MARIE-LISE, INVISÍVEL E PRESENTE – Capítulo 3

Esta é a quarta de uma série de postagens sobre um suposto caso de reencarnação divulgado pelo alegado médium baiano Divaldo Pereira Franco. O livro que contém o caso foi publicado apenas em francês, e aqui oferecemos uma tradução por capítulos. O livro em francês pode ser baixado nesse link. A seguir fique com o Capítulo 3. Nesse capítulo os autores fazem um esboço biográfico de 3 personagens essenciais e históricos.

CAPÍTULO III 

Os Lefebvres tais quais foram 

FRANÇOIS-JOSEPH Lefebvre nasceu em Rouffach, na Alsácia, dia 25 de outubro de 1755. De ascendência modesta, alistou-se nas “guardas francesas” e servia como soldado disciplinado. Ele tinha, ao mesmo tempo, a simpatia de seus companheiros e a consideração de seus chefes, sendo útil, franco e leal.

Pouco após ser promovido sargento, ele se casa na comuna de Montmartre com uma concidadã: Catherine Hubscher. Ele com 28 anos, ela 30. Catherine tinha sido uma moça de fazenda nos arredores de Rouffach. O novo casal estava apaixonado. Frequentemente, Catherine seguia seu François-Joseph em campo; incansável e indiferente ao perigo. Totalmente analfabeta, ela tinha assinado uma cruz no ato do casamento. Ela devia estudar após o matrimônio mas não aproveitou muito as lições, a julgar por algumas das cartas de seu tempo de maturidade.

No dia 14 de julho de 1789, as guardas francesas, posicionadas à defesa da Bastilha, contra o povo revoltado, voltam-se à insurreição. Mas, Lefebvre não participa desta deserção ou desta ação gloriosa, dependendo do ponto de vista. Ele estava de guarda no bairro. Vários de seus oficiais, perseguidos pela multidão, estavam refugiados no interior de uma caserna, e lhe salvam.

Da revolução ao império, Lefebvre estava em todas as grandes batalhas, exceto Waterloo (saberemos a razão mais tarde). Cada página da epopéia napoleônica carrega seu nome. Mas, segundo o historiador Joseph Wirth, sua ação mais importante foi a batalha de Dantzig. Ele se comporta aí de maneira humana perante aos prisioneiros inimigos e com cavalheirismo para com o governador prussiano da cidadela de Comte de Kalreuth, ao qual ele faz as honras militares. Sua brilhante conduta nesse sentido valeu-lhe o título de Duque de Dantzig. Quanto a esse propósito, não resistiremos ao prazer de reportar uma anedota que prova, muito ao acaso, que a este bravo não faltava espírito. Quando saia da casa do Imperador, que vinha lhe conferir o título, ele tropeça com tudo e cai sobre o tapete. Levantando, ele diz: “Por Deus! Minha boa cidade de Dantzig é muito mal pavimentada!”

Seu heroísmo estoura durante a campanha da Rússia. Várias narrativas e imagens fixaram a crueldade glacial e, recentemente, um bonito filme, “Guerra e Paz”. A grande armada foram os cossacos, no vento seco e frio vindo do norte ou nordeste, afundando na neve, deslizando na tempestade. Homens e cavalos sucumbem ao frio e à fome. Eles estão em colapso sobre o chão. Corvos disputam os cadáveres.

Lefebvre marchava a pé, à frente de suas tropas. Ele pretendia dar o exemplo de resistência e coragem. Sua missão era conter destacamentos inimigos que ameaçavam os fugitivos e agravavam a debandada. Sem ele, quem sabe o Imperador não tivesse se aproximado e sido capturado? Juntamente com seu companheiro Ney, ele foi o último a sair dessa Rússia fatal.

Depois de “Leipzig”, ele devia desviar-se de Napoleão. Ele sentenciava a corrida para o fim, estimava sua tarefa terminada. Estava a tempo de colocar um fim ao derramamento de sangue, à terrível hemorragia e restabelecer a ordem e a paz. Eis porque ele acusa abertamente, com sua coragem e franqueza, o retorno da Ilha de Elba, que era, em sua opinião, uma instalação ruinosa. O Imperador, furioso, o aposentou do ofício [também poderia ser “cargo” ou “trabalho”], durante os Cem Dias. Em revanche, ele beneficiava do favor dos Bourbons, quando de seu segundo retorno, após “Waterloo”. Contudo, mais realistas que Luís XVIII e sua família, alguns cortesãos demonstravam descontentamento com os nobres do Império. Mas, Lefebvre jamais falta com respeito. A um jovenzinho que tentava lhe impressionar por sua genealogia e as façanhas de seus antepassados, ele replicava: “Não seja tão orgulhoso de seus ancestrais, Senhor! Eu sou um antepassado, eu!” Senhora Cayla, escreve em “Memórias de uma dama de qualidade”: “Ele encontrava respostas tão acertadas quanto suas medalhas.” 

*

*          * 

No que concerne à esposa do Marechal, eis o que dizia um contemporâneo: “Senhora Lefebvre era a digna esposa do Marechal. Ela era uma pessoa de grande valor.” Ela se esquecia da ortografia, mas não do coração; suas maneiras não eram as mais distintas, mas seus sentimentos eram nobres.

Sem ofensas aos cabelos brancos de Victorien Sardou, Catherine Hubscher nunca foi lavadeira, nem cantineira. Ela não tinha modos grosseiros nas recepções das tulherias[1] ou em Compiègne.[2] Apesar de tudo, com o devido consentimento dos dramaturgos, o autor de “Madame Sans Gêne”(“Senhora Descarada”) mostrou uma excessiva repulsa à verdade.

Mais de uma linha denota a delicadeza da alma da duquesa. Ela conservava, em um armário, as diferentes vestimentas usadas por ela e seu marido desde a união. Arrumadas por ordem cronológica, elas marcavam as etapas da carreira. Para ela, aquilo começava no curto saiote de dona de casa e terminava com o vestido de Duquesa bordado a ouro; para ele, partia do uniforme sem grau, do simples militar, e chegava ao ornamentado traje de Marechal da França. Mostrando esta coleção, a sábia Catherine Lefebvre dizia: “Não há mal de rever em tempos em tempos essas coisas, como nós fazemos. É o melhor meio de não esquecer o que ocorreu.”

Impera entre o casal uma compreensão perfeita. O Marechal sabia que na casa da sua esposa o bom senso compensava largamente a ignorância e a consultava facilmente. Ela sempre dava excelentes conselhos. Assim quando Napoleão o incitava, conjurando o alto escalão, alcançado pelo presente soldado que tinha encontrado o bastão de Marechal na sua giberna (bolsa de cartuchos), a divorciar para unir-se com alguma princesa, ele fazia-se de surdo.

Voltemos um instante para André Dupil, de frente ao divã, onde Denise se encontra estendida. André Dupil é evidente, pressente um mistério no nascimento de seu sujeito. Marie-Lise foi filha do Marechal e da duquesa Lefebvre? Suas origens se desenrolam de uma situação problemática que convém dissipar. Conseguirão por insistência, perseverança, depois uma longa sequência de hipóteses: Marie-Lise é a filha do adultério de Pauline Bonaparte e do Marechal Lefebvre!

É fato certa semelhança com uma figura conhecida, mas que era impossível indicar exatamente. Denise, estranhamente, lembrava a mais bela irmã de Napoleão. Neste caso, na sua última reencarnação – sua reencarnação atual – Denise teria conservado os traços de Marie-Lise, que devia ter o rosto de sua mãe.

Ela não tinha apenas o rosto. Marie-Lise tinha também o caráter, o temperamento. Uma biografia de Pauline Bonaparte nos fornece mais de uma prova. Nós nos propomos, de fato, com todas as proporções guardadas, de reiterar, pela alma de Pauline Bonaparte, o que fez Canova para seu corpo em um célebre mármore: mostrá-la sem véus.

Pauline sem véus 

Laetitia Bonaparte e suas filhas foram forçadas, em plena Revolução, a deixar sua Córsega natal e viviam em dificuldades em Marselha, enquanto os homens da família faziam carreira em Paris.

As damas, ou cidadãs, tinham uma pequena lavanderia no bairro Canebière. Laetitia trabalhava no tanque com sua filha mais moça. Elisa e Pauline entregavam roupas em domicílio. Elas eram bonitas, sobretudo Pauline, e eram anunciantes do comércio materno.

Pauline revela-se de uma extrema precocidade. Ela era formada desde os 12 anos. Orgulhosa de seu corpo e empurrada à falta de pudor por sensualidade e vaidade. Quando tomava banho ia de sua casa, em Ajaccio, ao mar, totalmente, nua. O amor, desde cedo, foi sua principal preocupação.

Algumas pequenas aventuras inocentes e então… Fréron. Antigo membro da convenção, amigo íntimo de Barras, protetor de Napoleão Bonaparte. Fréron tinha sido enviado à Marselha como comissário do diretório. Ele já havia ido ao local, durante os tempos de terror, para conter a grande cidade revoltada. Havia cometido atrocidades, as quais os habitantes ainda temiam. Mas, os tempos eram brandos e a guilhotina funcionava cada vez menos. Fosse como fosse, Fréron parecia decidido a apagar as sinistras lembranças de seu precedente proconsulado. Era um vivant e um sedutor profissional. Bonito homem e bom orador, mas marcado pela idade e, um pouco acabado pela devassidão. Ele deixava em Paris uma amante, Senhorita Masson, atriz no “Teatro dos Italianos”, com quem teve dois filhos. “Foi esse indivíduo que devia inspirar em Pauline Bonaparte sua primeira grande paixão, da qual ninguém pode dizer até onde ela ia”, como escreve Bernard Nabonne na magistral obra que ele consagra à mãe clandestina de nossa Marie-Lise. O pretendente quadragenário e a garota de apenas 16 anos estariam casados, com a plena aprovação de Bonaparte, se o crédito de Fréron, com o poder do tempo, não tivesse subitamente diminuído. Napoleão, que o desejava como cunhado tanto quanto ele era amigo de Barras, e que, a esse respeito, podia lhe ser útil, opõe-se, doravante, à união que havia inicialmente favorecido. Pauline despeja algumas lágrimas sobre as ruínas de uma de suas marcantes aventuras, então se resigna.

Pelo destrato, Napoleão, comandante chefe do exército da Itália, a fez ir a Milão. Com um pensamento um tanto antiquado, ele tentava em segredo, para sua bonita irmã, um noivo sobressalente: o jovem General-adjunto Leclerc, que servia sob suas ordens e que tinha o coração novo.

O casamento ocorreu e, dez meses depois, em 20 de abril de 1798, Pauline deu à luz um garoto. O pai, influenciado pelos poemas de Ossian, o nomeia Dermid.

Pauline era inconstante e cheia de caprichos. Seus sentidos a governavam. Também não demorava a enganar seu marido e ela não escolhia sempre bem seus amantes. Um deles era um medíocre comediante de sobrenome Rapenouille. Ela era tão ligada ao tal Rapenouille, que quando Napoleão tronou-se primeiro cônsul, designando o general Leclerc para reconquistar Saint-Domingue, que nos tinha escapado, ela se recusa de imediato a seguir o esposo, mas, finalmente, obedece a uma notificação de seu mestre. Suas bagagens continham uma quantidade absurda de vestidos, chapéus e futilidades.

A expedição Leclerc começa vitoriosa. Vitórias de Pyrrhus. A resistência dos negros renascia incessantemente e a febre amarela tomava partido, dizimando nossas tropas. No meio da ansiedade pública, Pauline não renunciava nem ao luxo nem ao prazer. Realçada pelos vestidos e por suas mais caras joias, ela dava bailes e festas.

Leclerc obrigou Pauline a voltar à metrópole, com o pequeno Dermid, para que ela e seu filho ficassem protegidos da febre e da insurreição geral. Mas, este ser fútil sabia, talvez, provar sua coragem e não queria, sendo ela uma Bonaparte, tornar-se culpada de uma espécie de deserção.

A insurreição prevista explode e a febre amarela leva o desafortunado Leclerc. Pauline embarca com Dermid para a França, trazendo o coração de seu marido em uma urna de ouro. Era milagre ela e a criança terem escapado dos diversos perigos de Saint-Domingue.

A jovem e bela viúva buscava um consolador. Ela encontra consolo na casa de um príncipe italiano que pertencia a uma das mais ilustres famílias da península: Camille Borghèse. Ele não era instruído – o que não repelia a ignorante Pauline, – pouco inteligente, mas de aspecto agradável e possuía a mais bela aparência de Paris. Este atrativo contava muito especialmente aos olhos de Pauline, que era louca por carruagens e cavalos. Napoleão e toda família viam com bons olhos um casamento com Borghèse. Isso lisonjearia sua vaidade e seu gosto por dinheiro.

Menos de uma semana após a cerimônia, o príncipe e Pauline partiam para instalar-se em Roma, onde morariam em um magnífico palácio. A habitação continha tesouros de arte, mas Pauline preocupava-se pouco com isso. Ela se interessava apenas por questões do coração e aspirava novas aventuras, pois seu esposo se revelava uma triste Majestade, do qual ela já se sentia saturada. Enquanto isso, Ela gastava excessivamente com sua aparência, zangando-o muito, visto que apesar de sua imensa fortuna ele era avarento. Iniciaram desavenças prematuras de casal.

Mais uma distração imprevista é oferecida à Pauline. Canova projetava esculpir Vênus, com a maçã de Páris na mão, alongada, nua até abaixo dos quadris, sobre uma cama antiga. A princesa Borghèse posou a cabeça. Outra, – uma modelo comum – posaria para o corpo. Mas, um dia, Pauline, possuída pelo mesmo orgulho impudico que Phryné, diante da assembleia, ao arrancar sua túnica dizendo: “Todo véu pode cair em frente Canova”…

Essa excentricidade poderia ter afastado mais ainda o casal Borghèse. Mas não houve nada. O príncipe se mostrava orgulhoso por todos conhecerem a rara beleza de sua esposa. O mármore era exposto em local de honra, em um dos salões. Mais tarde, quando ele não morava mais no palácio Borghèse, convida o grande público a admirar a estátua de Canova, fixando um dia da semana em que as visitas seriam autorizadas.

No entanto, Napoleão, o Cônsul, se promove Imperador. De um só golpe, Pauline torna-se Alteza, dando ainda mais ascendência sobre seu lamentável marido… Mas ela se sentia cansada, doente. Enquanto ela fazia uma cura nas águas de Lucques, o pequeno Dermid deixado em Roma morreu, fazendo-a experimentar um violento desgosto. Ser amante, antes de tudo, não a fazia ser menos mãe.

Sendo-lhe o clima transalpino desfavorável, seu estado de saúde se agrava. Ela então obtém, de Napoleão, a permissão para voltar à França.

Ela reencontra com prazer o ar de Paris e seu hotel, Charost, que seu imperial irmão tinha lhe ofertado ao seu retorno de Saint-Domingue. De um lado do hotel estava o subúrbio Saint-Honoré e do outro um parque aberto sobre Champs-Elysées (local da atual embaixada da Inglaterra). Plagiando Napoleão, ela era constituída de um coração verdadeiro, com uma etiqueta muito severa que tinha composto ela mesma.

Ela teria a felicidade de bancar a soberana se sua má saúde não tivesse ocasionado sérios problemas. E mais, ela se julgava preterida na distribuição de Ducados e Reinos, com os quais o Imperador gratificava os seus. Ela recebeu apenas uma simples Cidade-Forte: Guastalla. A que atribuir este tratamento desfavorável? Pauline era a irmã que tratava Napoleão com mais ternura e dedicação; ela era sua preferida. E então?… Pauline, neste negócio, incrimina seu marido. Para satisfazer a pueril vaidade do príncipe e se livrar dele, ela o tinha feito nomear “chefe do esquadrão em decorrência de granadeiros a cavalo”. Ele se mostrou insuficiente no cargo e o Imperador era rigoroso. Era injusto; era dessa forma. Aquilo atiçava a inimizade de Pauline para com o príncipe.

Sempre sofrendo, sempre em busca de remédios, Pauline frequentava as estações termais. “Ela tinha pegado gosto a estas andanças que satisfaziam sua paixão de mudança e a necessidade de se cuidar.” Sua carruagem era seguida por vários carros. Em algumas viajavam membros indispensáveis, sua corte e seu pessoal, nos outros sua banheira, seu bidê dourado, sua liteira, sua rede.

Em um verão, os médicos lhe prescreveram banhos de Plombiéres[3] e ela partia com seu comboio habitual. Sua passagem por Bar-le-Duc, nos relata Bernard Nabonne, revela a qual ponto sua estada em Saint-Domingue e as honras extraordinárias que ela recebia, desde o advento de seu irmão, tinham-na mimado.

O prefeito de Meuse era um de seus velhos cunhados, Louis Leclerc, ex-padre com o qual ela tinha conservado excelentes relações. Ela teve o cuidado de lhe escrever para a passagem na sua cidade era essencial que ela tomasse um banho de leite com ducha; e o funcionário, com o forte desejo de satisfazer sua influente cunhada, estava ansioso em agradar sua duquesa, que havia pegado nos campos todo o leite necessário.

Na chegada dos carros de Sua Alteza Imperial, o prefeito foi à carruagem de sua cunhada que lhe pede, como se fosse natural, para levá-la em seus braços até o salão de honra. O seguinte diálogo se instala:

– E meu banho? Pergunta Pauline.

– Ele está pronto.

– Ah! Bem melhor! Eu agradeço. Mas depois do banho, eu precisarei tomar uma ducha.

– Uma ducha! Uma ducha! É impossível. Eu não tenho ducha.

– Impossível, meu irmão, você não pensa nisso. Nada é mais simples. É necessário fazer um buraco no teto, acima da banheira, e fazer despejar água por este buraco. Eu causo um pouco de perturbação, meu irmão, mas minha saúde exige. Você quer que eu fique doente por sua culpa? Rápido, rápido, procure os trabalhadores.

O triste prefeito era obrigado a executar e recebia como agradecimento uma amigável palmada na bochecha. Como a princesa tinha ido tomar banho no seu salão de honra, aquele foi, irremediavelmente, deteriorado pelo líquido, que jorrava de todas as partes. Durante muito tempo a prefeitura inteira devia lembrar-se da cena e do insuportável odor de leite azedo.

Contudo, Pauline chegava no dia seguinte a Plombières. Lá, ela ia ter uma aventura, na qual as consequências iam nos dar a explicação de seu temperamento e de sua maneira de ser.

Este novo eleito, o Conde Forbin, não perde tempo em seduzir Pauline. Ele pertencia à melhor nobreza de Midi, mas a revolução matou seu pai. Menos de trinta anos, grande, esbelto, artista, cultivando letras e pintura, não sem paixão, se ele tivesse dinheiro teria sido completo. Pauline se encarrega de suprir esta falta.

Napoleão era obcecado pela antiga nobreza: longe de reprovar e contrariar a ligação de sua irmã, ele se põe a auxiliá-la. Ele nomeia o Conde Forbin oficial da S.A.I. [Soberana Alteza Imperial] Pauline Borghèse.

Aquilo era paixão forte. Ao ponto de que ela, tão econômica, avarenta mesmo, gastava sem contar para seu oficial-amante sem valor. Ela lhe ofereceu caros presentes, indo até lhe pagar tripulações. Dizendo a verdade, ele preenchia suas funções com superioridade. Ele organizava recepções, oferecia divertimentos e balés, onde triunfava a mais bela modelo de Canova. O Conde Forbin não queria seu dinheiro.

Mas, esta existência de exaltação onde se conjugavam todos os prazeres, consumia Pauline. Seu estado tornou-se alarmante. Tanto que o médico solicitado, Dr. Peyre, chamava para uma consulta seu colega Hallé, membro do instituto, professor no Colégio de França e médico da casa do Imperador que era especializado em ginecologia. Hallé diagnostica uma enfermidade causada por excesso de doenças venéreas: ele ordena uma vida calma, com infusões de nenúfar e de tília. Nada de bailes, de jantares regados a champagne! Nada de reuniões mundanas! Sobretudo, nada de Forbin!

Mas de Forbin ela não podia mais passar, pelo menos até nova ordem. Ele se arruma para vê-lo às escondidas. Para separar os amantes não foi necessário menos que a intervenção do Imperador. O Imperador, lembrando-se de que Forbin tinha servido na cavalaria, envia-lhe à guerra na Espanha, com a patente de subtenente.

Pouco antes de ter sido privada de seu oficial querido, Pauline o substitui por um músico. Ela se encontrava em Nice “um magnífico domínio cheio de árvores tropicais, que margeiam o mar”. O amante, Félix Blangini, era o autor de romances, de noturnas e de uma ópera: “Nephtali”. Ele tocava violão com perfeição. Pauline o nomeia seu chefe de orquestra.

O jovem músico reagia, dia e noite, com seu violão, às ordens daquela que era sua maitresse [misto de mestra e amante] dentro da dupla acepção do termo. Ele tocava romances que ela tinha inspirado e que ele consagrava. Ele tinha o humor indiferente e não fazia nada sem sua permissão. Um escravo e ao contrário dos negros de Saint-Domingue: um pequeno cachorro. Ele era infinitamente menos querido que o Conde Forbin, no qual a sina a deixava agora indiferente.

Ela estava em pleno idílio com seu músico, nas margens do Grande Azul, o Mediterrâneo, quando o Imperador teve a infeliz ideia de nomear o príncipe Borguèse “Governador geral de Piémont”, cuja capital era Turim, com a obrigação, para ela, de residir lá perto de seu esposo. No dia 23 de abril de 1808, eles faziam sua entrada solene, escoltados por todos os dignitários do governador geral e os membros de sua casa. Naturalmente, o maestro também estava lá. Mas o príncipe lhe fazia cara feia; ele teme alguma má história e foge.

Pauline, sem amor em Piémont, cujo ar não lhe agrada, fica doente de novo. Desarmado por esta recaída, Napoleão a autorizou a viver de agora em diante em Paris. Ele preparava seu divórcio e, para esquecer as cenas de Joséphine, cortejava uma das damas de honra de Pauline, Christine de Mathis. Mas esta era honesta e se recusava. Pauline aceita de bom grado se intrometer. Ela gostava sinceramente de seu irmão, disso já se sabe, e dependia muito dele. E, além do mais, tratava-se de amor e amor era seu forte. Efetivamente, ela manobra tão bem que Christine de Mathis cede a Napoleão. Joséphine, como represália, fazia com se espalhassem, acerca das relações de Pauline com o Imperador, ruídos incontroláveis e provavelmente caluniosos. Mas Pauline não era flor que se cheirasse, e se não comete o incesto, ela consuma o adultério com intemperança. Pois ela continuava apesar dos requisitos da boa moral. A lista de seus amantes aumentava. Um jovem oficial alemão, Conrad Friedrich, de passagem em Paris, veio lhe pedir uma recomendação. Ela tinha lhe encontrado e pedido para voltar, mas na segunda visita, recebeu-lhe no quarto de banho. Adivinha-se, facilmente, o que veio em seguida.

O casamento do Imperador com Marie-Louise tinha levado à Paris grande número de elegantes estrangeiros. Pauline foi amigável com vários, notadamente com o príncipe de Metternich, o futuro guarda de Aiglon. “Vários anos mais tarde, ele mostrava, com um suspiro, o retrato de Pauline em seu palácio em Viena.” Então, foram o príncipe Poniatowski e o Coronel Czernicheff, ajudar no campo do Tsar. Dessa forma, ela encontra um meio de reconciliar, em seu vasto coração, dois inimigos irredutíveis: Polônia e Rússia.

Depois destes amores estrangeiros, Pauline voltava aos franceses. Aos seus olhos, eles se saíam bem melhor comparados aos rivais estrangeiros.

Ela conhece, no senso bíblico da palavra, um jovem oficial de cavalaria: Jules de Canouville, que não se privava de clamar a todos os lados seus amores com uma Alteza imperial; depois, fiel pelo menos para o exército, um capitão de dragões[4]: Achille Tourteau de Septeuil. Este Septeuil, durante a guerra da Espanha, teve uma perna amputada no combate de Fuentès. A princesa exclama:

– Uma pena! Um bom dançarino a menos.

Todas as noites havia grande recepção na casa de Pauline. Jogavam cartas e jogos mais ou menos inocentes. Em geral, ela retinha um dos parceiros até a aurora.

No verão de 1811, em Aix-la-Chapelle, ela se divide entre o Conde de Montrond e um Coronel russo: Ivanovitch Kabloukoff.

De volta à Paris, ela reencontrava o oficial de cavalaria Jules de Canouville. Mas, ele era indiscreto e, como punição das propostas indiscretas sobre seus amores com a princesa, Napoleão o envia à Dantzig.

Quem devia substituir este obscuro? Um ilustre. O maior escritor de tragédias do século… E talvez de todos os tempos: Talma. Mas, em 1812, em Aix-les-Bains onde ela seguia a cura, Talma era ofuscado. Seu alegre rival era um esplêndido chefe de esquadrão de artilharia: Auguste Duchand.

Recorda-se que Pauline, em Saint-Domingue, teve momentos de heroísmo. Ela se manifesta nobremente quando o Império reduz. Nos dias gloriosos, ela era vista como criatura egoísta e fútil, mas soube redimir os tempos sombrios. Para socorrer o Imperador, em ganidos, esta avarenta vendeu a maior parte de suas joias. Ela se arranja para vê-lo quando ele passasse a embarcar para a Ilha de Elba e lhe dispensa palavras de reconforto.

Ela não tinha, para tanto, renunciado a Duchand, ao qual portava sentimento de uma duração não usual. Ele merecia este tratamento excepcional. Ele era diferente de todos, de um Forbin ou de um Canouville.

Pauline tinha prometido a seu irmão exilado de lhe visitar em seu Império irrisório, na Ilha de Elba. Ela mantém a palavra e foram algumas horas de efusões. Ela volta para uma temporada prolongada.

Com ela tinham desembarcado, na ilha, a despreocupação e a alegria. Em efeito, ela organizava recepções, bailes e espetáculos. Em um reduto mascarado, ela teve um retumbante sucesso, travestida em napolitana. Sobre esses conselhos, Napoleão edifica um teatro.

Entre os fiéis que queriam seguir a Águia, em exílio, encontrava-se Drouot. Era um solteiro, reputado por sua sinceridade e piedade, que não concebia o amor fora do casamento e se agradava somente com o estudo. Napoleão o tinha apelidado “o sábio do grande exército”. Pauline queria seduzi-lo. Simples passatempo de galanteadora? Diversão perversa? Ela o fazia assistir a seus banhos e lhe convidava a acompanhá-la nas caminhadas. Ele fazia com má vontade. Todas as provocações de Pauline falharam.

Pauline permanecia na Ilha de Elba, dia 26 de fevereiro de 1815, durante a partida de Napoleão em direção à França e em direção ao desastre sem recurso. Quando ela teve conhecimento, correu para a casa de seu irmão e lhe deu um estojo de joias. Ele continha seu mais belo colar de diamantes, avaliado em 500.000 francos. Era sua contribuição pela aventura. Partindo Napoleão, ela segura os soldados de sua escolta e lhes recomenda velar sobre ele. Lágrimas reluziam seus olhos de noite e via-se transpirar ásperos bigodes. Uma jovem cena digna de inspirar o lápis de Raffet.

Ela conseguiu escapar da ilha e depois de inúmeras tribulações, volta para Roma e se reinstala no Palácio Farnèse. Naturalmente, lá como alhures, ela abre seus salões. Quer por curiosidade, quer por esnobismo, muitos ingleses os frequentavam. Pauline tentava obter, graças a sua intercessão, alívios pela saída do deportado de Saint-Helène. Um deles, Lord Douglas, futuro Duque de Hamilton, já velho e aleijado de reumatismos, lhe servia caricaturas. Ela o tinha apaixonadamente bobo e o utilizava como tamborete. À noite, ele se deitava e ela gostava de pisoteá-lo.

O dia onde ela apreende a morte da Águia sobre seu rochedo, “ela se reduz, desmaia como a luz de um relâmpago”.

A contar deste luto, sua saúde se altera cada vez mais. Ela morreu em 9 de junho de 1825, em Villa Strozzi, no subúrbio de Florence, depois de ter se aproximado de seu marido. Despejaram seus restos na cripta de Sainte-Marie-Majeure; e o jazigo desta pecadora, com ilustrações da família Borghèse, era edificado entre os túmulos de dois grandes papas: o magnífico Paul V e o piedoso Clement VIII. 

*

*          * 

Pauline Bonaparte viveu sob a ditadura da carne. Sua sensualidade, posta até a morbidade, revelava patologia. Foi uma ninfomaníaca, com uma ponta de sadismo. O que se ignora, geralmente, é que ela possuía o “Parque dos Veados”, na Ferté-sous-Jouarre, para suas libertinagens mais secretas. Era uma espécie de loucura. O edifício existe, mas mudou de destinação. A loucura tornou-se posto-policial, onde Pandore redige processos verbais.

É evidentemente nesta loucura da Ferté-sous-Jouarre que tiveram lugar os galantes encontros de Pauline e do Marechal Lefebvre, ao menos os primeiros. Dessa forma, a presença de Pauline na região onde Denise viu o dia, corrobora certos dizeres desta última.

No entanto, há um problema. O Marechal passa a ter sido um bom esposo. Justamente. Nós o estabelecemos mais à frente por meio de textos irrefutáveis. Mas, o melhor marido não é susceptível a erros de conduta? Sobretudo um soldado, um soldado do Império. Lefebvre tinha treinado transeuntes em todos os países conquistados por nossas armas. Belas alemãs, não menos belas que as austríacas, abriam seus braços a este vencedor. Ele tinha, aqui e ali, se deixado vacilar.

E representa-se suficientemente bem sua ligação amorosa de curta duração com Pauline. Aflorar este rude guerreiro, este bom marido, este excelente pai (sua esposa lhe tinha dado 14 filhos, dos quais 12 garotos!). Que divertido vacilo! Sua reputação de perseverança e austeridade excita esta galanteadora. Ela usa dessa artimanha com Lefebvre, como ela se comportará mais tarde com Drouot, na Ilha de Elba. Imaginemos a cena da sedução. Em algum baile da corte, Pauline força o Marechal a dançar. Durante a valsa, ela lança olhares enamorados. Ela se insinua e deixa sua blusa escapar, com volúpia, por seus ombros, decotá-la mais do que isso não é conveniente; ela descobre o máximo possível o busto perfeito que Canova imortaliza. O tour é lançado, o galanteio começa.

Tendo realizado este esboço de três personagens essenciais – e históricos – de nossa exposição, é tempo de voltar ao consultório de André Dupil para assistir lá a primeira sessão de hipnose.




[1] Antigas fábricas de telhas (N. T.)

[2] Cidade francesa (N. T.)

[3] Trata-se de uma cidade. (N. T.)

[4] Soldados da cavalaria (N. T.)

5 respostas a “MARIE-LISE, INVISÍVEL E PRESENTE – Capítulo 3”

  1. Vital Cruvinel Diz:

    “Neste caso, na sua última reencarnação – sua reencarnação atual – Denise teria conservado os traços de Marie-Lise, que devia ter o rosto de sua mãe.”

    Eu achava que reencarnação não tinha nada a ver com parecença biológica. Ou estou enganado?

  2. Vitor Diz:

    Oi, Vital
    Os casos de Stevenson fizeram notar alguma semelhança biológica com a vida passada sim.

  3. Vitor Diz:

    Tucker diz no artigo “Uma Escala para Medir a Força das Alegações de Vidas Anteriores das Crianças “:
    .
    “a semelhança facial entre o sujeito e o indivíduo morto, avaliada por aqueles que conheciam o morto, provou estar significativamente correlacionada à força do caso.[...] a correlação entre a pontuação na escala-de-força-do-caso e a semelhança facial entre o indivíduo e a personalidade prévia é coerente com a hipótese de reencarnação, em que os casos com mais resíduos da vida passada apresentariam alguma semelhança facial, tal qual acontece com marcas e defeitos de nascença. A hipótese socio-psicológica talvez prediga que as pessoas que acreditam que uma criança é a reencarnação de uma pessoa morta seriam mais propensas a ver uma semelhança facial do que as que não acreditam. Apesar disso, esta hipótese não prediz este resultado em que semelhanças faciais são mais comumente informadas nos casos mais fortes do que nos mais fracos.”

  4. Vital Cruvinel Diz:

    Oi, Vitor!
    Não me lembro de ter lido no “Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação” algo enfático em favor desta hipótese de que um corpo em uma vida se pareça com o corpo da vida anterior de um espírito. Talvez eu não tenha prestado atenção nisto.
    Aliás, se esta hipótese estiver correta qual seria a explicação para ela? O espírito molda o corpo? Neste caso não teríamos, em geral, várias pessoas muito parecidas?

  5. Phelippe Diz:

    Difícil acreditar em tal coisa.

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