No umbral do desconhecido: Um caso de visão extraordinária na Espanha de Primo de Rivera (2013)

Neste artigo analisam-se as reações suscitadas entre cientistas e intelectuais sobre um caso sensacional: a suposta visão através de materiais opacos por parte do filho do marquês de Santa Cara, que atraiu a atenção da sociedade espanhola por volta de 1924. Alguns conhecidos cientistas e intelectuais como Cabrera, Torres Quevedo, Gimeno e Valle-Inclán, certificaram a autenticidade do fenômeno. O trabalho trata de compreender os motivos deste fato, recolhendo as teorias que se lançavam à época em torno de novos tipos de raios e desconhecidas capacidades psíquicas. No contexto da Espanha dominada pelo Regime primoriverista, dois engenheiros avançavam explicações metapsíquicas de signo patriótico, enquanto o marquês usava sua posição social para endossar o caso e promover seu labor científico no terreno da metapsíquica. No entanto, o prodigioso aristocrata e seus promotores viveram um sério revés a partir do encontro com o famoso ilusionista Houdini e a crítica do psiquiatra Rodríguez Lafora, que interpretou a façanha como produto da sugestão.

Annette Mülberger (*) e Mònica Balltondre (*)

(*) Centre d’Història de la Ciència (CEHIC), Universitat Autònoma de Barcelona

[email protected]; [email protected] 

Dynamis

[0211-9536] 2013; 33 (1): 195-216

Data de recepção: 22 de março de 2012

Data de aceitação: 30 de novembro de 2012.

 

Esta é uma versão traduzida de um artigo publicado no Journal Dynamis (2013) vol. 33, nº 1, pp.195-216; portanto todas as citações devem usar o texto original (ver www.revistadynamis.es)

SUMÁRIO: 1.—Introdução. 2.—O caso na imprensa. 3.—Explicações do caso. 4.—Conclusão.

PALAVRAS-CHAVE: parapsicologia, metapsíquica, Marquês de Santa Cara, clarividência, imprensa.

1. Introdução (*) 

Em oito de março de 1923 se levantou ata notarial da certificação por parte de várias testemunhas de um «prodígio visual» em Madri, que captaria durante alguns anos a atenção do público, alimentando especulações sobre as possibilidades da mente e da matéria. Um jovem podia ver com os olhos vendados o que estava dentro de caixas metálicas totalmente fechadas, podia ler fragmentos de texto depositados no interior e saber a hora marcada aleatoriamente em relógios com a tampa fechada.

O jovem com a suposta visão prodigiosa era Joaquín María Argamasilla de La Cerda y Elio (1905-1985), de dezoito anos de idade. Foi o primogênito do marquês de Santa Cara, chamado Joaquín José Javier Argamasilla de La Cerda y Bayona (1870-1940), um aristocrata carlista de Navarra[1] que tinha estudado direito e publicado vários livros de investigação histórica e dois romances. Estava-se dedicando ao estudo da clarividência, um ramo da metapsíquica, quando acreditou descobrir em seu filho essa nova capacidade visual.[2] Um dos primeiros a presenciar o misterioso poder foi Joaquín Menéndez Ormaza, engenheiro de minas e escritor, amigo da família. Ele deu a conhecer o caso em 1923 no jornal com o que colaborava, El Imparcial.[3]

Logo em seguida se fizeram uma série de comprovações no Museu de Engenheiros Militares e no Palácio Real. Segundo explica o psiquiatra Gonzalo Rodríguez Lafora (1886-1971), a rainha María Cristina tinha pedido a Santiago Ramón y Cajal que presidisse uma comissão de peritos para examinar o caso. Ainda que tal comissão tenha se formado, parece que não chegou a examinar o jovem porque este comunicou um dia antes que tinha perdido a faculdade.[4] No entanto, houve uma série de comprovações organizadas pelo pai na mansão dos marqueses. Ali, Joaquín mostrou sua visão prodigiosa ante os peritos, entre os quais se encontravam os membros da Real Academia de Ciências como o físico Blas Cabrera (1878-1945), o médico e político conde Amalio Gimeno y Cabañas (1852-1936), o engenheiro e matemático Leonardo Torres Quevedo (1852-1936) e o naturalista José Maria Castellarnau (1848-1943), que certificaram a autenticidade do fenômeno.[5]

Para o presente trabalho escolhemos o debate a respeito de um caso de visão prodigiosa para nos aproximarmos da ciência e da sociedade espanhola de meados da década de 1920. Interessa-nos, em primeiro lugar, acompanhar a história do caso através da imprensa, para depois passarmos a elucidar as opiniões e as explicações que ela suscitou no momento do apogeu. Isso nos permitirá discutir as concepções que circulavam neste momento na Espanha sobre as capacidades da mente e da matéria. Para o entendimento das interpretações será necessário adentrar-nos no contexto científico e social do momento. Este exercício nos permitirá refletir sobre as relações entre peritos e leigos, entre cientistas, imprensa e público, bem como a comparação com outros contextos nacionais e casos similares.

Ao acabar a Primeira Guerra Mundial nos encontramos no momento de maior atividade espiritista e expansão das investigações psíquicas.[6] A razão alegada para explicar esta evolução assinala a guerra como uma experiência traumática que gerou um crescente interesse por contatar com entes queridos desaparecidos e falecidos. Boa mostra deste interesse é visto nos resultados da enquete realizada entre 1921 e 1922 por Heuzé sobre «les morts vivent-ils?» (Os mortos estão vivos?).[7]

Nos anos 20, a investigação científica do paranormal na Europa deu uma guinada com o desenvolvimento de linhas de investigação divergentes, impregnadas de aspirações nacionalistas. Assim, enquanto na Alemanha se desenvolveu a parapsicologia,[8] na França a fundação do Institut Métapsychique International mostra o propósito de hegemonia nacional e internacional, junto a uma reorientação focada para a obra de Richet.[9] Apesar de não intervir na guerra, a Espanha não ficou à margem de tal tendência. Como assinala Glick,[10] na segunda década do século XX, o clima da ciência do país se caracterizava por viver uma etapa de expansão, mostrar um alto grau de discurso civil entre pessoas de todos os setores ideológicos e um contato fluido com o estrangeiro.

O tratado de Richet, que teve uma excelente acolhida na Espanha, considerava a clarividência como a expressão de uma capacidade criptestésica totalmente demonstrada e «indubitável»[11]. Um dos que destacaram mais nesta capacidade foi um engenheiro polaco chamado Stefan Ossowietzki, que fora examinado com sucesso por Richet e Geley em Paris e em Varsóvia.

Por que não apareceria um caso sui generis também na Espanha? Vários aspectos contextuais resultaram propícios. Em primeiro lugar, nos referimos à fascinação exercida pela ciência e a tecnologia moderna e à popularização da ciência que convidava à experimentação com fenômenos paranormais. Em segundo lugar, há que ter em conta que nos encontramos ante uma sociedade que, dominada pelo regime militar de Primo de Rivera, procurava mais do que nunca o entretenimento.[12] A imprensa, ante a ameaça de censura, procurava temas politicamente pouco comprometidos e sensacionalistas. Ademais, desde o princípio, o caso de Argamasilla esteve avalizado por militares. Um das primeiras testemunhas da façanha do jovem marquês foi o comandante de artilharia José Cruz Conde (1878-1939),[13] de ideologia conservadora, condecorado com vários galardões militares e civis.

Historiograficamente, o presente trabalho está unido à história do que durante muito tempo foi denominado «pseudociência», como seria o caso das práticas ocultistas, espiritistas e das investigações psíquicas.[14] Se encontra, assim mesmo, na linha dos estudos sociais da ciência,[15] com sensibilidade para as idiossincrasias dos contextos locais.[16]

Num trabalho anterior sobre metapsíquica,[17] mostramos que na sociedade espanhola dos anos vinte, fortemente seduzida pelos novos achados técnicos e científicos, também esteve presente uma atitude crítica ante uma ciência «materialista», junto a certa expectativa em relação a possíveis descobertas revolucionários na esfera psíquica. Segundo a idéia de uma ciência empírica indutiva, a metapsíquica oferecia um terreno de fácil acesso para aficionados com ambições científicas que trataram de contribuir para a uma enciclopédia de fenômenos «maravilhosos» e espirituais. Alguns cientistas, no entanto, reagiram ante tais ambições recusando estes esforços como intromissões profissionais.

Na linha iniciada, examinemos agora mais de perto o caso Argamasilla para conhecer melhor os raciocínios, interesses e esforços de (des)legitimização que entram em jogo na discussão que suscitou. Como observa Nieto-Galán,[18] as práticas heterodoxas (como o magnetismo animal, a homeopatia ou a frenologia), foram difamadas pela autoridade científica de cada momento, mas legitimadas de forma espetacular pelo público. Em nosso caso, tal divisão não se encaixa de todo, dado que nem o público em geral, nem a comunidade de cientistas, formam uma unidade de opiniões homogêneas, como se verá. Encontramo-nos ante um panorama mais complexo, com uma sociedade espanhola em extremo curiosa mas dividida em opinião a todos os níveis.

2. O caso na imprensa

Apesar da publicação da notícia na imprensa, o caso passou relativamente despercebido na Espanha até que, ao ano seguinte, o fisiologista Charles Richet (1850-1935), examinou favoravelmente ao jovem no Institut Métapsychique International (IMI) de Paris. A imprensa espanhola (o ABC, La Vanguardia e La Época) em seguida informou a notícia reproduzindo o mesmo fragmento de uma carta que o Prêmio Nobel francês tinha enviado ao conde Gimeno. Nela, Richet expressou sua admiração pela faculdade do prodígio espanhol, agradecendo por tê-lo podido comprovar:

«a surpreendente lucidez de Joaquín Santa Cara. Isso é verdadeiramente maravilhoso. Estamos em dias de descobrir novos raios. Encontramo-nos na presença de uma das maiores descobertas dos nossos dias. Comprovadas estas assombrosas faculdades, precisamos continuar os estudos»[19] 

A partir deste momento, a suposta capacidade visual do jovem marquês atraiu mais curiosos. O pai organizava as sessões em sua casa em Madri ante um seleto público de intelectuais,[20] recebendo a seus convidados «com a nobre simplicidade castelhana». Impressionados pela honra da visita, chamava-lhes a atenção o olhar franco e natural do «garotão bonito», totalmente oposto em seu aspecto às típicas «manhas de prestidigitação».[21]

Sem necessidade de entrar num estado mental alterado através de um transe hipnótico, o moço pedia que lhe vendassem os olhos com algodões oprimindo as pálpebras fechadas, porque dizia que via melhor quanto maior era a escuridão.[22] Depois aproximava e afastava várias vezes o objeto de seu rosto, fosse este uma caixa ou um relógio fechado. Depois de um bom momento, informava com exatidão do conteúdo.

O primeiro silêncio provocado pelo assombro ficava interrompido pelo planejamento de uma nova comprovação que consistia, geralmente, em que alguma das testemunhas recortasse às cegas um fragmento de jornal e o encerrasse na caixa. Ao cabo de uns 5 minutos de sondagem, o garoto podia ler as palavras do texto arrancado. Um repórter de La Vanguardia, presente na sessão, concluía: «A mais firme convicção da veracidade do fenômeno se fazia patente em todos os presentes, e esta é a melhor garantia que posso dar a meus leitores do que vi”.[23]

Depois dos primeiros sucessos em casa e no estrangeiro, os jornais apresentaram o caso como demonstrado. Assim, La Correspondencia de España aclarava os detalhes do procedimento indicando que:

«O que constitui um fato inegável é a existência do fenômeno descrito completamente imune a qualquer fraude, não só pela séria honorabilidade dos marqueses de Santa Cara, senão pela rápida evidência a que chega o espectador ante a simplicidade e clareza do experimento, completamente exeqüível à comprovação mais severa»[24]. 

Ao longo do mesmo ano, os Argamasilla viajaram para os Estados Unidos onde a Boston Society for the Psychical Research (BSPR) quis examinar o caso. Esta Sociedade provinha da ala mais científica da American Society for Psychical Research (ASPR), conhecida pela atitude crítica de alguns de seus membros.[25]

Enquanto pai e filho estavam na América do Norte, o diário La Época falava do sucesso em Nova York e o conservador ABC anunciava triunfalmente que o prodígio espanhol estava impressionando aos americanos, informando do ganho de uma suposta aposta de 5.000 dólares.[26]

Mas há outra versão muito diferente dos fatos. No momento em que Argamasilla foi estudado pela Boston Society, o famoso mágico e ilusionista Harry Houdini (1874-1926) colaborava com a Sociedade. Envolvido numa luta pessoal contra as médiuns, seu papel era tentar detectar possíveis truques. Segundo as publicações do próprio ilusionista, este conseguiu desacreditar Argamasilla. Nos meios de comunicação estadounidenses se refere ao aristocrata espanhol, primeiro, como «Spaniard with X-Ray Eyes» e depois, num folheto publicado por ele, desqualificava-opor ser um vigarista («phenomenal mystifier»), explicando seus supostos truques. Acusava-lhe de levantar ligeiramente com o polegar o canto traseiro da tampa para ver o interior.[27]

O New York Times assinalou, em primeiro lugar, o sucesso da demonstração pública da visão prodigiosa do jovem aristocrata.[28] Mas quando Houdini lhe desafiou a repetir sua façanha com outras caixas, parece que a comitiva espanhola abandonou a sala em protesto[29]. Em seguida o ilusionista tentou copiar a leitura do relógio fechado, falhando ligeiramente.[30] Ainda assim, parece que conseguiu semear a dúvida a respeito da visão de Argamasilla.

Esta versão dos fatos levaria ainda um ano para fazer-se pública na Espanha. Em princípios de agosto de 1925, Rodríguez Lafora publicou no jornal liberal-regeneracionista El Sol um artigo falando do trabalho da Boston Society desmascarando médiuns, e informou que Houdini tinha descoberto os truques do vidente espanhol.[31]

Parece que Argamasilla filho enviou uma carta pessoal a Rodríguez Lafora onde contava que Houdini, depois de ter presenciado seus poderes, tinha-lhe proposto uma aliança, à qual recusou. Então, para vingar-se, Houdini escreveu na imprensa que sua visão tinha truque.[32] Mantendo-se firme, o psiquiatra decidiu publicar alguns das gravuras explicativas dos supostos truques das caixas, tal e como Houdini os tinha desenhado para mostrar como conseguia o jovem olhar por uma fresta no interior da caixa.[33] Ademais, instou aos cientistas que tinham assistido a alguma das sessões demonstrativas que se pronunciassem.

A reação pública dos marqueses e do seu grupo de apoio não se fez esperar. Na mesma noite entregaram ao diretor de El Sol vários escritos pedindo a publicação dos mesmos em primeira página para o dia seguinte. Numa delas, o filho se reafirmou como «cavaleiro equilibrado, e não um farsante ou um alucinado”.[34] Em outra carta os «médicos professores do Instituto Oftálmico» defendiam a atuação de Argamasilla. Declararam que as experiências feitas cumpriam as exigências de um «controle perfeito», ao estar o jovem constantemente rodeado pelos observadores.[35] Também Blas Cabrera, Amalio Gimeno, Leonardo Torres Quevedo e José Maria Castellarnau sustentaram numa carta conjunta que era impossível que Argamasilla tivesse utilizado qualquer fresta para ver o interior.[36]

Mas a opinião das testemunhas estava dividida. Manuel Márquez, catedrático de oftalmologia da Universidade de Madri, afirmava a título pessoal que a sessão à que tinha assistido distava muito de oferecer as garantias científicas necessárias.[37] Não lhe tinha parecido cortês pedir a Argamasilla prosseguir com as provas do jeito que lhe teria agradado.[38] Juan Negrín, então professor de fisiologia da Faculdade de Medicina, opinava que ocaso era mais digno de ser tratado como tema de literatura picaresca do que de receber interesse científico.[39] O escritor Ramón María do Valle-Inclán (1866-1936), em troca, publicou uma breve carta no El Sol apoiando aos marqueses.[40]

Ante os dois grupos, «argamasillistas e anti», houve também posições jocosas. José Goyanes, cirurgião e fundador por então da Liga Española contra el Cáncer (1923), se maravilhava da habilidade de Argamasilla para ver na caixa, mas negava que pudesse fazê-lo através dela.[41] O jornalista e político Luis Araquistain (1886-1959) interveio impelido por Rodríguez Lafora. Também cria que Argamasilla via bastante bem nos corpos opacos, «e ainda mal através deles».[42] A julgar por sua consideração sobre o espiritismo e a metapsíquica, é mais do que provável que estivesse usando um fino sarcasmo quando mantinha que a vontade do jovem marquês por ver podia levar-lhe a desenvolver um órgão que, finalmente, permitir-lhe-ia ver na escuridão.[43] Não obstante parecia considerar o empenho do garoto como genuíno e pedia a Rodríguez Lafora que deixasse em paz ao jovem, chamando-lhe «implacável fuçador de gaiolas para supernormais».[44]

Estes juízos que se publicaram a respeito do presenciado em casa do marquês, mostram que a rede de relações e certos decoros da época pesaram nas interações durante o exame da visão prodigiosa e nos relatórios que circularam a respeito destas experiências. Um dos trunfos que jogava a favor do marquês era que a sua condição e posição social lhe livravam de qualquer suspeita de querer explorar o filho por necessidade econômica. Sua boa reputação também fez dele imune à suspeita de fraude, como abertamente afirmavam alguns meios de comunicação.[45] Ademais, em casa dos marqueses, as normas de etiqueta faziam difícil que alguém se atrevesse a introduzir algum controle adicional incomum ou pedir alguma comprovação incômoda para o jovem. A honra que representava receber um convite do marquês e compartilhar a experiência com personalidades ilustres da alta sociedade madrilena, silenciavam de forma eficaz possíveis vozes críticas que poderiam ter questionado a suposta habilidade do aristocrata.[46]

O próprio Rodríguez Lafora foi prudente no início para não desacreditar seus colegas, mas tornou-se mais incisivo à medida que ganhava oponentes na polêmica.[47] Assim mesmo, nunca declarou diretamente que a família Argamasilla estivesse enganando conscientemente ou atuando de má-fé. Pensava que tal extraordinária visão do garoto era impossível, mas sustentava que seguramente pai e filho criam verdadeiramente nela.

3. Explicações do caso

Duas testemunhas que tinham ido em seguida à observação do caso eram dois engenheiros: o já mencionado Joaquín Menéndez Ormaza e o engenheiro de caminhos, canais e portos Manuel Maluquer e Salvador. Este último publicou em 1920 um livro sobre uma Teoria integral de la visión pelo que foi considerado por alguns como perito, segundo Ormaza um «sábio reconhecido por toda Espanha como uma consagrada autoridade na matéria».[48]

Apesar da singularidade do fenômeno, segundo Maluquer se tratava de um caso de visão em estado normal (sem hipnose), que empregava as funções utilizadas pelo organismo para a visão ordinária, ainda que «exageradas por meio da vontade ou concentração»[49]. Maluquer parte de um «fato comprovado» por Charpentier, Meyer, e outros cientistas que defendiam a existência de uns raios fisiológicos, chamados N,[50] os quais se acreditou contribuíam para explicar fenômenos parapsicológicos como a hipersensibilização visual em histéricos. Mas enquanto os raios observados por Blondlot eram das gamas 5ª e 6ª agudas,[51] as do caso observado por Maluquer pertenceriam à gama 7ª. Para distingui-los dos outros, chamou-os raios NH. Em si não bastam para ver: «é preciso que se modifiquem atravessando um metal ou substância transparente a eles»,[52] de maneira que o sujeito vê através da tela metálica mas não ao redor dela.

Supunha que este tipo de visão pudesse ser desenvolvida por qualquer pessoa. Só precisava que o sujeito concentrasse fortemente sua vontade sobre a região visual do cérebro «querendo ver». Assim:

«Dispare-se o condensador de raios NH. Alguns destes raios seguem os nervos motores, e a luz negra fisiológica se espalha sobre os objetos. Caem outros sobre as células sensoriais e as sensibiliza, entrando em ação a matéria peri-reticular»[53] 

Seu amigo Menéndez Ormaza conectou o postulado sobre os raios com duas teorias: a teoria sobre a luz negra e a teoria do éter. Para a primeira se inspirou num livro de Gustave Le Bon, L’Évolution des Forces, no que este especulava sobre uma categoria de radiações que teriam a mesma composição que a luz ordinária, mas seriam invisíveis.[54] Em relação à segunda teoria, possivelmente se inspirava em Lodge, dizendo que «O éter, que recôndito e imponderável a tudo invade, é o veículo por meio do qual se comunica e relaciona todo o mundo sensível».[55] Com claro instinto divulgador, o engenheiro convidava seus leitores a fazer uma prova para ver como se transmitem quase instantaneamente as agitações etéreas. Ao deixar cair um objeto dentro de um recipiente cheio de líquido, as ondas circulares mostrariam as vibrações do éter. Do exposto se deduzem vários aspectos interessantes. Em primeiro lugar, os relatórios de Menéndez Ormaza sugerem que Argamasilla foi submetido a uma experimentação sistemática realizada através de um sem fim de sessões das quais algumas ficaram registradas em forma de atas notariais.[56]

Em segundo lugar, o assunto atesta uma colaboração eficaz entre um engenheiro celebrado como autoridade científica no terreno da percepção e outro engenheiro com uma clara missão divulgadora da ciência que lhe oferece seu apoio incondicional. Este último implantou uma campanha sistemática através da imprensa em que introduziu em seu discurso um tom claramente científico, ao mesmo tempo em que também patriótico e emocional, muito conforme com a linha política da ditadura. Assim, Menéndez Ormaza antepôs a teoria do engenheiro espanhol a respeito dos raios NH para derrocar a explicação dada anteriormente a este tipo de visão por autores franceses em L’Illustration,[57] realçando a teoria da visão de Maluquer que, por sua novidade, «honra à ciência espanhola».[58]

Em terceiro lugar, o raciocínio exposto por Menéndez Ormaza mostra que a teoria do éter pensada como substrato necessário para a propagação da luz ainda estava muito estendida. Estas idéias apareceram no El Imparcial em 1º de março de 1923, só um dia antes da chegada de Einstein a Madri.[59]

Um quarto aspecto é o fato de que em seu livro, Menéndez Ormaza insere o caso no campo da metapsíquica dado que esta, justamente, explicaria a sensibilização extraordinária da retina do jovem, condição necessária para que se dê um fenômeno visual como o da visão através dos corpos opacos. Distinguia entre o «hoje desacreditado espiritismo», que trata de explicar a existência das percepções anormais usando médiuns e a metapsíquica, entendida como atividade puramente experimental, compatível com uma vida cristã e católica. Como pessoa experiente no terreno da metapsíquica se estava erigindo nesses anos justamente o marquês de Santa Cara. Tinha estudado durante vários anos a clarividência em sua casa, utilizando médiuns, sobretudo mulheres, e escreveu um livro sobre estas experiências, transcrevendo algumas das sessões.[60] Para difundir suas propostas fundou em Madri a «Sociedade Espanhola de Estudos Metapsíquicos» e dirigiu entre 1925 e 1927 seu órgão de expressão, a Revista de Estudios Metapsíquicos.[61]

Ao observar em novembro de 1922 a estranha capacidade visual de seu filho, se autoproclamou descobridor de uma «nova faculdade humana» à qual batizou com o termo descritivo «metasomoscopia».[62] Desde esse momento acompanhou sempre as demonstrações de seu filho, oferecendo explicações. Ressaltou o fato de que este tipo de visão se dava em estado normal do sujeito: «se trata de uma percepção em plano físico sujeita às leis da ótica humana sem concurso da dissociação mental própria e característica dos estados de transe e parapsíquicos em geral».[63] E explicava o porquê não se tinha observado tal visão com anterioridade por duas razões. Por um lado, devido às circunstâncias tão específicas nas que se dava. Pelo outro, pela escassez de indivíduos dotados da hiperestesia orgânica necessária. Além disso, adicionava que o esforço nervoso necessário fazia que a faculdade fosse intermitente. Para dar fé do prodígio, o marquês usou as atas notariais e repetiu a interpretação dada por «o sábio» Maluquer. Mas como promotor do caso e como experiente em temas de metapsíquica se atreveu a desviar-se: «Apesar da autorizada opinião do Sr. Maluquer, experiências posteriores(…) inclinam-me atualmente a duvidar da intervenção da luz fisiológica na visão».[64] Pensou que esse fenômeno, como tantos outros, era de origem policausal com o que manteve a explicação dos engenheiros adicionando outra causa. Esta consistia «no disparo de certos neurones (sic) condensadores de flúido (sic) nervoso — magnético, melhor dito — que produz a hiperestesia circunstancial do órgão da visão e do nervo óptico».[65] Podemos ver que Santa Cara buscava uma explicação mais neurofisiológica que, igual que no caso de Maluquer, baseava-se num interacionismo psicofísico. Segundo a teoria do marquês, a vontade do ser humano seria capaz de produzir uma descarga de fluido nervoso[66] que, a sua vez, estimularia a capacidade perceptiva do sujeito a nível cerebral. Supôs que se tratava do mesmo fluido que intervinha também no sonho hipnótico. Segundo o marquês, a velha hipótese de Mesmer ficava de novo reabilitada com os avanços científicos de seu presente que provavam a radioatividade dos corpos.[67] Dava por fato a existência de uma emanação fluídica dos corpos que também relacionava com a aura, e que usava para hipnotizar seus médiuns.[68]

Em sua visão particular a respeito da metapsíquica podiam-se distinguir duas tendências: uma representada por cientistas que, «educados nas concepções materialistas do passado», explicavam os fenômenos ocultistas ampliando «as teorias cerebrais de fisiocratas e histólogos»; e outra pelos que, vendo isso incompatível com os fenômenos metapsíquicos em si, 

«proclamavam a existência e intervenção de um princípio superior organizador e diligente para o que a constituição física humana condiciona, mas não origina, as funções psíquicas normais e supra-normais»[69] 

Ele se situava energicamente entre os segundos, em que afirmava que a biologia fundada numa visão «órgão-central» do ser estava caducada. Para ele, o mental era um princípio anterior e fundamental, que inclusive organizava à matéria. De fato, pensava que o psíquico, ativamente, presidia a organização celular.[70] Em seu idealismo materializador, compartilhava com outros metapsíquicos e com muitos espiritistas o que chamavam de a potência «ideoplástica» do pensamento: que este era capaz de organizar e inclusive de criar matéria.[71] Finalmente, há que ter presente que Santa Cara, sem declarar-se espiritista nem tampouco teósofo, conjugava sua posição metapsíquica com uma espiritualidade à qual mantinha ao Deus católico.[72]

Ante tais especulações, Rodríguez Lafora realizava sua cruzada pessoal para convencer o público de que Argamasilla efetuava simples truques, ainda que sugerisse que o fazia num estado de semi-inconsciência autoinduzida. Desde a aparição das primeiras explicações espiritistas, os médicos entendiam o médium uma presa de alucinações sugestivas por um funcionamento anormal de seu inconsciente, com freqüência também associado a um sistema nervoso deficitário.[73] Nos anos 20, a sugestão havia sido despatologizada, sem perder por isso seu poder explicativo.

O psiquiatra madrileno exemplifica bem esta postura. Sem pensar que os Santa Cara ou suas testemunhas fossem enfermos, cria que suas ações podiam explicar-se sob os efeitos de uma sugestão, à qual não necessariamente era consciente. Em geral, Rodríguez Lafora, igual a outros psiquiatras como Emili Mira i López,[74] pensava que a maioria dos efeitos das «séances» espiritistas eram produto de truques simples e que o desejo dos participantes fazia-os vítimas fáceis do engano.[75] 

4. Conclusão

Sugere Cerullo[76] que a vida moderna da sociedade em massa convidou os membros das classes médias e altas a procurar nas teorias psíquicas uma maneira de recuperar seu sentir como seres únicos, de voltar a valorizar o caracteristicamente humano. Desde as coordenadas da ciência racional, o marquês insistiu na base psíquica, enquanto os engenheiros desviavam mais a atenção para umas supostas radiações invisíveis como suporte físico desta nova capacidade mental que seria exclusiva do gênero humano e do que se expressaria em forma de percepção metasomoscópica.

Assim mesmo, fora de nossas fronteiras também houve outros aristocratas ou engenheiros interessados em temas metapsíquicos. Na Alemanha, a parapsicologia encontrou no barão Albert von Schrenck-Notzing (1862-1929) um promotor fervente que organizava sessões em sua casa ante um público seleto. Eram sessões a cavalo entre a experimentação científica (com relatórios científicos e notariais) e o entretenimento social.[77] Também não foi rara a intervenção de engenheiros, como o demonstra o caso do médium Ossowietzki, o famoso espiritista François Marie Gabriel Delanne (1857-1926) ou Marcel Osty, que colaboraria com seu pai e diretor do Instituto Metapsíquico de Paris, Eugéne Osty, na publicação sobre os poderes desconhecidos do espírito através da matéria.[78]

Os documentos revisados neste trabalho deixam patente o contato intelectual e pessoal entre os nossos personagens históricos (Santa Cara e Gimeno) e os investigadores franceses unidos ao Instituto metapsíquico de Paris (Osty, Geley e Richet). No prólogo escrito por Richet para a segunda edição de seu tratado em língua castelhana, o fisiologista francês se declarava «apoiante fervoso (sic) da união intelectual dos povos latinos».[79] A apreciação estrangeira (francesa) na Espanha é tal que o caso Argamasilla só conseguiu crédito quando foi avalizado pelo Instituto francês (IMI). Não sem rancor, Menéndez Ormaza se queixava que tinha sido necessário o reconhecimento por parte de um experiente francês para que o caso adquirisse notoriedade na Espanha.[80]

O marquês foi consciente da importância do aval científico estrangeiro em seu esforço por estabelecer laços desde sua posição privilegiada de «aristocrata de sangue» com o que Glick[81] chama «aristocracia da inteligência». Declarava-se orgulhoso discípulo do pesquisador francês Geley, mostrando seu apreço através de numerosas citações às contribuições estrangeiras (especialmente francesas mas também inglesas). Usava constantemente seu contato pessoal com intelectuais e pesquisadores espanhóis e estrangeiros para avalizar seu próprio trabalho científico. Por isso então, o marquês de Santa Cara tratava de reproduzir na Espanha um projeto de investigação metapsíquica ao estilo francês, difundido através de uma sociedade e uma revista. Promoveu, assim mesmo, o caso de metasomoscopia de seu filho apesar de não constituir o centro de seu interesse, devido à falta de transe ou desagregação mental. Sua condição social e fama lhe facilitaram encontrar nomes conhecidos para assinar as atas notariais e as cartas de defesa da visão prodigiosa de seu filho.

É necessário aqui um comentário a respeito do papel que exerciam os sujeitos nas investigações metapsíquicas, tendo em conta as questões de gênero e classe social.[82] Quando o marquês experimentava com médiuns mulheres, ele as hipnotizava e, com isso, subjugava a vontade das mulheres à sua, produzindo uma desagregação mental considerada mais típica do chamado «sexo frágil» e sensível (roçando o patológico).[83] No entanto, nos experimentos com Argamasilla, este não foi hipnotizado. Segundo a teoria formulada pelos engenheiros, sua visão prodigiosa seria mostra de uma excepcional força de vontade, com o que ressaltavam um aspecto atribuído habitualmente naquela época como típico do varão.

Justamente o fato de que o sujeito cujas capacidades pretensamente excepcionais são expostas publicamente é o filho de um marquês, alguém que não precisa fazê-lo para ganhar dinheiro, e que só arrisca sua boa reputação, foi um elemento chave para que muitos acreditassem na realidade do fenômeno. Ainda que a visão prodigiosa fosse avaliada como fato real por alguns cientistas, a maioria dos que, como Blas Cabrera, certificaram o fenômeno, mostraram-se prudentes e preferiram não avançar nem apoiar nenhuma explicação.[84]

Diferente foi o caso dos engenheiros que em seguida teorizaram. Pertencem à classe que Glick[85] definiu como «classe média científica», constituída por médicos, engenheiros, farmacêuticos e professores do ensino secundário com formação científica, interessados na investigação. Mas ao contrário da descrição de Glick, descobrimos que no terreno da psicologia e da metapsíquica, eles fizeram suas próprias contribuições científicas, tanto teóricas como empíricas. Algo que só é possível em ciências ainda pouco institucionalizadas.

Maluquer e seu porta-voz, Menéndez Ormaza, usaram o caso Argamasilla para promover uma teoria própria cuja novidade deveria «honrar à pátria», recusando a explicação dada em L’Illustration. Com sua teoria dotaram a ciência espanhola de novos raios (NH). Num discurso patriótico e sentimental, muito conforme a ideologia do regime de Primo de Rivera, destacam que as possibilidades desta nova descoberta são imensas. Sentindo-se no umbral do desconhecido, o autor da luz negra perguntava: «Caminhará com isto a Humanidade à sua melhora? Assim parece. É um fato que podemos admitir hoje em dia maravilhas suspeitas na visão do mundo sensível».[86]

Sob o prisma das teorias da evolução, propunham a possibilidade de que essa capacidade fora, em realidade, um vestígio de uma capacidade perceptiva primitiva, que a humanidade, no curso da evolução, teria perdido.[87] Para Menéndez Ormaza, uma prova histórica disso seriam as pinturas rupestres. Dado que «indubitavelmente» tinham sido pintadas na escuridão das grutas antes que se descobrisse o fogo, isso provava que estes homens tinham tido uma grande capacidade visual na escuridão que, com a civilização, provavelmente ter-se-ia atrofiado.

Pela mesma fé na lei evolutiva, entendida de forma lamarckiana, o engenheiro estava convicto que a dita faculdade visual podia ser recuperada através do esforço pessoal e do treinamento. Alimentava a esperança de que ela pudesse ser adquirida por qualquer um que, depois de exercitá-la e dominá-la, chegaria a transmiti-la por herança.[88] A proposta do engenheiro espanhol reflete uma postura generalizada na metapsíquica que é expressa de forma análoga por Geley.[89] Este cria que a prática da mediunidade era a base para o desenvolvimento de habilidades excepcionais que depois poderiam ser herdadas.

No momento em que o governo («para melhorar a raça») impôs aos jovens a ginástica como disciplina militar do corpo, encaixa-se muito bem esta idéia de administrar, também, uma ginástica mental através do exercício da vontade sobre a percepção. Com uma postura otimista e sua firme crença no progresso da humanidade, Menéndez Ormaza pensava que o estudo da visão de Argamasilla abria, também, uma oportunidade para as pessoas cegas.[90]

Mas a explicação dos engenheiros não foi aceita pelo círculo metapsíquico francês. René Sudré, colaborador de Richet, ao escrever uma resenha do livro de Menéndez Ormaza na Revue Métapsychique, atribuía essa visão a um caso especial de clarividência, desconfiando da «hipótese da luz negra».[91] Embora os raios N tivessem sido desmentidos em 1904, a hipótese a respeito de novos tipos de raios ou de uma sensibilidade específica a radiações ainda estaria em voga até a década de 1930.[92] Enquanto se difundia a teoria da relatividade proposta por Einstein, que para isso realizou em 1923 sua famosa visita à Espanha, ainda circulavam as teorias do éter, em parte promovidas através do influente livro de Lodge. Assim, nos anos 1920 encontramos um panorama heterogêneo em que se discutiam diferentes teorias físicas como a da relatividade, ao mesmo tempo em que se propunha a descoberta de novos raios e alguns criam ainda no éter.[93]

Ainda que a separação entre cientistas e público leigo houvesse se estabelecido em fins do século XIX, na investigação psíquica estes limites se mantiveram fluidos.[94] Muitos admitiram não ter credenciais científicas e, mesmo assim, foram lidos e apreciados. Os papéis de leitor, sujeito examinado, observador e experimentador não foram rígidos. Por isso, em ocasiões, um leitor qualquer pôde sentir-se convidado a comunicar suas experiências pessoais ou um repórter (observador) sentir-se experimentador por situar-se próximo do sujeito. Ainda que esta situação tenha mudado depois da guerra civil, na Espanha os limites entre profissionalização e amadorismo ainda se manteriam nebulosos no terreno da investigação psíquica durante algum tempo, apesar dos esforços de médicos e psicólogos como Rodríguez Lafora em desacreditar a suposta visão prodigiosa e com isso as teorias do marquês e dos engenheiros.[95]

Num momento histórico em que a revolução social foi vivida como uma ameaça constante para as classes sociais média e alta espanholas, Glick[96] destacou com acerto a expectativa e a convulsão que as novas teorias científicas exerceram numa sociedade que esperava grandes revoluções e revelações no campo da ciência moderna. O mesmo Menéndez Ormaza observava que a guerra tinha feito aos europeus «ansiosos» porque tinham perdido a confiança nos velhos conceitos. Procurando novos rumos, lançavam-se à aventura, fosse esta física ou metapsíquica, relativista ou baseada no éter, imaginando uma quarta dimensão e rompendo com a tradicional idéia de tempo e espaço. Este sentimento fica bem expresso no livro do engenheiro, que pergunta aos seus leitores:

«Não é tentador imaginar toda criatura irradiando irradiações ultramicroscópicas que, prevalecendo-se de sua pequenez, introduzem-se pelos interstícios dos corpos que encontram em seu caminho para introduzir-se no cérebro humano, criando imagens e provocando idéias?»[97] 

Num estado de exceção permanente com censura da imprensa e repressão policial, a ciência metapsíquica proporcionava um terreno de atividade produtiva que permitia questionar a visão do mundo herdada, sem a necessidade de abraçar o espiritismo nem de entrar em conflito com a Igreja Católica ou com o Regime.

Traduzido por Vitor Moura Visoni.



(*) Trabalho realizado no marco do projeto subvencionado pelo Ministério de Economia e Competitividade (HAR2009-11342/HIST).

[1] Uranga Santesteban, Juan Luis, ed. Gran Enciclopedia de Navarra [atualizada em 4/10/1990; citado em 25/05/2011]. Disponível em: http://www.enciclopedianavarra.biz/navarra/argamasilla-de-lacerda-y-bayona-joaquin/1709.

[2] Argamasilla não era o único da família a possur dotes extraordinários, pois, ao que parece, Santa Cara tinha outra filha com faculdades telepáticas. Masriera, Miguel. La metasomoscopia II y último. La Vanguardia. 16 Feb 1924: 1.

[3] Foi assíduo colaborador do diário escrevendo para uma seção chamada « La espuma de la ciencia» onde apresentava diferentes fenômenos ocultistas.

[4] Rodríguez Lafora, Gonzalo. Sobre la visión a través de los cuerpos opacos, El Sol. 10 Ene 1924: 1. Em troca, Santa Cara negava que tivesse conhecimento da dita comissão. Santa Cara, Sobre la visión a través de los cuerpos opacos. Le Sol. 13 Ene 1924: 1.

[5] Un caso de metapsíquica. La Vanguardia. 10 Ene 1924: 12.

[6] Beloff, John. Parapsychology: A concise history. London: Athlone Press; 1993.

[7] Edelman, Nicole. Histoire de la voyance & du paranormal du XVIIIe siècle à nos jours. Paris: Seuil; 2006.

[8] Wolffram, Heather. The stepchildren of science (Psychical research and parapsychology in Germany, c. 1870-1939). New York: Rodopi; 2009.

[9] Lachapelle, Sophie. Investigating the supernatural: From spiritism and occultism to psychical research and metapsychics in France, 1853-1931. Baltimore: Johns Hopkins University Press; 2011.

[10] Glick, Thomas F. Einstein y los españoles. Madrid: CSIC; 2005.

[11] Richet, Charles. Traité de métapsychique. Paris: Alcan; 1922.

[12] Brenan, Gerald. El Laberinto español: antecedentes sociales y políticos de la guerra civil. Barcelona: Diario Público; 2011; González Calleja, Eduardo, La España de Primo de Rivera: la modernización autoritaria 1923-1930. Madrid: Alianza; 2005; Quiroga Fernández de Soto, Alejandro. Haciendo españoles: la nacionalización de las masas en la Dictadura de Primo de Rivera, 1923-1930. Madrid: Centro de Estudios Políticos y Constitucionales; 2008.

[13] A listagem de testemunhas em: Menéndez Ormaza, Joaquín. La luz negra o la visión al través de los cuerpos opacos. Madri: Livraria de San Martín; publicado provavelmente em 1924, p. 56. O livro inclui uma série de artigos que Menéndez Ormaza publicou em 1923 no diário El Imparcial, conjuntamente com extensos comentários.

[14] Lachapelle, n. 9; Noakes, Richard. The historiography of psychical research: Lessons from histories of sciences. Journal of the Society for Psychical Research. 2008; 72.2 (891), 65-85; Oppenheim, Janet. The other world: Spiritualism, science and psychical research in England, 1850-1914. Cambridge: Cambridge University Press; 1985; Owen, Alex. The darkened room. Philadelphia; University of Pennsylvania Press; 1990; Raia, Courtenay. From ether theory to ether theology: Oliver Lodge and the physics of immortality. Journal of the History of the Behavioral Sciences. 2007; 43 (1): 19-43.

[15] Como por exemplo o de Shapin, Steven. A social history of truth: Civility and science in seventeenth-century England. Chicago: Chicago Press; 1994.

[16] Papanelopoulou, Faidra; Nieto-Galan, Agustí; Perdiguero, Enrique. Popularizing science and technology in the European periphery, 1800-2000. Surrey: Ashgate; 2009; Nieto-Galan, Agustí. Los públicos de la ciencia: expertos y profanos a través de la historia. Madrid: Marcial Pons, 2011.

[17] Mülberger, Annette; Balltondre, Mónica. Metapsychics in Spain: acknowledging or questioning the marvellous? History of the Human Sciences, 2012; 25 (2): 108-130; Bensaude-Vicent, Bernadette; Blondel, Christine. Des Savants face à l’occulte 1870-1940. Paris: Éditions La Découverte; 2002.

[18] Nieto-Galán, n. 16.

[19] Un caso de metapsiquia (sic), La Vanguardia. 10 Ene 1924: 12; La visión a través de los cuerpos opacos, ABC. 5 Ene 1924: 11 y Anónimo, La visión a través de los cuerpos opacos, La Época. 9 Ene 1924: 1. Estas notícias assinalam que, entre os membros do comitê do Instituto de Metapsíquica Internacional que o examinaram, encontrava-se também o eminente físico Oliver Lodge.

[20] Numa delas, por exemplo, encontravam-se presentes o repórter Miguel Masriera Rubió, Leonardo Torres Quevedo com seu filho, o político conservador Rafael Andrade Navarrete (1856-1928), o catedrático de Direito Rafael de Ureña e outros três senhores. Masriera, n. 2.

[21] Menéndez Ormaza, n. 13, p. 38.

[22] O método usado pelo jovem reproduz os controles habituais na comprovação da clarividência como o vendar dos olhos, não deixar tocar o papel (por isso se usavam caixas), e introduzir páginas arrancadas a esmo de um jornal ou livro para que ninguém soubesse seu conteúdo. Isto se fazia para poder distingui-la da telepatia.

[23] Masriera, n. 2.

[24] La Correspondencia de España. 7 Abr 1924: 1.

[25] Asprem, Egil. A nice arrangement of heterodoxies: William McDougall and the professionalization of psychical research. Journal of the History of the Behavioral Sciences. 2010; 46 (2): 123-143, p. 130.

[26] Zárraga, Miguel de. ABC en Nueva York. El maravilloso Argamasilla. ABC. 24 May 1924: 22; La Época, 24 May 1924.

[27] Houdini, Harry. Houdini exposes the tricks used by the Boston medium Margery; also a complete exposure of Argamasilla. New York: Adams Press; 1928.

[28] New York Times. 7 May 1924: 3.

[29] O jornal indicou que: «the Spaniard’s manager, Mr Davis of Brazil, declared that he would not accept Houdini’s challenge and that the conjuror had treated him and Argamasilla “maliciously”». New York Times. 7 May 1924: 3.

[30] O New York Times escreveu: «he said the watch showed ten minutes to one, missing it by an hour». New York Times. 7 May 1924: 3.

[31] Rodríguez Lafora, G. Espiritismo, videncia, engaños, El Sol. 1 Ago 1925: 1. O psiquiatra espanhol tinha publicado com anterioridade quatro artigos expondo estudos psicológicos críticos de fenômenos como a clarividência, a telepatia ou as premonições: Rodríguez Lafora, G. La clarividencia I, II, III y IV. El Sol. 15 Abr 1919: 12; 29 Abr 1919:12; 6 May 1919:12 y 27 May 1919:12, respectivamente. Rodríguez Lafora, G. Don Juan, los milagros y otros ensayos. Madrid: Alianza Editorial; 1975, p. 159-202.

[32] Argamasilla, J. M.; Rodríguez Lafora, G. Espiritismo, videncia, engaños. Una carta y una respuesta, El Sol. 8 Ago 1925: 2. Assim mesmo, Argamasilla sustentou que Houdini não lhe tinha examinado dentro da comissão oficial da BSPR, insinuando que o fez a título pessoal e «sem caráter científico».

[33] Rodríguez Lafora, G. El caso Argamasilla I. El Sol. 17 Feb 1926: 1 y El caso Argamasilla II. El Sol. 26 Feb 1926:1. Houdini, n. 19.

[34] Argamasilla, J. M., El caso Argamasilla. El Sol. 20 Feb 1926: 1.

[35] Guijarro, García del Mazo, Fernández Catalina, De las Cuevas, Valetín y Gamazo, Esteve, Castro de la Jara y Guinea. El caso Argamasilla. El Sol. 20 Feb 1926: 1.

[36] Cabrera, Blas; Gimeno, Amalio; Torres Quevedo; Leonardo; Castellarnau, José María. Varias cartas. El Sol. 19 Feb 1926:1.

[37] Márquez, M. Una carta del Dr. Márquez. El Sol. 27 Feb 1926: 2.

[38] Rodríguez Lafora, Gonzalo. Lafora en respuesta a Ormaza. El Sol. 2 Mar 1926: 2.

[39] Rodríguez Lafora, n. 38, p. 2.

[40] Valle-Inclán, R. M. Carta. El Sol. 19 Feb 1926: 1. Valle-Inclán responde a una alusión. ¿Miró Argamasilla por una rendija? El Heraldo. 25 Feb 1926: 1. Ele deu também ao filho do Marquês uma cópia de uma das suas peças mais “esotéricas”: La Lámpara mágica (1916). Segundo uma recordação pessoal de Julio Caro Baroja das numerosas tertúlias em casa de seu tio Pío Baroja, Valle-Inclán tinha sustentado que não acreditava na possibilidade de uma visão através dos corpos opacos, mas sim que Argamasilla tinha uma capacidade visual especial; veja-se Caro Baroja, Julio. Recuerdos valleinclanescos-barojianos, Revista de Occidente, 1966; 44-45: 302-313. Valle-Inclán parece ter compartilhado com os metapsíquicos a possibilidade de que se dêem radiações de idéias através de ondas. «Psiquismo», 7 Ago 1892, El Universal de Méjico; Valle-Inclán, Obras Completas, Madrid: Espasa Calpe, 2002, p. 1428-1429. Para as relações de Valle-Inclán com a teosofia e o espiritismo: Milner Garlitz, Virgina, El centro del círculo: La Lámpara Maravillosa, de Valle-Inclán. Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela; 2007.

[41] Goyanes, J. ¿Endoblepsis o diablepsis? La visión, ¿a través o en el interior de los cuerpos opacos? El Sol, 27 Feb 1926: 2.

[42] Araquistain, Luís. La visión en los cuerpos opacos. El Sol. 23 Feb 1926: 1.

[43] Araquistain, Luís. Ciencia y prestidigitación, La Voz. 22 Feb 1926: 1.

[44] Araquistain, Luís. Un zahorí moderno. El Sol. 22 Feb 1926: 1.

[45] Masriera, n. 2, p. 1; Pedro de Repide, El misterio en Madrid, La Libertad. 18 Sep 1927: 1-2.

[46] Araquistain conta que propôs a Negrín pedir-lhe a Argamasilla que lesse pelo lado das dobradiças em lugar de pela parte do ferrolho, ao que Negrín contestou-lhe: « você esquece, meu amigo, que aqui todos somos cavalheiros e que não seria cavalheiro mostrar maior desconfiança?». Araquistain, n. 42.

[47] Rodríguez Lafora, G. El caso Argamasilla (contestando a algunas cartas). El Sol. 25 Feb 1926: 1.

[48] Menéndez Ormaza, n. 13, p. 48.

[49] Menéndez Ormaza, n. 13, p. 126 (sublinhado no original).

[50] O nome «N» significa Nancy, o lugar da descoberta dos raios.

[51] Blondlot supôs que estas se situam nas 5 oitavas e pensou que teriam uma influência em certos fenômenos da vida animal e vegetal; Jo Nye. N-Rays: An episode in the History and Psychology of Science, Historical Studies in the Physical Sciences, 1980; 11 (1): 125-156. Para um exame das estratégias discursivas empregadas por Blondlot e seu adversário Wood, veja-se Ashmore, Malcom. The theater of the blind: Starring a promethean prankster, a phoney Phenomenon, a prism, a pocket, and a piece of wood. Social Studies of Science. 1993; 23: 67-106.

[52] Menéndez Ormaza, n. 13, p. 116.

[53] Menéndez Ormaza, n. 13, p. 124.

[54] Ele as chamou de «lumière noire». Le Bon, Gustave. L’Évolution des Forces. Paris: Ernest Flammarion; 1908, p. 279 y ss.

[55] Menéndez Ormaza, n. 13, p. 62.

[56] Combinando a apresentação de diferentes materiais, os observadores concluíram que: «O vidente vê através de caixas fechadas de prata, alumínio, metal branco e de madeira, de espessuras de meio a oito milímetros. Demora de dois a dez minutos e precisa de distâncias variáveis aos olhos segundo a classe de caixa». Encerrados vários objetos numa caixa de metal, chegou a visualizar o fio de prata, vários minerais (cobre, mercúrio e carvão). Segundo o relatório, a interposição de uma lâmina de prata e uma lente de vidro entre os olhos e a caixa não alterou a visão mas o disco de metal impregnado de sal de rádio foi o que deu visão instantânea. Surpreendentemente uma folha de papel branco faz efeito de tela impedindo qualquer tipo de visão, veja-se relatório do dia 8 de março de 1923 da ata notarial 454, reproduzido em Menéndez Ormaza, n. 13, p. 77 e 80.

[57] Labadié, Jean. Une lueur dans la nuit des aveugles. L’Illustration, 10 Mar 1923, 4175: 236-238.

[58] Menéndez Ormaza, n. 13, p. 108.

[59] Glick, n. 10 y Roca, Antonio. La amable visita de Einstein a Barcelona en 1923. Quark. 2004; 31:

41-47.

[60] Marqués de Santa Cara. Un tanteo en el misterio (ensayo experimental sobre la lucidez sonambúlica). Madrid: M. Aguilar; 1924 (não consta a data de publicação mas segundo as referências inclusas pensamos que pode estar por volta do ano indicado).

[61] Por agora, sabemos muito pouco dessa Sociedade. A revista não dá conta dos trabalhos da Sociedade que tinha como presidente o marquês de Santa Cara e como presidente de honra Amalio Gimeno. Revista de Estudios Metapsíquicos, 1926, 2 (7), 2 (11); 1927, 3 (12).

[62] Santa Cara, n. 60. A palavra metasomoscopia aparecerá inclusa no dicionário espiritista de Quintín López Gómez ainda que com um significado algo diferente. López Gómez, Quintín. Glosario de palabras nuevas o poco comunes usadas en psicología experimental, metapsíquica, ciencias ocultas y espiritismo. Tarrasa (sic): Talleres Gráficos de José Ventayol Vila, 1926, p. 122.

[63] Santa Cara, n. 60, p. 276.

[64] Menéndez Ormaza, n. 13, p. 262.

[65] Menéndez Ormaza, n. 13, p. 283.

[66] Santa Cara, n. 60 y Santa Cara. La visión al través de los cuerpos opacos, ABC. 21 Ene 1924: 12.

[67] Santa Cara, n. 60, p. 52. Para as interações entre mesmerismo, espiritismo e hipnose, veja-se Montiel, Luis. Síntomas de una época: magnetismo, histeria y espiritismo en la alemania romàntica. Asclepio. 2006; 58 (2): 11-38 y Montiel, Luis, Magnetismo romántico: El paciente. La mujer. La república. Dynamis. 2006; 26: 125-150.

[68] A diferença entre o hipnotismo moderno e a ciência magnética residia na explicação das causas da hipnose. Os magnetizadores como Santa Cara aceitavam a hipótese da existência de um fluido, sutil mas material, que tinha recebido diferentes nomes (néurico, magnético, animal). Enquanto para um Lafora, por exemplo, o efeito da hipnose se explicava por processos psicológicos, por efeito do poder da imaginação e da atuação do inconsciente. Veja-se a discussão sobre as explicações do hipnotismo em Montiel, Luis; González de Pablo, Ángel, eds. En ningún lugar. En parte alguna. Estudios sobre la historia del magnetismo animal y del hipnotismo. Madrid: Frenia; 2003.

[69] Santa Cara, n. 60, p. 24.

[70] Santa Cara, n. 60, p. 268 y ss.

[71] Mülberger; Balltondre, n. 17.

[72] Santa Cara, n. 60, p. 271.

[73] Veja-se: Shortt, S. E. D. Physicians and Psychics: The Anglo-American Medical Response to Spiritualism, 1870-1890. Journal of the History of Medicine and Allied Sciences. 1984: 39 (3): 339-355.

[74] Mira, Emili; Charles Ricget (sic). Traité de Métapsychique. Anals de Ciencies Mèdiques. 1923; 17: 69-77 y Mülberger; Balltondre, n.17; Mülberger, A. Marginalisations de la parapsychology et du spiritisme dans le discours scientifique en Espagne, L’Homme et la Société. 2008; 167/168/169: 101-118.

[75] Rodríguez Lafora, G. Metapsíquica y fraudes, El Sol. 10 Ago 1925: 1; Rodríguez Lafora, n. 25.

[76] Cerullo, John. The secularization of the soul (Psychical research in modern Britain). Philadelphia: Institute for the Study of the Human Issues, 1982.

[77] Wolffram, n. 8.

[78] Osty, Eugène; Osty, Marcel. Les pouvoirs inconnus de l’esprit sur la matière. Paris: Alcan; 1932; Lachapelle, n. 9 y Bensaude-Vincent; Blondel, n. 17.

[79] Richet, Charles, Tratado de metapsíquica. Barcelona: Araluce; 1923, p. VII.

[80] Menéndez Ormaza. La visión a través de los cuerpos opacos. El Imparcial. 19 Ene 1924: 3.

[81] Glick, n. 10.

[82] Owen, n. 14.

[83] Jagoe, Catherine. Sexo y genéro en la medicina del siglo XIX. In: Jagoe, Catherine; Blanco, Alda; Enríquez de Salamanca, Cristina, eds. La mujer en los discursos de género: textos y contextos en el siglo XIX. Barcelona: Icaria; 1998, p. 305-368. Para um contexto mais amplo da diferenciação de gênero nos discursos médicos na Espanha: Aresti, Nerea. Médicos, Donjuanes y mujeres modernas. Los ideales de feminidad y masculinidad en el primer Tércio del siglo XX. Bilbao: Servicio Editorial. Universidad del País Vasco; 2001.

[84] Un caso de metapsíquica, n. 5.

[85] Glick, n. 10.

[86] Menéndez Ormaza, n. 13, p. 128.

[87] Menéndez Ormaza, n. 13, una síntesis de su exposición en: Madrid Científico. 1924; 31 (1110): 85.

[88] Menéndez Ormaza, n. 13, p. 124.

[89] Geley, Gustave. L’ectoplasmie et la clairvoyance: Observations et experiences personelles. Paris: Alcan; 1924.

[90] Seu livro de recopilação dos artigos que publicou sobre o caso se inicia com uma história em que um camponês com uma menina cega incentiva suas teorias e se sente esperançoso por essa possível aplicação. Menéndez Ormaza, n. 13. Em El Imparcial apresenta a história de uma menina surdo-muda que supostamente podia se conectar com seu avô mediante o pensamento. Menéndez Ormaza, Tríptico ocultista, El Imparcial. 24 Mar 1926: 5.

[91] René Sudré, Bibliographie: La luz negra par J. Menendez Ormaza, Revue Métapsychique. 1923; 3: 182; acerca de Sudré: Asprem, n. 25, p. 129.

[92] Bensaude-Vicent; Blondel, n. 17.

[93] Glick, n. 10.

[94] Lachapelle, n. 9.

[95] Papanelopoulou; Nieto; Perdiguero, n. 16.

[96] Glick, n. 10.

[97] Menéndez Ormaza, n. 13, p. 70.

18 respostas a “No umbral do desconhecido: Um caso de visão extraordinária na Espanha de Primo de Rivera (2013)”

  1. NVF Diz:

    Tem que falar em “umbral” pra poder comentarem! Boa! rs

  2. Gorducho Diz:

    Este “umbral” é só pra pescar os incautos mesmo! :(
     
    QUEREMOS ESPIRITISMO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  3. Toffo Diz:

    Interessante concluir duas coisas: a) que o caso restou inconclusivo, como todos os outros; b) que a influência da questão social foi muito importante – os grandees pareciam intocáveis porque eram nobres e não precisavam se sujar por dinheiro. Se fossem camponeses como os que supostamente viram Nossa Senhora em Fátima, Lourdes e Salete, talvez o caso fosse diferente.

    .

    Falando nisso, é interessante também que as famosas visões de Salete e Lourdes foram contemporâneas do kardecismo, e Kardec jamais dirigiu uma só palavra a respeito delas.

  4. Antonio G. - POA Diz:

    E, só para variar, o caso é bastante antigo. É sempre assim. Atualmente, não acontece mais nada disto.

  5. Rogerio Diz:

    Pessoal… li várias coisas neste blog e achei tudo muito interessante. Gostaria que alguém me explicasse o “motor” do espiritismo. Minha dificuldade é entender como a verdade tem muitas facetas. Para mim, a verdade não depende da minha crença, nem do outro. Ela simplesmente existe, supera todos os pontos de vista. Assim, não consigo entender como a verdade se revela pela cruz, pelo espirito ou por outros meios. Quero acreditar em algo, mas não consigo. Gostaria que algo fosse independente de escolha ou aceitação.
    Bem, talvez isto tudo seja só divagação…
    Abraços a todos.

  6. Gorducho Diz:

    Minha dificuldade é entender como a verdade tem muitas facetas. Para mim, a verdade não depende da minha crença, nem do outro. Ela simplesmente existe, supera todos os pontos de vista. Assim, não consigo entender como a verdade se revela pela cruz, pelo espirito ou por outros meios. Quero acreditar em algo, mas não consigo. Gostaria que algo fosse independente de escolha ou aceitação.
     
    Esse era justamente um dos dogmas do Positivismo – corrente filosófica que dominou o século xix quando o Kardec escreveu o Espiritismo. Ou seja, para os positivistas a Verdade era uma espécie de ente ontologicamente existente e único! Por consequência, para o Kardec também.
    No século xx a “verdade” relativizou-se. Logo no início do século tornaram-se evidentes os fenômenos que levaram à física relativística e à mecânica quântica; bem como o colapso do programa de axiomatização da matemática proposto pelo Hilbert em 1900. Ou seja, tanto na física quanto na matemática, não havia mais “Verdades”.
    E nas ciências sociais hoje estabeleceu-se o entendimento de que qualquer crença é sociologicamente verdadeira por definição.
    Ou seja: a “Verdade” não “existe”; não é um Ser ontologicamente unívoco.

  7. Antonio G. - POA Diz:

    A verdade, penso, não tem “muitas facetas”. O que não é verdadeiro, é falso. A verdade é única. A mentira é que é multifacetada. Daí a multiplicidade de religiões, por exemplo.

  8. Rogerio Diz:

    Ok, Antonio. É assim que eu penso, e por isto me desiludi com a religião católica (na qual fui criado) e nas outras que tomei contato. Prefiro então a filosofia, e ter um aporte ético nas minhas ações, sem pretender aliar isto a um plano divino. Acho que o mundo seria muito mais simples se assumíssemos que o importante sou eu, e também o outro, a quem devemos respeito, do que ficar inventando ritos e explicações – que, seguramente, não podem ser todas verdadeiras.

  9. Antonio G. - POA Diz:

    Ótimo! Estamos de acordo. Ninguém precisa de religião para ser ético, decente e solidário.

  10. Antonio G. - POA Diz:

    A propósito de religião:
    A despeito de repudiar toda e qualquer religião, preciso admitir que fiquei muito bem impressionado com a performance do Papa Francisco em sua visita ao Brasil. Que sujeito especial é este Papa !!!! Que clareza de ideias e que expressão límpida e tranquila! Gostei do cara! Um homem seguro. Transparente. Flexível. Nada daqueles fanatismos dogmáticos e engessados! Inteligente. Acho difícil que se deixe enganar por mitos e dogmas. Sou capaz de apostar que é ateu. rsrsrs

  11. Marciano Diz:

    Antonio,
    O outro artigo, o do plágio de cx, tomou um rumo inesperado, descambamdo para homossexualismo e comunismo.
    Tentei trazer dois comentaristas de volta ao assunto.
    Sabe por que estou dizendo isto aqui?
    Dentre todos os que comentam aqui você me parece o mais afinado comigo.
    Veja o que eu disse ontem lá e o que você disse hoje aqui:
    .
    “Vamos parar com isso e voltar a discutir sobre crenças e descrença (assim mesmo, plural e singular – existem várias crenças e apenas uma descrença).”
    .
    “A verdade é única. A mentira é que é multifacetada. Daí a multiplicidade de religiões, por exemplo.”
    .
    Percebe a semelhança?
    .
    Outra coisa que já sustentei várias vezes aqui no blog, talvez você se lembre, é que os líderes religiosos são todos ou quase todos ateus. Mostram inteligência demais para acreditarem nas besteiras que propagam.
    Você acha o papa é ateu, eu também, não só ele, mas um monte de líderes religiosos.

  12. Antonio G. - POA Diz:

    Perfeito, Marciano! É assim. Estamos bem alinhados nas ideias.
    Eu também já disse aqui que estes grandes líderes religiosos são espertos demais para acreditarem em Deus. Lembro que falei isto especificamente a respeito do Papa Bento XVI. Disse que um cara, para chegar a Papa, tem que ser muito perspicaz. E isto é meio incompatível com ser crente…
    Abraço.

  13. Toffo Diz:

    Eu acho que nada é absoluto. Nem o universo o é. Acredito que a verdade cada um acha a sua. O grande problema do espiritismo é achar que é A verdade. A posteridade acabou por mostrar que não é bem assim.

  14. Gorducho Diz:

    É a minha posição, por isso mencionei o conceito sociológico da veracidade, por definição, das crenças.
    Vide-se e.g. as reflexões sobre as verdades mitológicas feitas pelo Durkheim.
    Lógico, tudo é debatível: Filosofia é isso.

  15. Sanchez Diz:

    Acho que a maior contribuição do século XX e XXI é colocar todas as verdades no terreno do debate e da discussão crítica dos paradigmas estabelecidos. Fica claro no artigo que havia uma preocupação em fundamentar uma verdade sem questionamento ou fazer de forma aberta sujeita a réplica. Pena que nessa corrente crítica a religião fica para trás.

  16. NVF Diz:

    “Esse era justamente um dos dogmas do Positivismo – corrente filosófica que dominou o século xix quando o Kardec escreveu o Espiritismo. Ou seja, para os positivistas a Verdade era uma espécie de ente ontologicamente existente e único! Por consequência, para o Kardec também.
    .
    No século xx a “verdade” relativizou-se. Logo no início do século tornaram-se evidentes os fenômenos que levaram à física relativística e à mecânica quântica; bem como o colapso do programa de axiomatização da matemática proposto pelo Hilbert em 1900. Ou seja, tanto na física quanto na matemática, não havia mais “Verdades”.
    .
    E nas ciências sociais hoje estabeleceu-se o entendimento de que qualquer crença é sociologicamente verdadeira por definição.
    Ou seja: a “Verdade” não “existe”; não é um Ser ontologicamente unívoco.”
    .
    Gorducho, virei fã seu e do Toffo. Gostaria de ver mais análises isentas desse jeito que vocês fazem sobre o Espiritismo. Aliás, é difícil encontrar pessoas assim.
    .
    Críticas com paixão, do tipo xingamentos aleatórios a Chico Xavier não interessam.

  17. NVF Diz:

    Gorducho, virei fã seu e do Toffo. Gostaria de ver mais análises isentas desse jeito que vocês fazem sobre o Espiritismo. Aliás, é difícil encontrar pessoas assim.
    .
    Críticas com paixão, do tipo xingamentos aleatórios a Chico Xavier não interessam.

  18. Toffo Diz:

    A família penhorada agradece.

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