Publicado em 1929 pela Sociedade de Investigação Psíquica de Boston, Os Experimentos Leonard e Soule é um livro que atravessa uma galeria de nomes centrais da investigação psíquica do início do século XX. Desfilam por suas páginas médiuns célebres como Osborne Leonard, Annie Brittain, Sra. Soule, Sra. Sanders, Sra. Dowden e Vout Peters; surgem pesquisadores como James H. Hyslop e críticos atentos como Eric Dingwall. Lydia W. Allison reúne páginas e páginas de sessões mediúnicas realizadas em Boston e Londres. Ao lado dela está Walter Franklin Prince, psicólogo, investigador da SPR, conhecedor de hipnose, automatismo psicológico, sugestão, leitura fria e das artes do ilusionismo — num campo onde ele próprio já participara de exposições de fraude mediúnica. Muitas sessões não levam a nada. Outras produzem erros claros. O texto não esconde isso. Mas é justamente nesse terreno irregular que, de repente, algo brilha.
Um dos momentos mais notáveis do livro – longe de ser o único – ocorre numa sessão de 12 de agosto de 1925, em Boston, com a Sra. Soule. Desta vez, o experimentador é o próprio Prince, sentando-se para tentar comunicação com sua esposa falecida. Nada anuncia o que virá. A sessão avança com a monotonia familiar dos encontros mediúnicos, até que, quase de passagem, surgem duas palavras: “Kitty … e Teddy.” O controle então afirma que “Kitty” não é uma pessoa. É um gato. O nome do gato não é dado, mas descrito: o nome é estranho, estrangeiro, muito longo, histórico, vindo de uma língua antiga: a grega. “Teddy”, por sua vez, encontra lugar com clareza: não pertence ao gato, mas ao cão ao qual a esposa de Prince fora particularmente apegada. A distinção é mantida com firmeza. Gato e cão não se confundem.
Somente em sessões posteriores, realizadas em novembro de 1925, após Prince solicitar explicitamente que o nome do gato fosse dado quando possível, o cerco se fecha. O nome finalmente surge, inteiro, incontornável: Mefistófeles — o último gato da casa conjugal, morto havia cerca de trinta anos, ausente da memória consciente havia décadas. Prince, mesmo admitindo investigações normais, considera que nem um detetive particular diligente, nem uma agência profissional, teria meios plausíveis de recuperar, décadas depois, nomes tão específicos, sem circulação pública, sem histórias, sem rastros. São suas as palavras:
Não creio que tenha pensado nele nos últimos vinte anos. Não tivemos o gato por mais de um ano, creio. Pode ser que um visitante ocasionalmente tenha ouvido o nome, mas isso foi há trinta anos, numa aldeia rural a duzentas milhas de distância. “Teddy” é explicável por associação de ideias: um último animal de estimação de anos passados a recordar outro. Tivemos o cão por menos de duas semanas antes de ele morrer, e é improvável que haja alguém além da Theodosia e de mim próprio que se lembrasse do seu nome. Haverá algum leitor tão credulamente cético ao ponto de supor que a Sra. Soule por acaso conheceu uma pessoa que anteriormente viveu naquela aldeia rural duzentas milhas a Leste e que, contra toda a probabilidade, se lembrou do nome do gato de um vizinho após trinta anos, e que também por acaso encontrou outra pessoa, desta vez daquela cidade 3.000 milhas a Oeste, e que, contra a probabilidade, se lembrou após dez anos do nome de um cão que o mesmo vizinho possuiu por menos de uma quinzena, e que ambas as pessoas por acaso mencionaram os animais de estimação do seu vizinho mútuo (embora longe de serem simultâneos) à Sra. Soule? E se a Sra. Soule tivesse tido ao seu dispor tantos milhares de dólares quanto tem moedas de dez cêntimos, e tivesse contratado Sherlock Holmes para descobrir o nome de qualquer cão ou gato que eu alguma vez tivesse possuído antes de 1924, creio que esse dignatário se teria matado a fumar antes de chegar a uma “pista”.
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