Minhas primeiras experiências no grupo de Allan Kardec e com médiuns daquela época (Por Camille Flammarion, 1907)

Este é o Capítulo 2 do livro de Camille Flammarion, “As Forças Naturais Desconhecidas”. Neste capítulo Flammarion apresenta diversas provas que os médiuns de Kardec não estavam incorporados por espírito algum, sendo todo ou quase todo o material produzido por meio deles oriundo de suas próprias mentes, sem a influência de qualquer causa externa, alguns vítimas de autossugestão. Também denuncia a existência de fraude por parte da senhorita Huet, que era uma das médiuns do grupo de Kardec. A doutrina espírita, portanto, não é fruto do ensinamento dos espíritos, e sim fruto de puro animismo dos médiuns.

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Certo dia do mês de novembro de 1861, passando pelas galerias do Odéon, eu notei uma obra cujo título chamou-me a atenção: O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. Comprei-o e o li com avidez, pois vários capítulos pareciam-me estar de acordo com as bases científicas do livro que, então, eu estava escrevendo – La Pluralité des Mondes habites (A Pluralidade dos Mundos Habitados). Fui procurar o autor, que propôs que eu entrasse como “membro associado livre” para a Société Parisienne des Études Spirites (Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas), que ele fundara e da qual era presidente. Eu aceitei e acabo de encontrar, por acaso, o cartão verde assinado por ele em 15 de novembro de 1861. É essa a data da minha iniciação em estudos psíquicos. Na época, eu tinha dezenove anos e fazia três anos que era aluno de astronomia no Observatório de Paris. Estava dando os últimos retoques na obra que acabo de citar, cuja primeira edição foi publicada, alguns meses depois, pelo impressor-livreiro do Observatório.

Reuníamo-nos todas as sextas-feiras, à noite, no salão da Sociedade, na passagem Sainte-Anne, que estava sob a proteção de São Luís. O presidente abria a sessão com uma “invocação aos bons Espíritos”. Admitia-se, em princípio, que Espíritos invisíveis estavam presentes e se comunicavam. Após essa invocação, era solicitado a um determinado número de pessoas sentadas à grande mesa, que se abandonassem à inspiração e que escrevessem. Qualificavam-nas de “médiuns escreventes”. Essas dissertações eram lidas, a seguir, para um auditório atento. Não se fazia nenhuma experiência física de mesa girante, movente ou falante. O presidente, Allan Kardec, declarava não dar nenhum valor a elas. Parecia que, para ele, os “ensinamentos dos Espíritos” deviam formar a base de uma nova doutrina, de uma espécie de religião.

Na mesma época, e já há vários anos, meu ilustre amigo, Victorien Sardou[1] que tinha sido um ocasional freqüentador do Observatório, escrevera, como médium, páginas curiosas sobre os habitantes do planeta Júpiter e produziu desenhos pitorescos e surpreendentes, cujo intuito era o de representar as coisas e seres daquele mundo gigante. Ele desenhara as habitações de Júpiter. Uma de suas habitações coloca sob nossos olhos a casa de Mozart, outras, as casas de Zoroastro e de Bernard Palissy,[2] que seriam vizinhos rurais naquele imenso planeta. Essas habitações são etéreas e de uma requintada leveza. Poderemos julgá-las pelas duas figuras aqui reproduzidas (Pranchas II e III). A primeira representa a casa de Zoroastro e, a segunda, “o espaço dos animais”, na residência do mesmo filósofo. Nele podemos encontrar flores, redes, balanços, seres voadores e, embaixo, animais inteligentes que estão jogando um tipo especial de boliche, que consiste não em derrubar os pinos, mas em encaixá-los, como no bilboquê etc.

Esses curiosos desenhos provam, indubitavelmente, que a assinatura “Bernard Palissy, em Júpiter” é apócrifa e que não foi um Espírito habitante desse planeta que dirigiu a mão de Victorien Sardou. Não foi, tampouco, o espiritual autor que concebeu previamente esses croquis e executou-os seguindo um plano determinado. Ele se encontrava, então, em um estado especial de “mediunidade”. Nesse estado, não somos nem magnetizados, nem hipnotizados, nem adormecidos de modo algum. Mas nosso cérebro não ignora o que produzimos, suas células funcionam e agem, certamente por meio de um movimento reflexo sobre os nervos motores. Todos nós acreditávamos, então, que Júpiter era habitado por uma raça superior: aquelas comunicações eram, portanto, o reflexo das idéias gerais. Hoje, não imaginaríamos nada de semelhante neste globo e, aliás, nunca as sessões espíritas nos ensinaram qualquer coisa sobre astronomia. Tais resultados não provam de forma alguma a intervenção dos espíritos. Os médiuns escreventes deram sobre isso alguma prova mais convincente? É o que teremos de examinar, sem qualquer parcialidade.

Eu também tentei ver se, me concentrando, minha mão abandonada passivamente e dócil escreveria. Não tardei a constatar que, após ter traçado barras, “os”, linhas sinuosas mais ou menos entrelaçadas, como poderia fazê-lo a mão de uma criança de quatro anos que começava a escrever, minha mão acabou por dar origem a palavras e a frases.

 

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Prancha IICasa imaginária de Zoroastro, em Júpiter – (Desenho mediúnico do senhor Victorien Sardou)

 

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Prancha IIICena imaginária em Júpiter (Espaço dos animais na casa de Zoroastro). Victorien Sardou Médium (ass.) Bernard Palissy

Naquelas reuniões na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, escrevi, por meu lado, páginas sobre astronomia, assinadas “Galileu”. Essas comunicações ficavam no escritório da sociedade, e Allan Kardec publicou-as em 1867, sob o título Uranographie générale (Uranografia Geral), em seu livro intitulado La Gênese (Gênese) (do qual conservei um dos primeiros exemplares, com a dedicatória do autor). Essas páginas sobre astronomia nada me ensinaram. Não tardei em concluir que elas eram apenas o eco daquilo que eu sabia e que Galileu nada tinha a ver com aquilo. Era como uma espécie de sonho acordado. Além disso, minha mão parava quando eu pensava em outros assuntos.

Eis o que eu dizia a esse respeito em minha obra Les Terres du Ciei (As Terras do Céu) (edição de 1884, p.181):

O médium escrevente encontra-se em um estado no qual ele não está, de modo algum, nem adormecido, nem magnetizado, nem hipnotizado. Estamos, simplesmente, recolhidos em um círculo determinado de idéias. Então, o cérebro age, por meio do sistema nervoso, de um modo um pouco diferente do que ele age no estado normal. A diferença não é tão grande quanto supusemos. Vejam, principalmente, no que ela consiste. No estado normal, pensamos naquilo que iremos escrever, antes de começarmos o ato da escrita: agimos diretamente para mover nossa pena, nossa mão, nosso antebraço. Na outra condição, ao contrário, não pensamos antes de escrever, não fazemos mover nossa mão, deixando-a inerte, passiva, livre; colocamo-la sobre o papel, tendo o cuidado para que ela sofra a mínima resistência possível, pensamos em uma palavra, em um número, em um traço de pena, e nossa própria mão escreve sozinha. Mas é preciso pensar no que estamos fazendo, não antes, mas sem descontinuidade, pois, caso contrário, a mão para. Tentem, por exemplo, escrever a palavra oceano, não como de hábito, escrevendo-a voluntariamente, mas pegando um lápis, deixando simplesmente sua mão livremente colocada sobre um caderno, pensando nessa palavra e observando atentamente se sua mão a escreverá. Pois bem! Sua mão não tardará a escrever um o, a seguir um c e assim por diante. Pelo menos, foi a experiência que fiz comigo mesmo, quando eu estudava os novos problemas do espiritismo e do magnetismo.

Sempre pensei que o círculo da ciência não era fechado e que temos ainda muita coisa a aprender. Nesses exercícios, é muito fácil enganar a si mesmo e acreditar que nossa mão está sob a influência de uma mente diferente da nossa. A conclusão mais provável dessas experiências foi que a ação desses espíritos estranhos não é necessária para explicar os fenômenos. Mas não cabe aqui entrar em mais pormenores a respeito de um assunto até o presente insuficientemente examinado pela crítica científica, e muitas vezes, mais explorado pelos especuladores do que estudado por cientistas.  

O que eu escrevi em 1884, posso repetir hoje, exatamente nos mesmos termos.

Nos primeiros tempos, dos quais acabo de falar, relacionei-me rapidamente com os principais círculos de Paris onde essas experiências eram realizadas e até mesmo aceitei trabalhar, durante dois anos, como secretário devotado de um deles, o que teve como resultado o fato de eu não poder faltar a nenhuma sessão.

Três métodos diferentes eram empregados para receber as comunicações: a escrita manual; a prancheta munida de um lápis, sobre a qual colocávamos as mãos, e as pancadas produzidas dentro da mesa – ou os movimentos da mesma – marcando determinadas letras de um alfabeto lido em voz alta por um dos assistentes.

O primeiro método era o único empregado na Sociedade de Estudos Espíritas presidida por Allan Kardec. E é ele que deixa margem às maiores dúvidas.[3] E, de fato, ao término de dois anos de exercícios desse gênero, os quais também variei tanto quanto possível, sem quaisquer idéias preconcebidas a favor ou contra, e com o mais vivo desejo de conseguir desvendar as causas – o resultado foi o de concluir definitivamente que não apenas as assinaturas daquelas páginas não eram autênticas, mas também que a ação de uma causa externa não foi demonstrada, e que, em conseqüência de um processo cerebral a ser estudado, nós mesmos somos os seus autores mais ou menos conscientes.[4] Mas a explicação não é tão simples quanto possa parecer e há determinadas restrições a serem feitas sobre essa impressão geral.

Ao escrevermos nessas condições – como já disse anteriormente – nós não criamos nossas frases como o faríamos em estado normal, mas, antes, nós esperamos que elas se produzam. Mas nossa mente está, mesmo assim, associada a esse processo. O assunto que está sendo tratado está relacionado com nossas idéias habituais; a língua escrita é a nossa, e se não tivermos certeza da ortografia de algumas palavras, haverá erros. Além disso, nossa mente está tão intimamente associada ao que escrevemos, que se nós pensarmos em outra coisa, se nos abstrairmos por pensamento do assunto tratado, nossa mão para ou escreve incoerências. Eis o estado do médium escrevente, pelo menos o que observei comigo mesmo. E uma espécie de autossugestão. Apresso-me em acrescentar, entretanto, que essa opinião só diz respeito, aqui, à minha experiência pessoal. Segundo asseguram, há médiuns absolutamente mecânicos, que não sabem o que estão escrevendo (vide mais adiante, p. 70), que tratam de assuntos por eles ignorados e que até escreveriam em línguas estrangeiras. Teríamos, nesse caso, uma condição diferente daquela que acabo de falar e que indicaria seja um estado cerebral especial, seja uma grande habilidade, seja uma causa externa, se fosse demonstrado que nossa mente não pode adivinhar o que ela ignora. Mas a comunicação de um cérebro a outro, de uma mente a outra é um fato provado pela telepatia. Podemos, portanto, conceber que um médium escreva sob a influência de uma pessoa próxima – ou mesmo distante. Vários médiuns compuseram, em sessões sucessivas, verdadeiros romances, como A História de Joana d’Arc, escrita por ela mesma, ou viagens a outros planetas, que parecem indicar uma espécie de desdobramento do indivíduo, uma segunda personalidade, mas sem nenhuma prova de autenticidade. Existe também um meio psíquico do qual falaremos mais adiante. No momento, ocupo-me apenas com o assunto deste capítulo, e repito as palavras de Newton: Hypotheses non fingo.

Quando da morte de Allan Kardec, em 31 de março de 1869, a Sociedade Espírita veio pedir-me para pronunciar um discurso fúnebre junto ao seu túmulo. Nesse discurso, tomei o cuidado de dirigir a atenção dos espíritas para o caráter científico dos estudos a serem realizados e sobre o perigo de se deixar cair no misticismo. Reproduzirei aqui alguns trechos desse discurso:

Eu gostaria de poder representar, ao pensamento daqueles que me ouvem, e ao daqueles milhões de homens que, na Europa inteira e no Novo Mundo estão ocupados com o problema ainda misterioso dos fenômenos denominados espíritas; – eu gostaria, repito, de poder representar-lhes o interesse científico e o futuro filosófico do estudo desses fenômenos (ao qual se entregaram, como ninguém ignora, homens eminentes entre os nossos contemporâneos). Gostaria de lhes fazer entrever quais horizontes desconhecidos o pensamento humano verá se abrir diante de si, à medida que ele estender o seu conhecimento positivo das forças naturais em ação ao nosso redor; mostrar-lhes que tais constatações são o antídoto mais eficaz da lepra do ateísmo, que parece atacar particularmente a nossa época de transição. Seria um ato importante estabelecer aqui, diante desta tumba eloqüente, que o exame metódico dos fenômenos espíritas, chamados erroneamente de sobrenaturais, longe de renovar a mente supersticiosa e enfraquecer a energia da razão, afasta, ao contrário, os erros e as ilusões da ignorância, e serve melhor ao progresso do que a negação ilegítima daqueles que não querem, de forma alguma, dar-se ao trabalho de observar. Esse complexo estudo deve entrar agora em seu período científico. Os fenômenos físicos sobre os quais não se insistiu suficientemente, devem se tornar o objeto da crítica experimental, sem a qual nenhuma constatação válida é possível. Esse método experimental ao qual devemos a glória do progresso moderno, e as maravilhas da eletricidade e do vapor; esse método deve tomar os fenômenos de ordem ainda misteriosa à qual nós assistimos, dissecá-los, medi-los, e defini-los.

Porque, senhores, o espiritismo não é uma religião, mas é uma ciência, ciência da qual conhecemos apenas o beabá. O tempo dos dogmas acabou. A Natureza abarca o Universo, e, o próprio Deus, que era concebido outrora como a imagem do homem, não pode ser considerado pela metafísica moderna senão como um espírito na natureza. O sobrenatural não existe. Tanto as manifestações obtidas por intermédio dos médiuns, como as do magnetismo e do sonambulismo, são de ordem natural, e devem ser severamente submetidas ao controle da experiência. Não há mais milagres. Assistimos à aurora de uma ciência desconhecida. Quem poderia prever a quais conseqüências conduzirá, no mundo do pensamento, o estudo positivo dessa psicologia nova? Nosso olho não vê as coisas senão entre dois limites, aquém e além dos quais ele não vê mais. O nosso organismo terrestre pode ser comparado a uma harpa de duas cordas, que são o nervo óptico e o nervo auditivo. Uma determinada espécie de movimentos coloca em vibração a primeira corda e outra espécie de movimentos coloca em vibração a segunda: aí está toda a sensação humana, mais restrita do que a de certos seres vivos, de certos insetos, por exemplo, nos quais essas mesmas cordas, da visão e da audição, são mais delicadas. Ora, na realidade, existem na natureza não duas, mas dez, cem, mil espécies de movimentos. A ciência física nos ensina, portanto, que vivemos assim no meio de um mundo invisível para nós, e que não é impossível que seres (igualmente invisíveis para nós) vivam também sobre a Terra, em uma ordem de sensações absolutamente diferente da nossa, e sem que possamos apreciar a sua presença, a menos que eles se manifestem a nós por fatos que entrem na nossa ordem de sensações. Diante de tais verdades, que ainda apenas se anunciam, quanto a negação cega parece absurda e sem valor! Quando se compara o pouco que sabemos e a exiguidade da nossa esfera de percepção à quantidade de tudo o que existe, não podemos nos impedir de concluir que não sabemos nada e que tudo nos resta a saber. Com que direito pronunciaremos, pois, a palavra “impossível” diante dos fatos que constatamos sem poder descobrir suas causas? E pelo estudo positivo dos efeitos que se chega à apreciação das causas. Na ordem dos estudos reunidos sob a denominação genérica de “espiritismo”, os fatos existem. Mas ninguém conhece o seu modo de produção. Eles existem tanto quanto os fenômenos elétricos; mas, senhores, nós não conhecemos nem a biologia, nem a fisiologia, nem a psicologia. O que é o corpo humano? O que é o cérebro? Qual é a ação absoluta da alma? Nós o ignoramos. Ignoramos igualmente a essência da eletricidade, a essência da luz. É, pois, sábio observar, sem parcialidade, todos esses fatos, e tentar determinar-lhes as causas, que são, talvez, de espécies diversas e mais numerosas do que o supusemos até aqui.[5] 

Vemos que aquilo que eu proclamava publicamente, em 1869, do alto do outeiro acima da cova onde acabavam de descer o caixão de Allan Kardec, não difere do programa puramente científico desta obra.

Eu disse, há pouco, que três métodos eram utilizados nessas experiências. Conhecemos o que eu penso a respeito do primeiro (escrita manual) (referente à minha observação pessoal, e sem querer invalidar outras provas, se existirem). Sobre o segundo, a prancheta, eu a conheci, principalmente, pelas sessões da senhora de Girardin[6] na casa de Victor Hugo, em Jersey: ele é mais independente que o primeiro, mas é ainda o prolongamento de nossa mão e de nosso cérebro. O terceiro, o das pancadas no móvel ou “tiptologia” parece-me ainda mais independente e em muitas circunstâncias, há quarenta e cinco anos, eu o empreguei preferencialmente. (O método das pancadas no assoalho realizadas por uma perna da mesa que se levanta, caindo a seguir, para marcar as letras soletradas não tem grande valor. A mínima pressão pode operar esses movimentos de báscula. O próprio experimentador principal produz as respostas, muitas vezes sem suspeitá-lo).

Várias pessoas colocam-se ao redor de uma mesa, as mãos colocadas sobre a mesma, e esperam o que se produzirá. Ao fim de cinco, dez, quinze, vinte minutos, conforme o meio ambiente e as faculdades dos experimentadores, escutam-se as pancadas na mesa ou se assistem aos movimentos do móvel, que parece se animar. Por que escolhemos uma mesa? Porque é praticamente o único móvel ao redor do qual temos o hábito de nos sentar. As vezes, a mesa eleva-se sobre uma ou várias pernas e sofre lentas oscilações; outras vezes, ela se ergue como se estivesse grudada às mãos postas sobre ela, e isso durante dois, três, cinco, dez ou vinte segundos; outras vezes, ela adere ao assoalho com tanta força, que parece que ela duplicou, triplicou de peso. Outras vezes, ainda, e quase sempre a pedido dos assistentes, ouvem-se ruídos de serra, de machado, de lápis escrevendo etc. Esses são os efeitos físicos observados, que provam irrefutavelmente a existência de uma força desconhecida.

Essa força é uma força física de ordem psíquica. Se somente observássemos movimentos desprovidos de sentido, de um tipo ou de outro, cegos, relacionados apenas com as vontades dos assistentes e não explicáveis apenas pelo contato das mãos dos experimentadores, poderíamos nos limitar à conclusão de que se trata de uma força desconhecida, que poderia ser uma transformação de nossa força nervosa, da eletricidade orgânica, e isso já seria algo considerável. Mas as pancadas na mesa, ou dadas pelas suas pernas, são executadas em resposta às perguntas feitas à mesa. Como todos nós sabemos que a mesa é um pedaço de madeira, ao nos dirigirmos a ela, estamos nos dirigindo a algum agente mental que ouve e que responde. Foi nessa categoria que os fenômenos começaram, nos Estados Unidos, quando, em 1848, as senhoritas Fox escutaram, em seus quartos, ruídos, pancadas nos muros e nos móveis, e que seu pai, após vários meses de pesquisas vexatórias, acabou por valer-se da velha história das almas do outro mundo, pedindo à causa invisível uma explicação qualquer. Essa causa respondeu por meio de pancadas tradicionais às perguntas feitas e declarou que ela era a alma do antigo proprietário, outrora assassinado em sua própria casa. A referida alma pediu preces e o sepultamento do corpo.

(Desde aquela época, convencionou-se que uma pancada dada como resposta a uma pergunta significaria sim, duas significariam não e que três pancadas significariam uma afirmativa mais enfática do que o simples sim).

Apressemo-nos em observar imediatamente que essa resposta nada prova, e pode ter sido dada, de uma maneira inconsciente, pelas próprias senhoritas Fox que, nesse caso, não podemos considerar que estivessem representando uma comédia. Elas foram as primeiras a ficarem surpresas, espantadas, transtornadas com as pancadas produzidas por elas. A hipótese de impostura e de mistificação, cara a certos críticos, não tem a mínima aplicação aqui – muito embora, com muita freqüência, essas pancadas e esses movimentos sejam produzidos por farsantes.

Existe uma causa invisível, produtora dessas pancadas. Essa causa está em nós ou fora de nós? Seríamos suscetíveis de nos desdobrar, de algum modo, sem o sabermos, de agirmos por sugestão mental, de respondermos a nós mesmos sem desconfiar, de produzirmos efeitos físicos inconscientemente? Ou então, existiria ao nosso redor um meio inteligente, uma espécie de cosmos espiritual? Ou ainda, estaríamos cercados de seres invisíveis que não seriam humanos: gnomos, duendes, trasgos (pode existir, em torno de nós, um mundo desconhecido), ou, enfim, seriam realmente as almas dos mortos que sobreviveriam, errariam e poderiam comunicar-se conosco? Todas as hipóteses se apresentam, e não temos o direito científico absoluto de desprezar qualquer uma delas.

A elevação de uma mesa e o deslocamento de um objeto poderiam ser atribuídos a uma força desconhecida desenvolvida por nosso sistema nervoso ou por outra via. Pelo menos, esses movimentos não provam a existência de um espírito estranho. Mas, quando ao nomear as letras do alfabeto ou apontá-las sobre um cartão, a mesa, seja por meio de pancadas na madeira, seja por meio de elevações, compõe uma frase inteligível, somos forçados a atribuir esse efeito inteligente a uma causa inteligente. Essa causa pode ser o próprio médium, e o mais simples, evidentemente, é supor que ele próprio bate as letras. Mas podemos organizar as experiências de tal maneira que ele não possa agir assim, mesmo inconscientemente. Nosso primeiro dever é, com efeito, tornar a fraude impossível.

Todos aqueles que estudaram suficientemente o assunto sabem que a fraude não explica o que eles observaram. Com certeza, nas reuniões espíritas sociais, às vezes as pessoas se divertem. Principalmente quando as sessões realizam-se no escuro, e que a alternância de sexos é ordenada para “reforçar os fluidos”, não é raro que os cavalheiros aproveitem a tentação para esquecer momentaneamente o objetivo da reunião e romper a cadeia das mãos para formar outra diferente. As senhoras e as moças prestam-se a isso com prazer, e quase ninguém reclama. Por outro lado, fora das reuniões sociais, às quais as pessoas são convidadas sobretudo para se distraírem, as reuniões mais sérias não são, muitas vezes, mais seguras, porque o médium, interessado de alguma forma ou de outra, faz questão de dar o melhor que ele pode… mesmo realizando uma intervenção discreta.

Em uma folha de um bloco de notas que acabei de reencontrar, eu tinha classificado as reuniões espíritas na ordem abaixo, sem dúvida um pouco original:

1º) Carícias amorosas (foi feita uma crítica similar às ágapes cristãs).

2º) Charlatanismo dos médiuns, que abusam da credulidade da assistência.

3º) Alguns pesquisadores sérios.

Na época da qual falava há pouco (1861-1863), participei, como secretário, de experiências realizadas regularmente uma vez por semana no salão de uma médium reputada, a senhorita Huet, na rua Mont-Thabor. A mediunidade era, de algum modo, sua profissão e, mais de uma vez, ela foi flagrada blefando admiravelmente. Podemos supor que ela própria, com muita freqüência, dava as pancadas, batendo seus pés contra a mesa. Mas obtínhamos, muitas vezes, ruídos de serra, de plaina, de ribombo de tambor, de torrentes, impossíveis de imitar. A fixação da mesa ao assoalho também não pode ser produzida pela fraude… Quanto às levitações da mesa, como já disse, aquele que com a mão tentava opor resistência ao seu levantamento, sentia a mesma impressão que sentiria se a mesa estivesse flutuando sobre um fluido. Dessa forma, não vemos como a médium poderia produzir esse efeito. E tudo se passava na mais perfeita claridade.

As comunicações recebidas nas inúmeras reuniões (várias centenas) às quais assisti, tanto naquela época quanto posteriormente, mostraram-me, constantemente, resultados compatíveis com o nível de instrução dos participantes. Naturalmente, fiz muitas perguntas sobre astronomia. As respostas nunca nos ensinaram nada, e devo, em nome da verdade, declarar que, se há espíritos, entidades psíquicas independentes de nós em ação nessas experiências, esses seres não sabem mais do que nós sobre os outros mundos.

Um eminente poeta, o senhor P. F. Mathieu, participava ordinariamente das reuniões do salão da rua Mont-Thabor, e obtivemos algumas vezes trechos de versos muito bonitos, que certamente não era ele que escrevia conscientemente, pois, como nós, ele estava lá para estudar. O senhor Joubert, vice-presidente do Tribunal Civil de Carcassonne, publicou Fables et Poésies Diverses (Fábulas e Poesias Diversas), por um espírito batedor, que mostram, com evidência, um reflexo de seus pensamentos costumeiros. Havia, entre nós, filósofos cristãos: a mesa ditava-nos belos pensamentos assinados por Pascal, Fénelon, Vicente de Paulo, Santa Tereza. Um espírito que assinava Bal-thasar Grimod de La Reynière[7] ditava desopilantes dissertações sobre culinária e sua especialidade era a de fazer dançar a pesada mesa com mil contorções. Rabelais aparecia às vezes como um alegre companheiro, ainda apreciando os aromas dos pratos suculentos. Certos espíritos divertiam-se em fazer tours de force em criptologia. Cito, abaixo, alguns tipos dessas comunicações realizadas por meio de pancadas:

Spiritus ubi vult spirat; et vocem ejus audis, sed nescis unde veniat aut quo vadat. Sic est omnis qui natus est ex spiritu. (João, III, 8) (O Espírito sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem e para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito). 

Dear little sister, I am here, and see that you are as good as ever. You are a medium. I will go to you with great happiness. Tell my mother her dear daughter loves her from this world. (Querida irmãzinha, eu estou aqui e vejo que você continua boa como sempre. Você é médium. Eu irei até você com grande alegria. Diga à minha mãe que, deste mundo, sua querida filha a ama).

Louisa 

Alguém perguntou ao espírito se ele poderia, por meio de pancadas, reproduzir as palavras gravadas na parte interna do seu anel, “Eu amo que me amem como eu amo quando eu amo”.

Tendo um participante suspeitado que a mesa ao redor da qual estávamos sentados podia esconder um mecanismo que dava as pancadas, uma das frases foi ditada por meio de pancadas dadas no ar.

Segue outra série de frases:

Je suis ung ioyeux compaignon qui vous esmarveille-ray avecques mes discoursje ne suispas ung Esperict matéologien, je vestiray mon liripipion et je diray: Beuvez Veaue de la cave, poy plus, poy moins, serez content. (Eu sou um alegre companheiro que vos alegrará com meus discursos, não sou um Espírito vão, vestirei meu capuz com liripipe[8] e direi: Bebei a água da adega,[9] nem mais, nem menos e ficareis contentes).

Alcofribaz Nazier[10]

Tendo surgido uma viva discussão a respeito dessa visita inesperada e dessa linguagem que alguns eruditos não consideravam bastante rabelaisiana, a mesa ditou:

Bons enfants estes de vous esgousiller à ceste besterie. Mieux vault que beuviez froid que parliez chaud. (Vós sois como bons meninos a se esgoelarem com essa besteira. Seria melhor que bebêsseis frio do que falásseis quente).

Rabelais

Liesse et Noël! Monsieur Satan est défun, et de mâle mort. Bien marrys sont les moynes, moynillons, bigotz et cagotz, carmes chaulx et déchaulx, papelards et frocards, mitrez et encapuchonnez: les vécy sans couraige, les Esperictz les ont destrosnez. Plus ne serez roustiz et eschaubouillez ez marmites nomachales et roustissoires diaboliques; foin de ces billevesées papales et cléricquales. Dieu est bon, iuste etplein de misérichorde; il dict à sespetits enfancts: aimez-vous les ungs les autres et il pardoint à la repen-tance. Le grand dyable d’enfer est mort; vive Dieu! (Festa e Alegria! O senhor Satã morreu, e de má morte. Bem aflitos estão os monges e fradépios, carolas e falsos beatos, carmelitas calçados e descalços, falsos devotos e padrecos, mitrados e encapuzados: ei-los aqui sem coragem, os Espíritos destronaram-nos. Vós não sereis mais assados e fervidos nos caldeirões monacais e grelhas diabólicas; malditas sejam essas besteiras papais e clericais. Deus é bom, justo e cheio de misericórdia; ele disse aos seus fuhinhos: amai-vos uns aos outros e ele perdoará o arrependido. O grande diabo do inferno está morto: viva Deus!). 

Mais algumas séries:

Suov ruop erètsym nu sruojuot tnores emêm sruei-sulp; erdnerpmoc ed simrep erocne sap tse suov en liuq snoitseuq sed ridnoforppa ruop tirpse’1 sap retne-mruot suov en. Liesnoc nob nu zevius. Suov imrap engèr en edrocsid ed tirpse’1 siamaj euq. Arevèlé suov ueid te serèrfsov imrap sreinred sei zeyos; évelé ares essiaba’s iuq iulec, éssiaba ares evèlé’s iuq iulec. (Aquele que se enaltece, será rebaixado. Sede os últimos dos vossos irmãos e Deus vos enaltecerá. Que nunca o espírito de discórdia reine entre vós. Segui um bom conselho. Não atormenteis o espírito para aprofundar questões cuja compreensão ainda não vos é permitida; muitas delas serão mesmo um mistério para vós). 

É preciso ler essas frases de trás para frente, começando pelo fim.

Perguntamos:

– Por que você ditou assim? Foi respondido:

– Para dar-lhes provas novas e inesperadas. Eis uma nova frase, de outro tipo:

Acmairsvnoouussevtoeussbaoinmsoentsfbiideen,leosus.

Sloeysepzrrmntissaeinndtieetuesnudrrvaosuessmaairlises. 

Perguntei:

– O que significa essa composição estranha de letras? Foi respondido:

– Leia de duas em duas letras, para responder suas dúvidas. Essa composição resulta nos quatro versos seguintes:

Amigos, nós gostamos muito de vós,

Pois vós sois bons e fiéis.

Sede unidos em Deus: sobre vós

O Espírito Santo estenderá suas asas. 

Certamente, é bastante inocente e sem pretensões poéticas. Mas havemos de convir que esse tipo de ditado é de uma dificuldade bastante rigorosa.[11]

Falamos sobre os projetos humanos. A mesa dita:

Quando o sol brilhante dissipa as estrelas,

Sabeis, oh, mortais, se vereis a noite?

E quando o céu se funde em fúnebres véus,

E um amanhã: podereis revê-lo? 

Perguntamos: – O que é a fé?

A fé? É como um campo abençoado

Que gera uma colheita soberba,

E cada trabalhador nele pode infinitamente

Ceifar e colher, depois levar seu feixe. 

Mais alguns exemplos de ditados:

A ciência é uma floresta, onde alguns traçam estradas, onde muitos se perdem, e onde todos vêem os limites da floresta recuar à medida que eles avançam. Deus não ilumina o mundo com o raio e os meteoros. Ele dirige calmamente os astros que iluminam esse mundo. Assim as revelações divinas suceder-se-ão com ordem, razão e harmonia.

A Religião e a Amizade são duas companheiras que ajudam a percorrer a árdua vereda da vida. 

Não resisto ao prazer de inserir, para terminar, uma fábula igualmente ditada pelo método das pancadas, que me foi enviada pelo senhor Joubert, vice-presidente do Tribunal Civil de Carcassonne. Podemos discutir sua opinião, mas seu princípio não é aplicável a todas as épocas e a todos os governos? Os “arrivistas” não existem em todos os tempos?

O rei e o camponês 

Um rei que profanava a liberdade pública, que durante vinte anos saciou-se com o sangue dos heréticos, esperando do carrasco a paz dos seus velhos dias. Decrépito, saturado dos amores adúlteros, esse rei, esse orgulhoso de quem fizeram um grande homem, Luís XIV, enfim, se é preciso que eu lhe dê um nome, Outrora sob as abóbadas de verdura de seus vastos jardins passeava com sua Scarron,[12] sua vergonha e suas tristezas. Acompanhavam-no cortesãos e a nobre criadagem. Cada um perdia, pelo menos, dez polegadas de seu tamanho; pajens, condes, marqueses, duques, príncipes, marechais, ministros inclinavam-se diante de ultrajantes rivais. Mais humildes que um litigante pedindo audiência, sérios magistrados faziam reverências. Era divertido ver fitas, cruzes e condecorações, sobre suas túnicas bordadas andarem de costas.

Assim, sempre, sempre essa ignóbil obsequiosidade. Eu gostaria de uma manhã acordar Imperador, expressamente para fustigar a coluna de um bajulador. Sozinho, caminhando à sua frente, mas sem curvar a cabeça, prosseguindo seu caminho a passos lentos, modesto, coberto de tecidos grosseiros, um camponês, ou se quisermos, talvez um filósofo, atravessou a corte de grupos insolentes:

– Oh! – exclamou o rei, demonstrando sua surpresa – Por que sois o único a me enfrentar sem dobrar os joelhos?

– Senhor – disse o desconhecido, quereis que eu seja franco? É porque eu sou o único neste lugar que nada espero de vós. 

Se refletirmos sobre a maneira pela qual essas sentenças, essas frases, essas peças diversas foram ditadas, letra por letra, seguindo o alfabeto, pancada por pancada, apreciaremos sua dificuldade. As pancadas são dadas no interior da madeira da mesa, das quais sentimos as vibrações, ou dentro de outro móvel, ou mesmo no ar. A mesa, como notamos, é animada, impregnada de uma espécie de vitalidade momentânea. Ritmos de árias conhecidas, ruídos de serra, de trabalhos de oficina, de fuzilaria assim são obtidos. A mesa, às vezes, torna-se tão leve, que ela plana um momento no ar e, às vezes tão pesada que dois homens não conseguem soltá-la do assoalho, nem fazê-la se mexer. É importante termos em mente todas essas manifestações, muitas vezes pueris, sem dúvida, às vezes vulgares e grotescas, mas, entretanto, produzidas pelo processo em questão, para compreendermos exatamente os fenômenos e sentir que aqui estamos em presença de um elemento desconhecido que a impostura e a prestidigitação não podem explicar.

Algumas pessoas têm a faculdade de mexer separadamente os dedos do pé, e de produzirem algumas pancadas por esse processo. Se supusermos que os ditados pelas combinações citadas há pouco foram previamente preparados, aprendidos de cor, e assim batidos, isso seria bastante simples. Mas essa faculdade é muito rara e ela não explica os ruídos dentro da mesa, sentidos pelas mãos. Podemos supor, também, que o médium bate na mesa com o pé e constrói as frases que lhe agradam. Mas, por um lado, seria necessária uma fabulosa memória para se obter exatamente aquela combinação de letras (pois o médium nada tem sob os olhos) e, por outro, aqueles ditados barrocos também foram produzidos em reuniões íntimas, nas quais ninguém blefava.

Mas imaginarmos que estão presentes espíritos superiores em comunicação com os experimentadores; imaginarmo-nos evocando São Paulo ou Santo Agostinho, Arquimedes ou Newton, Pitágoras ou Copérnico, Leonardo da Vinci ou William Herschel e deles recebermos ditados em uma mesa, é uma hipótese que se elimina por si só.

Um pouco acima, tratamos dos desenhos e das descrições jupiterianos do senhor Victorien Sardou. Cabe, aqui, citarmos a carta que ele enviou ao senhor Jules Claretie,[13] que a publicou no jornal Le Temps, na época em que o erudito acadêmico encenou sua peça Spiritisme (Espiritismo):

… Quanto ao espiritismo, eu poderei melhor expressar o que penso em três palavras do que eu o faria em três páginas. Em parte o senhor tem razão e, em parte, o senhor está errado. Perdoe-me a franqueza de julgamento. Há duas coisas no espiritismo: fatos curiosos, inexplicáveis no estado atual dos nossos conhecimentos, mas constatados, e também, aqueles que os explicam. Os fatos são reais. Aqueles que os explicam pertencem a três categorias: há, primeiramente, os espíritas imbecis, ou ignorantes, ou loucos, que evocam Epaminondas,[14] os quais, justamente, são motivo de zombaria, ou que crêem na intervenção do diabo, em suma, que acabam no hospício de Charenton.

Secundo, há os charlatães, a começar por D., impostures de toda espécie, os profetas, os médiuns consulentes, os A. K., e tutti quanti.

Há, enfim, os cientistas, que crêem tudo poder explicar por meio da impostura, da alucinação e dos movimentos inconscientes, como Chevreul[15] e Faraday e que, tendo razão a respeito de alguns dos fenômenos que lhes descrevem, e que são, realmente, alucinação ou impostura, estão errados, todavia, a respeito de toda a série de fatos primitivos, que não se dão ao trabalho de verificar, e que são, entretanto, os mais sérios. Estes são muito culpados, pois, com sua oposição aos experimentadores sérios (como Gasparin,[16] por exemplo), e com suas explicações insuficientes, eles abandonaram o espiritismo à exploração de toda a espécie de charlatães, e autorizaram, ao mesmo tempo, os amadores sérios a não mais se ocuparem do mesmo.

Há, em ultimo lugar, os observadores (mas é raro) como eu que, incrédulos por natureza, tiveram que reconhecer, ao longo do tempo, que há em tudo isso fatos rebeldes a qualquer explicação científica atual, sem renunciarem, por isso, a vê-los explicados um dia, e que, desde então, aplicaram-se a discernir os fatos, a submetê-los a alguma classificação, que mais tarde se converterá em lei. Estes se mantêm afastados, como eu o faço, de toda camarilha, de todo os cenáculos, de todos os profetas e, satisfeitos com a convicção adquirida, limitam-se a ver no espiritismo a aurora de uma verdade, ainda muito obscura, que algum dia encontrará seu Ampère, como as correntes magnéticas, deplorando que essa verdade pereça, sufocada entre estes dois excessos: o da credulidade ignorante que crê em tudo e o da incredulidade científica que não crê em nada.

Eles encontram na sua convicção e na sua consciência a força de enfrentar o pequeno martírio do ridículo que se une à crença que alardeiam, duplicada por todas as tolices que as pessoas não deixam de lhes atribuir, e não julgam que o mito com o qual as pessoas os revestem mereça nem mesmo a honra de uma refutaçào.

Similarmente, nunca tive vontade de demonstrar a quem quer que seja que nem Molière, nem Beaumarchais tiveram alguma influência em minhas peças. Parece-me que isso é mais do que evidente.

Quanto às casas de Júpiter, é preciso perguntar às boas pessoas que supõem que eu esteja convencido de sua existência, se eles estão persuadidos que Gulliver acreditava em Lilliput,[17] Tommaso Campanella na Cidade do Sol e Thomas Moras na Utopia.

Contudo, o que é verdade é que o desenho do qual o senhor fala (Prancha III) foi feito em menos de dez horas. Como isso se originou, eu não dou quatro centavos para sabê-lo; mas o fato é outro assunto.

V. Sardou 

Talvez não se passe um só ano sem que médiuns me tragam desenhos de plantas e de animais da Lua, de Marte, de Vênus ou de algumas estrelas. Esses desenhos são mais ou menos bonitos e mais ou menos curiosos. Mas, não somente nada nos leva a admitir que eles representem, realmente, coisas reais existentes em outros mundos, como também tudo prova, ao contrário, que eles são produto da imaginação: essencialmente terrestres de aspectos e de formas, não correspondendo nem mesmo ao que conhecemos das possibilidades de vida naqueles mundos. Os desenhistas deixaram-se enganar pela ilusão. Essas plantas e esses seres são metamorfoses, por vezes elegantes, dos organismos terrestres. Ainda, talvez o mais curioso seja que todos esses desenhos assemelham-se pela maneira com que foram traçados e trazem, de alguma maneira, a marca mediúnica.

Mas voltando às minhas experiências, na época em que eu escrevia como médium, eu produzia, geralmente, dissertações sobre astrologia ou filosofia, assinadas “Galileu”. Como exemplo, citarei apenas uma, extraída dos meus cadernos de 1862.

A ciência 

A inteligência humana elevou suas potentes convicções até os limites do espaço e do tempo; ela penetrou no campo inacessível das eras antigas, sondou o mistério dos céus insondáveis, e acreditou ter explicado o enigma da criação. O mundo exterior desfiou aos olhares da ciência seu panorama esplêndido e sua magnífica opulência e os estudos do homem conduziram-no ao conhecimento da verdade. Ele explorou o Universo, encontrou a expressão das leis que o regem e a aplicação das forças que o sustentam, e se não lhe foi dado olhar, frente a frente, a Causa primeira, ao menos ele chegou à noção matemática da série de causas segundas.

Sobretudo neste último século, o método experimental, o único que é verdadeiramente científico, foi colocado em prática nas ciências naturais, e com sua ajuda, o homem sucessivamente despojou-se dos preconceitos da antiga Escola e das teorias especulativas, para encerrar-se no campo da observação e cultivá-lo com cuidado e inteligência.

Sim, a ciência humana é sólida e fecunda, digna de nossas homenagens por seu passado difícil e longamente posto à prova, digna de nossas simpatias por seu futuro pleno de descobertas úteis e vantajosas. Pois a natureza é doravante um livro acessível às pesquisas bibliográficas do homem estudioso, um mundo aberto às investigações do pensador, uma região fértil que a mente humana já visitou, e na qual é preciso corajosamente avançar, tendo na mão a experiência como uma bússola…

Um antigo amigo da minha vida terrena falava-me recentemente desta forma: Uma peregrinação nos tinha levado à Terra, e estudávamos, de novo, moralmente esse mundo. Meu companheiro acrescentava que o homem está hoje familiarizado com as leis mais abstratas da mecânica, da física, da química etc, que as aplicações à indústria não são menos dignas de nota que as deduções da ciência pura, e que a criação inteira, cientificamente estudada por ele, parece ser, de hoje em diante, seu real apanágio. E como prosseguíssemos nossa viagem para fora deste mundo, respondi-lhe nestes termos: Fraco átomo perdido num ponto insensível do infinito, o homem acreditou estar abarcando com seu olhar a extensão universal, quando ele apenas estava saindo da região em que ele morava; ele acreditou estar estudando as leis da natureza inteira, quando suas apreciações apenas tinham se limitado às forças em ação ao seu redor; ele acreditou estar determinando a extensão do céu, quando se consumia na determinação de um grão de poeira. O campo de suas observações é tão exíguo que, uma vez perdido de vista, a mente o procura sem achá-lo; o céu e a terra humanos são tão pequenos que a alma, em seu progresso, não tem tempo de abrir suas asas antes de chegar às últimas paragens acessíveis à observação humana, pois o Universo incomensurável nos cerca por todos os lados, desdobrando, para além de nossos céus, riquezas desconhecidas, colocando em jogo forças inconcebíveis e propagando ad infinitum o esplendor e a vida.

E o miserável ácaro privado de asas e de luz, cuja triste existência se consome na folha que lhe deu a existência, pretenderia, porque ele dá alguns passos sobre essa folha agitada pelo vento, ter o direito de falar sobre a imensa árvore a que ela pertence, sobre a floresta da qual essa árvore faz parte, e discutir sagazmente sobre a natureza dos vegetais que nessa floresta se desenvolvem, sobre os seres que nela habitam, sobre o sol longínquo cujos raios dão a ela movimento e vida? – Na verdade, o homem é estranhamente presunçoso de querer mensurar a grandeza infinita com a medida de sua infinita pequenez.

Por conseguinte, esta verdade deve estar bem impressa em sua mente: que se os labores áridos dos séculos passados lhe deram o primeiro conhecimento das coisas, se o progresso da mente colocou-o no vestíbulo do saber, ele ainda não fez senão soletrar a primeira página do Livro e, como uma criança suscetível de se enganar a cada palavra, longe de pretender interpretar doutamente a obra, ele deve se contentar em estudá-la humildemente, página por página, linha por linha. Felizes, entretanto, são os que podem fazê-lo.

Galileu 

Esses pensamentos eram-me habituais: são os de um estudante de dezenove, vinte anos, que adquiriu o hábito de pensar. Não duvido que eles emanassem totalmente do meu intelecto, e que o ilustre astrônomo florentino nada tivesse a ver com isso.

Foi, aliás, uma colaboração da mais completa inverossimilhança.

O mesmo aconteceu em todas as comunicações de ordem astronômica. Elas não fizeram a ciência avançar nenhum passo.

Nenhum ponto da história, obscuro, misterioso ou inverídico foi tampouco esclarecido pelos espíritos.

Nunca escrevemos senão aquilo que sabemos, e nem o acaso deu-nos alguma coisa. Todavia, algumas transmissões inexplicáveis deverão ser discutidas. Mas elas continuam na esfera humana.

Para responder imediatamente às objeções que certos espíritas me endereçaram contra essa conclusão de minhas observações, eu citarei, como exemplo, o caso dos satélites de Urano, porque ele é o principal caso apresentado perpetuamente como prova de uma intervenção científica dos espíritos.

Há muitos anos, aliás, recebi, de diversos locais, o convite insistente para examinar um artigo do general Drayson,[18] publicado, em 1884, no jornal Light, intitulado The solution of scientific problems by Spirits (Solução de Problemas Científicos pelos Espíritos), no qual é afirmado que os espíritos fizeram com que se conhecesse o verdadeiro movimento orbital dos satélites de Urano. Compromissos urgentes sempre me impediram de fazer esse exame, mas tendo esse caso sido apresentado recentemente como decisivo para várias obras espíritas, insistiram com tanta persistência, que acredito ser útil fazer essa análise aqui.

Para minha grande decepção, há no artigo um erro, e os espíritos não nos falaram nada. Eis este exemplo, apresentado erroneamente como demonstrativo. O escritor russo Alexander Aksakof o expõe nos seguintes termos (Animisme et Spiritisme (Animismo e Espiritismo), p. 341):

O fato que iremos relatar parece resolver todas as objeções: ele foi comunicado pelo major-general A.W Drayson, e publicado sob o título: The Solution of scientific problems by Spirits. Segue sua tradução:

Tendo recebido do senhor Georges Stock uma carta em que me perguntava se eu podia citar ao menos um exemplo de que um espírito tivesse resolvido, durante uma sessão, um desses problemas científicos que embaraçaram os cientistas, tenho a honra de comunicar-lhe o fato seguinte, do qual fui testemunha ocular. Em 1781, William Herschel descobriu o planeta Urano e seus satélites. Observou que esses satélites, ao contrário de todos os outros satélites do sistema solar, percorrem suas órbitas do oriente ao ocidente, Sir John F. Herschel diz em seus Outlines of Astronomy (Elementos de Astronomia): As órbitas desses satélites apresentam particularidades completamente inesperadas e excepcionais, contrárias às leis gerais que regem os corpos do sistema solar. Os planos de suas órbitas são quase perpendiculares à eclíptica, fazendo um ângulo de 70° 58’[19] e eles os percorrem com movimento retrógrado, isto é, sua revolução ao redor do centro do seu planeta efetua-se do leste para o oeste, ao invés de seguir o sentindo inverso. Quando Laplace emitiu a teoria de que o Sol e todos os planetas se formaram à custa de uma matéria nebulosa, esses satélites eram um enigma para ele. O Almirante Smyth menciona em seu Celestial Cycle (Ciclo Celeste) que o movimento desses satélites, para estupefação de todos os astrônomos, é retrógrado, ao contrário do movimento de todos os outros corpos observados até então.

Todas as obras sobre a Astronomia, publicadas antes de 1860, contêm o mesmo raciocínio a respeito dos satélites de Urano.

Por meu lado, não encontrei explicação alguma para essa particularidade; tanto para mim, quanto para os escritores que citei, isso era um mistério. Em 1858, eu tinha como hóspede, em minha casa, uma senhora que era médium, e organizamos sessões quotidianas.

Certa noite, ela me disse que via a meu lado um espírito que pretendia ter sido astrônomo durante sua vida terrestre. Perguntei a esse personagem se era mais sábio, agora, do que durante sua vida terrestre.

– Muito mais, respondeu-me ele.

Tive a lembrança de apresentar a esse pretenso espírito uma pergunta a fim de experimentar seus conhecimentos:

– Pode dizer-me, perguntei-lhe, por que os satélites de Urano fazem sua revolução de leste para oeste e não de oeste para leste?

Recebi imediatamente a seguinte resposta:

– Os satélites de Urano não percorrem sua órbita do oriente para o ocidente; eles giram ao redor de seu planeta, do ocidente para o oriente, no mesmo sentido em que a Lua gira ao redor da Terra. O erro provém do fato que o polo sul de Urano estava voltado para a Terra no momento da descoberta desse planeta; do mesmo modo que o Sol, visto do hemisfério austral, parece fazer o seu percurso quotidiano da direita para a esquerda e não da esquerda para a direita, os satélites de Urano moviam-se da esquerda para a direita, o que não quer dizer que eles percorriam sua órbita do oriente para o ocidente. Em resposta a outra pergunta que apresentei, meu interlocutor acrescentou:

– Enquanto o polo sul de Urano permaneceu voltado para a Terra, para um observador terrestre parecia que os satélites se deslocavam da esquerda para a direita, e concluiu-se daí, erradamente, que eles se dirigiam do oriente para o ocidente e esse estado de coisas durou cerca de quarenta e dois anos. Quando o polo norte de Urano está voltado para a Terra, seus satélites percorrem sua trajetória da direita para a esquerda, e sempre do ocidente para o oriente.

A respeito dessa resposta, perguntei como acontecera de não se ter reconhecido o erro quarenta e dois anos depois da descoberta do planeta Urano por William Herschel. Ele me respondeu:

– É porque os homens não fazem mais do que repetir o que disseram as autoridades que os precederam. Deslumbrados pelos resultados obtidos por seus predecessores, eles não se dão ao trabalho de refletir sobre o assunto. 

É essa a “revelação” de um espírito sobre o sistema de Urano, publicada por Drayson e apresentada por Aksakof e outros autores como uma prova irrefragável da intervenção de um espírito na solução desse problema.

Eis o resultado da discussão imparcial sobre esse assunto, por sinal muito interessante.

O raciocínio do “espírito” é falso. O sistema de Urano é quase perpendicular ao plano da órbita. É o oposto do sistema dos satélites de Júpiter, que giram quase no plano da órbita. A inclinação do plano dos satélites sobre a eclíptica é de 98º, e o planeta gravita quase no plano da eclíptica. Essa é uma consideração fundamental na imagem que devemos fazer do aspecto desse sistema, visto da Terra.

Adotemos, entretanto, para o sentido do movimento de revolução desses satélites ao redor do seu planeta, a projeção sobre o plano da eclíptica, como, aliás, estamos habituados a fazer. O autor pretende que “quando o polo norte de Urano está voltado para a Terra, seus satélites percorrem sua trajetória da direita para a esquerda, ou seja, do ocidente para o oriente”. O espírito declara que os astrônomos estão errados e que os satélites de Urano giram ao redor do seu planeta do oeste para o leste, no mesmo sentido que a Lua gira ao redor da Terra.

Para percebemos exatamente a posição e o sentido dos movimentos desse sistema, construímos uma figura geométrica especial, clara e precisa.

Representamos sobre um plano a aparência da órbita de Urano e de seus satélites vistos do hemisfério norte da esfera celeste (figura A).

A parte da órbita dos satélites acima do plano da órbita de Urano foi desenhada em traço contínuo e hachuras e a parte abaixo, somente em traço pontilhado.

Vemos, pela direção das setas, que o movimento de revolução dos satélites, projetado sobre o plano da órbita, é bem retrógrado. Qualquer afirmação dogmática contrária é absolutamente errônea.

Esses satélites giram no sentido do movimento dos ponteiros de um relógio, da esquerda para a direita, considerando-se a parte superior dos círculos.

 

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O erro do médium provém do fato de que ele pretendeu que o polo sul de Urano teria estado voltado para nós na época da descoberta. Ora, em 1781, o sistema de Urano ocupava, relativamente a nós, quase a mesma posição que em 1862, já que sua revolução é de 84 anos. Vemos na figura que o planeta, naquela época, apresentava-nos seu polo mais elevado acima da eclíptica, ou seja, seu polo norte.

O general Drayson deixou-se induzir em erro ao adotar, sem controlá-las, essas premissas paradoxais. Efetivamente, se Urano nos tivesse apresentado seu polo sul em 1781, o movimento dos satélites seria direto. Mas as observações do ângulo de posição das órbitas quando de suas passagens para os nós mostram-nos, com muita evidência, que era realmente o polo norte que estava naquele momento voltado para o Sol e para a Terra, o que toma o movimento direto impossível e o movimento retrógrado indubitável.

Para maior clareza, acrescentei na figura A, exteriormente à orbita, o aspecto do sistema de Urano visto da Terra, nas quatro principais épocas da revolução daquele planeta longínquo. Vemos que o sentido aparente do movimento era análogo ao dos ponteiros de um relógio, em 1781 e 1862, e inverso em 1818 e 1902. Naquelas épocas, as órbitas aparentes dos satélites eram quase circulares, ao passo que em 1798, 1840 e 1882, elas se reduzem a linhas retas quando das passagens para os nós.

A figura B completa esses dados, apresentando o aspecto das órbitas e o sentido do movimento para todas as posições do planeta e até nossa época.

 

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Fiz questão de elucidar completamente esse assunto um pouco técnico. Para meu grande pesar, os espíritos nada nos ensinaram, e esse exemplo, ao qual se dá tanta importância, reduz-se a um erro.[20]

Aksakof cita, nesse mesmo capítulo (p. 343), o anúncio da descoberta de dois satélites de Marte, também feito a Drayson por um médium, em 1859, ou seja, dezoito anos antes de sua descoberta, em 1877. Essa descoberta, que não foi publicada na época, permanece duvidosa. Além disso, após Kepler ter apontado a probabilidade de sua existência, o assunto dos dois satélites de Marte foi muitas vezes discutido, particularmente, por Swift e por Voltaire (vide meu livro Astronomie Populaire (Astronomia Popular), p. 501). Portanto, não é um fato decisivo para ser citado como uma descoberta devida aos espíritos.

Eis os fatos de observação das experiências mediúnicas. Não faço com eles uma generalização estranha à sua esfera de ação. Eles não provam que em determinadas circunstâncias, pensadores, poetas, sonhadores e pesquisadores não possam ser inspirados por influências externas aos seus cérebros, por seres amados, por amigos desaparecidos. Mas isso é outra questão, assunto diferente das experiências com as quais nos ocupamos neste livro.

O mesmo autor, aliás, geralmente muito judicioso, cita vários exemplos de línguas estrangeiras faladas pelos médiuns. Não pude verificá-los – e me pediram que aqui eu só citasse as coisas das quais tenho certeza.

De acordo com minhas observações pessoais, essas experiências constantemente nos colocam diante de nós mesmos, de nossas próprias mentes.

Eu poderia citar mil exemplos.

Certo dia, recebi um “aerólito” descoberto em um bosque, nas proximidades de Etrepagny (Eure). A senhora J. L., que teve a delicadeza de enviá-lo, acrescenta que ela perguntou a sua proveniência a um espírito e que ele respondeu-lhe que ele provinha de uma estrela chamada Golda. Ora, em primeiro lugar não existe estrela com esse nome e, em segundo, não era um aerólito, mas um pedaço de escória proveniente de uma antiga fundição. (Carta 662 de minha pesquisa de 1899, cujas primeiras cartas, relativas à telepatia, foram publicadas no meu trabalho L’lnconnu (O Desconhecido).

De Montpellier, uma leitora escreveu-me:

Suas conclusões talvez diminuam a certos olhos o prestígio do espiritismo. Mas como o prestígio pode levar à superstição, é bom se esclarecer sobre o assunto. Quanto a mim, o que o senhor observou está de acordo com o que eu própria pude observar. Eis o procedimento que empreguei, ajudada por uma amiga.

Eu pegava um livro e, abrindo-o, eu guardava o número da página à direita. Suponhamos: cento e trinta e dois. Eu dizia à mesa colocada em movimento pela pequena manobra habitual: “Um espírito quer se comunicar?”.

Resposta: – Sim.

Pergunta: – Você pode ver o livro que acabo de olhar?

Resposta: – Sim.

– Há quantos algarismos na página que olhei?

– Três.

– Indique o número da centena.

– Um.

– Indique o valor da dezena.

– Três.

– Indique o valor da unidade.

– Dois.

Essas indicações davam exatamente o número cento e trinta e dois. Era admirável.

Mas, pegando o livro fechado e sem abri-lo, deslizando entre suas páginas uma espátula para papel, eu retomava o diálogo… e o resultado com este último procedimento sempre foi inexato.

Repeti, com freqüência, essa pequena experiência (curiosa, apesar de tudo) e todas as vezes, tive respostas exatas quando eu as sabia, e inexatas, quando eu as ignorava. (Carta 657 de minha pesquisa). 

Esses exemplos poderiam ser multiplicados ad infinitum.

Tudo nos leva a pensar que somos nós que agimos. Mas não é assim tão simples como poderíamos acreditar e existe outra coisa agindo ao mesmo tempo em que nós. Certas transmissões inexplicáveis se produzem.

Em sua notável obra, De l’Intelligence (Da Inteligência), Taine[21] explica as comunicações mediúnicas como sendo uma espécie de desdobramento inconsciente da nossa mente, como eu dizia mais acima. Ele escreveu:[22] 

Quanto mais bizarro é um fato, mais ele é instrutivo. A esse respeito, as próprias manifestações espíritas colocam-nos no caminho de descobertas, mostrando-nos a coexistência, no mesmo momento, no mesmo indivíduo, de dois pensamentos, de duas vontades, de duas ações distintas: uma, da qual ele tem consciência, outra da qual não tem consciência e que ele atribui a seres invisíveis. O cérebro humano é, então, um teatro onde se representam, simultaneamente, várias peças diferentes, em diversos planos, dos quais um só é visível. Nada mais digno de estudo do que essa pluralidade essencial do eu. Vi uma pessoa que, enquanto conversa ou canta, escreve, sem olhar o papel, frases consecutivas e até mesmo páginas inteiras, sem ter consciência do que escreve. Aos meus olhos, sua sinceridade é perfeita: ora, ela declara que ao fim da página, não tem a mínima idéia do que traçou sobre o papel; quando o lê, ela fica surpresa, às vezes alarmada. A caligrafia é diferente de sua caligrafia habitual. O movimento dos dedos e do lápis é rígido e parece automático. O texto sempre termina com uma assinatura, a de uma pessoa morta, e traz a marca de pensamentos íntimos, de um plano de fundo mental que o autor não gostaria de divulgar. – Certamente, constatamos aqui um desdobramento do eu, a presença simultânea de duas séries de idéias paralelas e independentes, de dois centros de ação ou, se assim o desejarmos, de duas pessoas jurídicas justapostas no mesmo cérebro, cada qual com sua obra, e cada qual com uma obra diferente, uma no palco e a outra nos bastidores; a segunda tão completa quanto a primeira, já que sozinha e fora dos olhares da outra, ela constrói idéias consecutivas e alinha frases nas quais a outra não toma parte. 

Essa hipótese é admissível, tendo em vista as numerosas observações sobre dupla consciência.[23] Ela é aplicável a um grande número de casos, mas não o é para todos. Ela explica a escrita automática. Mas é ainda preciso ampliá-la consideravelmente para levá-la a explicar as pancadas (pois quem as produz?) e ela não explica absolutamente as elevações da mesa, nem os deslocamentos de objetos dos quais falamos no primeiro capítulo, e nem vejo muito bem como ela poderia explicar as frases ditadas em ordem inversa ou em combinações bizarras citadas mais acima.

Essa hipótese é admitida e desenvolvida, de um modo muito mais absoluto, pelo doutor Pierre Janet em sua obra L’Automatisme psychologique (O Automatismo Psicológico). Esse autor é daqueles que criaram um círculo estreito de observações e de estudos e que, não apenas não saem dele, como também imaginam poder fazer entrar nesse círculo o Universo inteiro. Lendo esse tipo de raciocínio, pensamos involuntariamente naquela antiga querela dos olhos redondos que viam tudo redondo e dos olhos quadrados que viam tudo quadrado, como também na história dos Big-endians e Little-endians,[24] no livro As viagens de Gulliver. Uma hipótese é digna de atenção quando ela explica alguma coisa. Seu valor não aumenta se desejarmos generalizá-la e fazê-la tudo explicar: isso já é ultrapassar os limites.

Que os atos subconscientes de uma personalidade anormal implantados momentaneamente em nossa personalidade normal expliquem a maioria das comunicações mediúnicas pela escrita, nós podemos admitir. Podemos ver nisso, também, efeitos evidentes de auto-sugestão. Mas essas hipóteses psicofisiológicas não satisfazem a todas as observações. Existe algo mais.

Todos nós temos uma tendência a querer tudo explicar pelo estado atual dos nossos conhecimentos. Diante de certos fatos, hoje nós dizemos: isso é sugestão, isso é hipnotismo, é isso, é aquilo. Não teríamos falado assim há meio século, pois essas teorias não tinham sido inventadas. Não falaremos da mesma maneira daqui a meio século, a um século, pois teremos inventado outras palavras. Mas não nos contentemos apenas com palavras; não sejamos tão apressados.

Seria preciso que soubéssemos explicar de que modo nossos pensamentos, conscientes, inconscientes ou subconscientes, podem produzir pancadas em uma mesa, movê-la, levantá-la. Como essa questão é bastante embaraçosa, o senhor Pierre Janet[25] trata-a como “personalidade secundária” e é obrigado a invocar o movimento dos artelhos, o músculo estalante do tendão fibular, a ventriloquia e a trapaça de comparsas inconscientes.[26] Não é uma explicação satisfatória.

Com certeza, nós não compreendemos como nosso pensamento, ou qualquer outro, pode formar frases por meio de pancadas. Mas não somos obrigados a admiti-lo. Chamemos isso, se assim o desejarmos, de telecinesia: estaremos, por isso, mais avançados?

Há alguns anos, vêm-se falando de fatos inconscientes, da subconsciência, da consciência subliminar etc. etc. Temo que, também nesse caso, estejamos nos contentando com palavras que não explicam muita coisa.

Tenho a intenção de consagrar, algum dia, se eu tiver tempo, um livro especial ao espiritismo, estudado sob o ponto de vista teórico e doutrinai, que formaria o segundo volume de minha obra O desconhecido e os problemas psíquicos, e que está em preparação desde a redação desse livro (1899). As comunicações mediúnicas, os ditados recebidos notadamente porVictor Hugo, pela senhora de Girardin, por Eugène Nus,[27] pelos falansterianos,[28] serão nele tratados em capítulos especiais, bem como o problema, também bastante importante, da pluralidade das existências.

Não me cabe aqui estender-me sobre esses aspectos da questão geral. O que pretendo estabelecer neste livro é que existem em nós e ao nosso redor, forças desconhecidas capazes de colocar a matéria em movimento, como o faz nossa vontade. Devo, portanto, limitar-me aos fenômenos físicos. O quadro já é imenso, e as “comunicações” das quais acabamos de falar estão fora desse quadro.

Mas como esse assunto está em perpétuo contato com as experimentações psíquicas, era necessário resumi-lo aqui.

Voltemos, agora, aos fenômenos produzidos pelos médiuns de efeitos físicos, assim como àquilo que eu mesmo constatei com Eusapia Paladino, que os reúne quase todos.



[1] N. da T. – Escritor dramático francês.

[2] N. da T. – Um dos mais famosos ceramistas franceses, foi também artesão, decorador, engenheiro, agrônomo, naturalista, geólogo, químico e escritor.

[3] Nota do editor: O único método que prevaleceu foi o da escrita manual (psicografla), por ter se mostrado o mais eficiente e produtivo.

[4] Nota do editor: Apesar do firme propósito em reeditar as obras históricas do espiritismo emergente, não endossamos algumas opiniões de renomados autores, como a afirmativa de Camille Flamarion a respeito da autoria e autenticidade das mensagens mediúnicas. Estamos embasados nos estudos de Kardec detalhados em O Livro dos Médiuns.

[5] Discurso pronunciado junto ao túmulo de Allan Kardec, por CAMILLE FLAMMARION. Librairie Didier, 1869, pp. 4, 17 e 22.

[6] Delphine Gray – escritora francesa.

[7] N. da T. – Alexandre Balthazar Laurent Grimod de la Reynière – advogado francês, nunca se dedicou à profissão, e tornou-se célebre por seus faustos gastronômicos e seu humor negro. É considerado o pai da crítica gastronômica. Publicou vários almanaques sobre gastronomia.

[8] N. da T. – Termo que designa a ponta do capuz, usada também para enrolar o capuz em forma de turbante.

[9] N. da T. – Trata-se, no caso, do vinho.

[10] N. da T. – Anagrama do nome François Rabelais, encontrado, também com a grafia: Alcofribas Nasier, como também o pseudônimo com o qual assinou sua obra Pantagruel.

[11] Um ditado tiptológico do mesmo gênero foi-me enviado recentemente. Ei-lo:

JUTPTUOLOER

EIRFIEUEBN

SSOAGPRSTI 

Lendo sucessivamente, de cima para baixo, uma letra de cada linha, começando pela esquerda, encontramos o sentido da comunicação enviada: “Eu estou muito cansado para obtê-los”.

 

[12] N. da T. – Françoise d’Aubigné, Madame de Maintenon.

[13] N. da T. – Arsène Arnaud Claretie, historiador, escritor e dramaturgo francês.

[14] N. da T. – General e político grego do século IV a.C.

[15] N. da T. – Michel Eugène Chevreul, químico francês.

[16] N. da T. – Conde Agenor de Gasparin – escritor, advogado, político e teólogo protestante.

[17] N. da T. – Aqui, parece-me que talvez V. Sardou tenha trocado o nome de Jonathan Swift , autor do livro As viagens de Gulliver, pelo do personagem, no caso Gulliver.

[18] N. da T. – General Alfred Wilkes Drayson, astrônomo convertido ao espiritismo.

[19] Essa inclinação é realmente de 82°, contando pelo sul, ou de 98° (90 + 8º) contando pelo norte (vide a figura A).

[20] Acabo de encontrar em minha biblioteca um livro que me foi enviado, em 1888, pelo autor, o Major-General Drayson, intitulado: Thirty thousand years of the Earth’s past history, read by aid of the discovery of the second rotation of the Earth. Ou seja, para os leitores que não conhecem a língua inglesa: Trinta mil anos da história passada da Terra, lidos com a ajuda da descoberta da segunda rotação da Terra. Essa segunda rotação efetuar-se-ia ao redor de um eixo, cujo polo estaria a 29° 25’ 47’’ do polo da rotação diurna, cerca de 270° de ascensão reta, e realizar-se-ia em 32.682 anos. O autor tenta explicar por meio dessa rotação os períodos glaciais e as variações climáticas. Mas a obra está repleta de confusões bizarras e até imperdoáveis para um homem versado em estudos astronômicos. O general Drayson, morto há alguns anos, não era astrônomo.

[21] N. da T. – Hippolyte Taine, crítico, filósofo e historiador francês.

[22] De l’lntelligence, tomo I, prefácio, p. 16, edição de 1897. A primeira edição data de 1868.

[23] Todos aqueles que se ocupam dessas questões conhecem, entre outras, a história de Félida (estudada pelo doutor Étienne Eugène Azam, médico e cirurgião francês) na qual essa jovem mostrou-se dotada de duas personalidades distintas a tal ponto que, no estado segundo (expressão criada por Azam para designar a personalidade secundária observada nos estados histéricos), ela apaixonou-se e… engravidou, sem que tivesse conhecimento disso em seu estado normal. Esses estados de dupla personalidade foram metodicamente observados há cerca de trinta anos.

[24] N. da T. – Em Viagens de Gulliver, os Big-endians eram os partidários do modo de cortar o ovo pela extremidade mais grossa e os Little-endians, do modo de cortar o ovo pela extremidade mais fina.

[25] N. da T. – Neurologista e psicólogo francês.

[26] L’Automatisme psychologique, p. 401-402.

[27] N. da T. – Literato francês, autor de Choses de l’autre monde (Coisas do Outro Mundo).

[28] N. da T – Adepto da doutrina do filósofo francês Charles Fourier ou habitante do falanstério, comunidade de trabalhadores, no sistema social criado por ele.

32 respostas a “Minhas primeiras experiências no grupo de Allan Kardec e com médiuns daquela época (Por Camille Flammarion, 1907)”

  1. Marciano Diz:

    Vitor,
    Ainda não li tudo, é muito extenso, mas fico pensando de que sriam feitos esses animais jupiterianos.
    Viveriam na superfície (atmosférica) do planeta gasoso ou no núcleo sob inimaginável pressão e envolvido por hidrogênio metálico (resultado da enorme pressão).
    Bem, naquela época, mesmo para Flammarion, era comum a ideia de que Júpiter fosse semelhante à Terra.
    Se ele soubesse do que qualquer criança sabe hoje em dia sobre Júpiter sustentaria esse delírio de animais em Júpiter?
    Qual foi a coincidência que deu origem a formas de vida tão semelhantes às nossas, com outro caminho percorrido pela seleção natural?
    A tendência aqui é a vida se diversificar, em outros mundos será copiar a vida daqui?
    Bem, naquele tempo não se sabia nada sobre genética ou seleção natural, isto estava nascendo também.
    Foi a isso que me referi quando mencionei a palavra “zeitgeist” para Scur, ele pensou que fosse alguém, você explicou a ele.
    Os espíritos superiores estavam mergulhados no espírito de época de seus irmão inferiores encarnados.
    Prefiro acreditar que foi tudo embuste.
    Quiseram inventar uma nova religião, como vive acontecendo.

  2. Toffo Diz:

    Vitor,

    Você que é um especulador nato, me responda uma coisa: na época de Flammarion, já se sabia que Urano era “derrubado”, isto é, que a sua inclinação era de quase 90 graus, ao contrário de todos os outros planetas do Sistema Solar?

  3. Marciano Diz:

    Vou deixar pro Vitor, mas acho que só com uma das Voyagers é que se descobriu.
    Com certeza, no tempo dele não se sabia. Não sei se desconfiavam.

  4. Marciano Diz:

    Retratando-me:
    “In 1797 Herschel says:

    “The flattening of the poles of the planet seems to be sufficiently ascertained by many observations. The 7-feet, the 10-feet, and the 20-feet instruments, equally confirm it; and the direction pointed out Feb. 26, 1879 seems to be conformable to the analogies that may be drawn- from the situation of the equator of Saturn, and of Jupiter. This being admitted, we may without hesitation conclude, that the Georgian planet also has a rotation upon its axis, of a considerable degree of velocity.”

  5. Vitor Diz:

    A referência acima é:
    .
    On the Discovery of Four Additional Satellites of the Georgium Sidus. The Retrograde Motionof Its Old Satellites Announced; And the Cause of Their Disappearance at Certain Distances from the Planet Explained. By William Herschel, LL.D. F. R. S.
    .
    Author(s): William Herschel
    .
    Source: Philosophical Transactions of the Royal Society of London, Vol. 88 (1798), pp. 47-79
    .
    Published by: The Royal SocietyStable
    .
    URL: http://www.jstor.org/stable/106969 .

  6. Marciano Diz:

    Será que a inclinação do eixo de rotação é maior do que 90 graus e a rotação é direta ou menor que 90 graus e rotação retrógrada, como no caso de Vênus?

  7. Toffo Diz:

    mas pelo que eu entendi Herschel não fala da inclinação do eixo de Urano. Só diz que ele gira em torno de si mesmo.

    No caso de Vênus, sabe-se que ele gira tão lentamente que o dia venusiano é maior que o ano. E gira de ocidente para oriente, ao contrário da Terra.

  8. Marciano Diz:

    Se ele tinha conhecimento da localização dos polos, acho que dava para deduzir o eixo de rotação.

  9. Sandro Diz:

    Gostei muito deste post! Realmente, Flammarion era um pesquisador sério, que apresentou dúvidas quanto a origem e os mecanismos dos fenômenos espirítas. Eu realmente procuro pesquisar mais sobre assunto, e gostei da seguinte colocação:

    “Há, em ultimo lugar, os observadores (mas é raro) como eu que, incrédulos por natureza, tiveram que reconhecer, ao longo do tempo, que há em tudo isso fatos rebeldes a qualquer explicação científica atual, sem renunciarem, por isso, a vê-los explicados um dia (…)deplorando que essa verdade pereça, sufocada entre estes dois excessos: o da credulidade ignorante que crê em tudo e o da incredulidade científica que não crê em nada.”

  10. Marden Diz:

    Toffo, Antônio G. e Marciano,
    .
    Dei as devidas respostas, a cada um de vocês, no post anterior.
    .
    Sandro,
    .
    Ainda não li o texto, mas pela frase que você colocou, percebo que irei gostar, por pensar de acordo com o que ai foi destacado por você. Assim se faz ciência! Assim se estuda o Espiritismo!

  11. NVF Diz:

    ?”Na ordem dos estudos reunidos sob a denominação genérica de “espiritismo”, os fatos existem. Mas ninguém conhece o seu modo de produção.”
    .
    .
    “Há, em ultimo lugar, os observadores (mas é raro) como eu que, incrédulos por natureza, tiveram que reconhecer, ao longo do tempo, que há em tudo isso fatos rebeldes a qualquer explicação científica atual, sem renunciarem, por isso, a vê-los explicados um dia, e que, desde então, aplicaram-se a discernir os fatos, a submetê-los a alguma classificação, que mais tarde se converterá em lei.
    .
    Estes se mantêm afastados, como eu o faço, de toda camarilha, de todo os cenáculos, de todos os profetas e, satisfeitos com a convicção adquirida, limitam-se a ver no espiritismo a aurora de uma verdade, ainda muito obscura, que algum dia encontrará seu Ampère, como as correntes magnéticas,
    .
    deplorando que essa verdade pereça, sufocada entre estes dois excessos: o da credulidade ignorante que crê em tudo e o da incredulidade científica que não crê em nada.”
    .
    .
    “…sufocada entre estes dois excessos: o da credulidade ignorante que crê em tudo e o da incredulidade científica que não crê em nada.”
    .
    É de se refletir…

  12. NVF Diz:

    Nunca tinha lido Flammarion. Na verdade só ouço os espíritas, tanto os chiquistas, como os ortodoxos (tipo Sérgio Aleixo), acusarem-no de traídor.
    .
    Agora entendi porquê. O cara é muito bom e fala com isenção e ponderação!
    .
    Ótima postagem essa.

  13. NVF Diz:

    “Tudo nos leva a pensar que somos nós que agimos. Mas não é assim tão simples como poderíamos acreditar e existe outra coisa agindo ao mesmo tempo em que nós. Certas transmissões inexplicáveis se produzem.”
    .
    .
    “Todos nós temos uma tendência a querer tudo explicar pelo estado atual dos nossos conhecimentos. Diante de certos fatos, hoje nós dizemos: isso é sugestão, isso é hipnotismo, é isso, é aquilo. Não teríamos falado assim há meio século, pois essas teorias não tinham sido inventadas.
    .
    Não falaremos da mesma maneira daqui a meio século, a um século, pois teremos inventado outras palavras. Mas não nos contentemos apenas com palavras; não sejamos tão apressados.”

  14. NVF Diz:

    Vitor,
    .
    “apresenta diversas provas que os médiuns de Kardec não estavam incorporados por espírito algum, sendo todo ou quase todo o material produzido por meio deles oriundo de suas próprias mentes, sem a influência de qualquer causa externa, alguns vítimas de autossugestão.”
    .
    Posso estar enganado, mas acho que você exagerou nesses dizeres que destaquei. Pela minha interpretação, Flammarion parece ter pendido a concluir negativamente em relação aos médiuns de Kardec, mas admitia a concomitância de forças desconhecidas, espíritas ou não, mas desconhecidas.
    .
    Ele condenou mais o método da psicografia direta, a única utilizada pelos médiuns de Kardec, mas ainda assim ele tomou cuidado para não generalizar, restringindo a análise apenas à sua própria experiência específica. Veja:
    .
    .
    “Eis o estado do médium escrevente, pelo menos o que observei comigo mesmo. É uma espécie de autossugestão. Apresso-me em acrescentar, entretanto, que essa opinião só diz respeito, aqui, à minha experiência pessoal. Segundo asseguram, há médiuns absolutamente mecânicos, que não sabem o que estão escrevendo (vide mais adiante, p. 70), que tratam de assuntos por eles ignorados e que até escreveriam em línguas estrangeiras. Teríamos, nesse caso, uma condição diferente daquela que acabo de falar e que indicaria seja um estado cerebral especial, seja uma grande habilidade, seja uma causa externa, se fosse demonstrado que nossa mente não pode adivinhar o que ela ignora.”
    .
    .
    Veja que ele não concluiu sobre os médiuns de Kardec terem sido totalmente inidôneos. Na verdade, ele não deu crédito à psicografia direta tanto quanto deu à tiptografia. Ele preferia as batidas, pois poderiam ser melhor analisadas. Mas perceba que a postura dele é sempre ponderada, tomando cuidado para não concluir apressadamente. E de fato não concluiu, trabalhou com hipóteses apenas e com sua posição pessoal, sempre comedida.
    .
    Sugiro que todos leiam o texto. Vale muito a pena.

  15. Toffo Diz:

    Flammarion foi criticado por Herculano Pires por ter dito, no seu discurso fúnebre no funeral de Kardec, que o mestre havia deixado “uma obra um tanto pessoal”. HP não admitia a hipótese de que Kardec tenha trabalhado sozinho; repetia o chavão de que ele tinha sido “o codificador”, isto é, organizado em corpo de doutrina, mas o mérito era dos espíritos. Deu a entender que, se não fosse Kardec, seria outro o “codificador”, mas a “obra” seria feita do mesmo jeito. Fico admirado como HP, que é um cara culto e estudado, tenha sido tão míope no que toca ao espiritismo. Meu deus, basta ler as obras da “codificação” para ver que ela não é um tanto pessoal: é COMPLETAMENTE pessoal. Kardec não codificou o espiritismo: ele o inventou. Trabalhou sozinho, e fez a doutrina do jeito que quis. Tanto é que aí é que reside aquilo que eu chamo de “raiz autoritária” do espiritismo. Tanto é que botou na doutrina a ideia de reencarnação, que é um dos postulados da doutrina de Charles Fourier, ao arrepio de todo o movimento espírita mundial, e ainda forçou a barra dizendo que a reencarnação estava na Bíblia, sob a forma de ressurreição. Flammarion foi um pensador independente, e acho que ele fez muito bem em renegar os seus tempos de “médium” com Kardec, pois ele viu que a realidade estava lá, palpável, na frente dele.

  16. Marden Diz:

    Vitor,
    .
    Gostei muito deste capítulo e procurarei ler outras obras de Camille Flamarion. Fiz algumas pesquisas sobre outros livros dele e acabei encontrando um site onde tem uma relação de 1100 livros espíritas, contendo várias outras obras de Flamarion e outros autores que desconheço.
    .
    Vou deixar o link para você dar uma olhada. Nunca baixei nada por esse site e nem sei se funciona mesmo ou se é seguro. Mas de todas as formas, só o fato de ter um lista de livros espiritas indexados alfabeticamente, já é uma “mão na roda”, acredito. Segue o link: http://goo.gl/6AKLU

  17. Marden Diz:

    NVF,
    .
    Bem vindo de volta.
    .
    Assim como você, nunca tinha lido nada sobre Flamarion. Vejo que ele pareceu ser uma pessoa sincera e que levou os estudos a sério, no que pude perceber lendo este capítulo. Iria fazer alguns destaques no texto, mas você acabou me adiantando.
    .
    Portanto estarei juntando algumas peças soltas do meu quebra-cabeça, para depois apresentá-las aqui. Mas posso-lhe adiantar algo que suspeito. Penso que Flamarion se dedicou mais aos fenômenos físicos do Espiritismo, sem precisar recorrer a subterfúgios. Já cheguei a ler de que ele havia sido secretário de Kardec e que depois “negou” a existência do espírito, ou que não sabia o que seria o espírito (mas isso carece de mais detalhes que quero investigar).
    .
    Mas uma coisa é certa, o enfoque que Kardec e Luiz de Mattos deram, foi ao Espírito. Pouca coisa foi falado sobre o Perispírito. Pode ser que Flamarion tenha dado um maior enfoque nessa questão. E se for este o caso, muito teremos que aprender (mas antes deveremos raciocinar com acerto sobre o que ele deixou escrito) e aqueles que o consideram como um traidor, talvez tenham que rever seus conceitos e quem sabe assim não passarão a chamá-lo de um aliado?

  18. NVF Diz:

    Marden,
    .
    Pelo que interpretei, Flammarion preferia não tirar conclusões apressadas, devido à falta de elementos suficientes. Ele admitia haver uma força desconhecida por trás de alguns fenômenos, mas não descartava a hipótese dessa força ter mera relação com a mente humana, apesar de não saber explicar (admitia possibilidade de fenômenos psíquicos desconhecidos).
    .
    Ele parecia se esforçar em direção à isenção, tomando cuidado para não concluir nada precipitadamente. Aliás, essa deveria ser a postura de todos os pesquisadores.

  19. NVF Diz:

    Toffo,
    .
    Vejo Herculano Pires como um “galinho de briga” irracional e estúpido, de palavras agressivas e desrespeitosas frente a quem questionasse suas convicções.

  20. Marcelo Esteves Diz:

    É curioso como a minha experiência como “médium” se parece com a de Flammarion.
    .
    Também consegui perceber, após algum tempo, que o conteúdo das mensagens que psicografava era oriundo de minha própria mente ou, melhor dizendo, de uma imaginação alimentada pelo reforço do grupo, pelo ambiente, pelas sugestões subliminares e que tais.
    .
    Da mesma forma, nada posso dizer de outros médiuns – alguns de escrita mecânica – quanto ao que ocorria na mente de cada um.
    .
    Mas fato é que em nunca presenciei a psicografia de conteúdos extraordinários, quer seja no sentido de superar a capacidade intelectual dos médiuns, quer se refira a eventos desconhecidos – espaciais ou temporais – do grupo.
    .
    Predominavam as homilias banais.
    .
    Saudações

  21. Toffo Diz:

    pois é, NVF, só depois que a gente sai da “caserna” é que começa a perceber quem são os generais… Pode-se perceber que todos (sim, todos) os comentaristas e doutrinadores espíritas são arrogantes ou autoritários

  22. Gorducho Diz:

    Mas fato é que em nunca presenciei a psicografia de conteúdos extraordinários, quer seja no sentido de superar a capacidade intelectual dos médiuns, quer se refira a eventos desconhecidos – espaciais ou temporais – do grupo.
    Predominavam as homilias banais.

    Admiravelmente bem resumido. Se acrescentarmos as descrições de aves que comem maus pensamentos; do sutil ar alpino de Vênus, e conteúdos assemelhados; temos uma síntese das “mensagens”. Não me lembro de nunca ter lido nada que não se encaixe nesse quadro sinótico. Sobre essa base, pretenderam alguns construir uma Religião, ou, muito pior, uma Filosofia :) )

  23. Contra o chiquismo Diz:

    Olá amigos, não sumi , apenas admiro tantos comentários bem elaborados. Quem já ouviu falar na obra do autor D. D. Home “Luz e Sombras do Espiritualismo” em que ele afirma que Kardec se arrependeu de criar o espiritismo?

  24. Marcelo Esteves Diz:

    Encontrei esta referência e faço um CTRLC + CTRLV
    .
    No “Tratado de Metapsíquica”, Vol. II, p. 109, in fine, encontramos uma suposta mensagem recebida por Home a qual indica provir de Kardec, minutos depois de sua morte.
    .
    Segue o trecho:
    .
    “O célebre Home, que deu os mais belos exemplos conhecidos de ectoplasmia, teve algumas vezes fatos de lucidez. No dia e no mesmo momento, um minuto depois, diz ele, da hora em que morreu Allan Kardec, um dos protagonistas da doutrina espírita, Home recebia a mensagem espirítica seguinte: ‘Lastimo haver ensinado a doutrina espírita, Allan Kardec”. A mensagem foi recebida na presença do conde Duraven”.
    .
    Segundo Charles Richet, esta afirmação de D. D. Home encontra-se na obra deste, chamada “Les Lumières et les Ombres du Spiritualisme”, trd. fr. Paris, 1883, Dentu, na página 114.
    .
    Alguém pode confirmar?
    .
    http://parapsi.blogspot.com.br/2008/01/kardec-arrependeu-se-do-espiritismo.html
    .
    Saudações

  25. Vitor Diz:

    Oi, Marcelo
    o livro “Lights and Shadows of Spiritualism” tem disponível para download:
    .
    http://archive.org/details/lightsshadowsofs00homerich
    .
    Tem essa parte lá sim.

  26. Marcelo Esteves Diz:

    Achei o original, em francês. O link leva direto à página 114 e traz, também, comunicação recebida de Allan Kardec por M. Morin.
    .
    http://archive.org/stream/leslumiresetle00home#page/n135/mode/2up
    .
    Saudações

  27. Marcelo Esteves Diz:

    Caraca, meu francês não é lá estas coisas, mas é pau puro no Kardec.

  28. Marcelo Esteves Diz:

    Tradução livre:
    .
    “Eu classifico a doutrina de Allan Kardec entre as ilusões deste mundo, e tenho boas razões para isso, como veremos. [...] Evidentemente, por cavar muito profundamente o túmulo de Pitágoras, ele acreditava que desenterrara uma luz cuja chama iluminaria o mundo. Esta crença prevaleceu sobre ele e outros. Sua sinceridade foi projetada, qual nuvem magnética, nas mentes sensíveis daqueles que ele chamou seus médiuns. [...] Allan Kardec recebeu sua própria doutrina como mensagens enviadas a partir do mundo dos espíritos.”
    .
    Pags 112 e 113
    .
    Saudações

  29. Contra o chiquismo Diz:

    Ei Vitor, daria um bom tema.No site Clube do Cético já tem um assim. E o cara que tenta defender o ‘espiritismo’ ( o SCUR de lá) é esculachado e não se rende. Seria demais Kardec arrependido.

  30. Hamilton Diz:

    É somente a opinião de flammarion. Não quer dizer que por ele ter negado as comunicações que el deu na Gênesis e outras, que os espíritos não usaram ele como instrumento mediúnico devido seus conhecimentos em astronomia. Tanto ele como outros médiuns. O animismo, realmente, é muito difícil de examinar, e naquela época existia muitos médiuns que eram pressionados e acabam eles próprios mistificando as comunicação.

    Acho muito prematuro generalizar esta palavras de Flammarion como sendo pra todos os médiuns, pois o conjunto dessa obra é muito mais que isso.

    Na obra ele não diz que todos os médiuns são anímicos, ele diz que há comunicações anímicas em alguns médiuns.

  31. Marcelo Esteves Diz:

    Hamilton escreveu: “Não quer dizer que [...] os espíritos não usaram ele como instrumento mediúnico devido seus conhecimentos em astronomia”
    .
    Se usaram, deram-se mal. Primeiro, porque tratam-se de conhecimentos da época; segundo, porque A Gênese está repleta de erros científicos CRASSOS!
    .
    Saudações

  32. Pedro Diz:

    E que fosse toda doutrina revelada por KARDEC toda ela oriunda das mentes férteis dos “médiuns”, como disse o Bezerra de Menezes, “qual outra doutrina traz o consolo ao desesperado, que enxuga as lágrimas das mães que perderam seus filhos?……”

    essa doutrina por si só já se revela um manual de segurança para nossas vidas, impedindo de cometermos erros graves, e melhor ainda, uma ferramenta que nos instrui a seguir ao evangelho do Cristo, amando e respeitando o próximo, perdoando e fazendo o bem ao inves de apenas não fazer o mau.

    pouco importa de onde veio as mensagens divulgadas, pouco importa se Kardec se arrependeu ou não, o que importa é o legado deixado a humanidade, que a enriquece com o verdadeiro tesouro que supre as reais necessidades do ser humano.

    que a luz se faça nas consciencias daqueles que não compreendem, e que a paz do senhor esteja presente em todos os lares e instituições, QUE SEJA O SOL, QUE ABRANGE A TODOS… OS QUE PODEM VER CONTEMPLARÁ A MAGNITUDE DO AMOR DO PAI, aqueles que não compreendem, que as oportunidades possam fazer aos seus olhos chegarem a luz da verdade.

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