste, não torturou e queimou centenas de cátaros. Ele é tido como o mais misericordioso dos Inquisidores. Ele mandou para a fogueira apenas 5.
    .
    “Ao contrário de Dominic, Jacques Fournier não era nenhum fanático raivoso. Isso, porém, não o impediu de investigar, entre 1318 e 1325, noventa e oito casos de heresia, envolvendo mais de cem pessoas, noventa e quatro das quais compareceram perante seu tribunal. Demonstrando uma tolerância e caridade cristãs não-típicas dos Inquisidores da época,Jacques mandou apenas cinco delas para a estaca.”
    .
    Fonte: http://www.ebah.com.br/content/ABAAABgkQAE/a-inquisicao
    .

  3. Carlos Diz:

    Olá Vitor, a página francesa na Wiki informa apenas que Bento XII não era adepto da tortura; mandava apenas “queimar” em praça pública. Embora não adepto da tortura, ele em alguns casos mais difíceis a utilizou, conforme comenta a wiki, evidentemente com fins mais profiláticos, digamos assim…! O número de 5 condenados sob responsabilidade direta de Bento XII deve ser entendido apenas como uma indicação; provavelmente foram muito mais visto que a heresia não desapareceu por completo após a queda de Toulouse.

  4. André Ribeiro Diz:

    Carlos, as tentativas do Vítor em defender esta porcaria de livro, chegam a ser patéticas.
    As suas observações, grande Carlos, são perfeitas. Este livreco, só tem um objetivo: fazer propaganda católica, nada mais que isso. A igreja católica se tornou rica e poderosa, praticando TODO TIPO de crimes e JAMAIS construiu a civilização ocidental. A civilização ocidental, seus principais fundamentos, se encontram na cultura greco-romana, anterior a Cristo (nem acredito que existiu).
    A igreja católica sempre foi e continua sendo um grande LIXÃO. Ela é culpada até pelos plágios do senhor Chico Xavier, que nunca deixou de ser católico. Era católico até as entranhas.
    Infelizmente me falta tempo (disposição também), senão eu iria ler toda esta meleca que o Vítor está postando aqui e iria rebatê-las uma a uma.
    Mas tenho mais o que fazer.
    O pior de tudo, é que fico me perguntando, quem realmente é o Sr. Vítor Moura. Chico Xavier e cia, podem ter enganado muitos, por muito tempo; será que o Sr. Vítor Moura não tem nos enganado há muito tempo também?
    Sai do armário Vítor Moura e não apague meu comentário, seja homem para assumir suas crenças.

  5. mrh Diz:

    Apologia de má qualidade…

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