CRIMES E DESAPARECIMENTOS RESOLVIDOS COM A AJUDA DE UM PSÍQUICO OU MÉDIUM – PARTE 3 (2004)

Guy Lyon Playfair e Montague Keen investigam um caso de assassinato em que houve a participação de uma médium que prestou diversas informações à polícia. Para baixar o artigo em pdf, clique aqui.

A revisão deste artigo custou 208 reais. Agradeço imensamente ao Marcio Rodrigues Horta e ao Marcos Arduin pelo financiamento.

POSSIVELMENTE UM CASO ÚNICO DE RESOLUÇÃO DE UM CRIME POR UM PSÍQUICO

por Guy Lyon Playfair e Montague Keen           

RESUMO

“Médium pega assassino e prova vida após a morte” foi a manchete memorável da edição de 27 de outubro de 2001 do Psychic News, referindo-se a um então recente caso que emergiu em que uma jovem mulher chamada Christine Holohan forneceu à polícia uma série de informações exatas, detalhadas e específicas sobre um assassinato alguns dias depois de ocorrido, recebidas ostensiva e diretamente da vítima morta. Um registro mais detalhado do caso foi dado por um dos detetives envolvidos no inquérito do assassinato no Journal of the Police Federation (Batters, 2001). Com a plena cooperação dele e de Holohan, nós examinamos o caso cuidadosamente e concluímos que no mínimo se poderia dizer que “Médium fornece informações-chave que ajudam a levar à condenação de um assassino e é altamente sugestivo da sobrevivência de um desencarnado”.

INTRODUÇÃO

Na noite de sexta-feira, 11 de fevereiro de 1983, Jacqueline Poole, 25 anos, uma assistente de loja e garçonete em meio expediente, foi assassinada em seu apartamento no subúrbio Ruislip a oeste de Londres. O primeiro agente da polícia no local foi o detetive Tony Batters, que chegou no domingo, dia 13, onde permaneceu por cinco horas, fazendo anotações detalhadas sobre a cena do crime e a vítima. Um ou dois dias mais tarde, Batters e outro detetive, o Det. Con. Andrew Smith (cada um deles leu e aprovou um esboço deste artigo; ver suas declarações inclusas ao final) foram avisados para visitar Christine Holohan, uma irlandesa de vinte e poucos anos que trabalhava meio período na RAF em Northolt enquanto treinava para tornar-se uma médium profissional, o que agora já faz há 16 anos ou mais. Ela chamou a polícia para dizer que tinha algumas informações sobre o assassinato. Até então, a polícia pedira que qualquer pessoa que tivesse conhecido Poole entrasse em contato. Uma das pessoas que agiu assim foi um jovem chamado Anthony Ruark, que, apesar de ter antecedentes criminais (mas nenhum histórico de violência), inicialmente não foi tratado como o suspeito principal.

Holohan, no entanto, não conhecera Poole, ao menos não enquanto estava viva. Logo que os agentes da polícia chegaram a sua casa em Ruislip Gardens (a cerca de 5 quilômetros do apartamento de Poole, não “menos do que 10 minutos a pé”, como mencionado no Psychic News), anunciou que tem tido ‘experiências psíquicas’ desde sua infância na Irlanda, e tinha tido outra deste tipo na segunda-feira à noite — o dia seguinte à descoberta do corpo de Poole. Como ela descreveu numa entrevista ao programa da televisão irlandês (RTE) The Late Late Show (23 de novembro de 2001), do qual nós obtivemos uma cópia, ela foi dormir por volta da meia-noite, depois de ter tido “uma sensação muito ruim” durante todo o fim de semana seguinte ao assassinato, e tendo “sentido frio” quando ficou sabendo do ocorrido na segunda-feira numa loja local.

Naquela noite, ela continuou, ela tentava dormir quando “de repente eu tive um sentimento forte de uma presença, como se alguém estivesse no meu quarto, e eu senti que alguém puxava o meu pijama. Então pensei, vamos ver o que está ocorrendo aqui, e me arrisquei e disse “Jacqui, é você?” e as luzes foram ligadas e desligadas”.[1] Ela então teve uma visão de uma mulher que informou seu nome não como sendo Jacqui Poole, mas sim como Jacqui Hunt. Este na verdade era o nome de solteira de Poole, que não tinha se tornado público até então. A aparição confirmou que ela era de fato a vítima, e que queria que Holohan a ajudasse a receber a justiça merecida, ao que Holohan respondeu que ela não podia ir à polícia a menos que tivesse alguma evidência concreta para eles. Além disso, disse, pensariam que ela tinha lido sobre o caso nos jornais ou que ouviu os detalhes de amigos. “Jacqui”, no entanto, “somente foi embora” depois de dizer algumas coisas sobre o assassino “que eu não posso repetir no ar”. Na noite seguinte ela voltaria outra vez, desta vez com uma grande quantidade de detalhes sobre a cena de crime, então Holohan decidiu chamar a polícia. Numa entrevista conosco registrada em fita em 30 de outubro de 2002, ela forneceu mais detalhes de sua visão, que ela se lembrava nitidamente depois de quase vinte anos e que claramente causara uma forte impressão nela. Ela realmente não vira Poole enquanto encarnada, mas lembrava “o contorno branco de uma pessoa” e uma “energia de luz branca”, junto com “uma voz bem definida” em seu ouvido. Ela confirmou que primeiramente tinha estado ciente de uma “presença” inesperada antes de ter ouvido sobre o assassinato. Ela não conseguiu descrever isso em mais detalhes.

Numa entrevista gravada conosco em sua casa em 6 de outubro de 2002, Tony Batters contou-nos como se sentiu quando Holohan começou a falar sobre anjos e espíritos:

Eu era completamente cético naquela época e não desejava continuar a entrevista, mas por educação nós nos sentamos em um sofá e ela começou a dizer coisas que imediatamente me espantaram. Anotei-as; pouco tempo depois ela entrou no que eu descreveria como um transe, embora eu não seja familiar com um transe, mas as suas pálpebras piscaram, depois se fecharam e ela falou, numa voz normal, uma série de sentenças muito curtas, e eu produzi uma cópia textual das notas originais do encontro que eu ainda possuo.  

Batters mostrou-nos suas notas originais (ver Figura 1) e nos deu cópias de sua transcrição das 131 declarações separadas (ver Apêndice para detalhes). Holohan disse que Poole supostamente teria ido trabalhar na noite do assassinato, dois homens tendo ligado para ela, mas ela decidiu não ir pois não estava se sentindo bem. Ela então recebeu uma visita de um homem que ela conhecia, um amigo de um amigo que ela nunca tinha gostado. Ela o deixou entrar, pensando que ele podia ter uma mensagem de seu namorado, que estava em detenção e a quem tinha visitado duas semanas antes. Holohan forneceu uma boa descrição da aparência do homem e disse que ele era um homem a quem a polícia já tinha visto. Ele tinha um apelido incomum.

Ela descreveu o apartamento de Poole exatamente como Batters o vira pela primeira vez, anotando detalhes tais como as duas xícaras de café na cozinha, uma que tinha sido lavada enquanto a outra ainda tinha algum café, um caderno de endereços preto, uma carta e uma receita. Ela descreveu o ataque, a luta e assassinato em detalhes consideráveis, dizendo que tinha começado no banheiro e que Poole foi então arrastada para o sofá, onde o seu corpo foi achado. Observou que só dois dos muitos anéis de Poole permaneceram em seus dedos. Quando o assassino fosse apanhado, disse, seus amigos ficariam surpresos, pois não acreditariam que ele seria capaz de cometer tal crime.


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Figura 1. Primeira página das notas de Batters feitas durante sua entrevista de 1983 com Christine Holohan. Ele acrescentou as linhas em letras maiúsculas logo em seguida para o benefício do datilógrafo da polícia. (Cortesia de Tony Batters)

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Figura 2. Página do bloco de notas de Christine Holohan, no qual, a pedido dos detetives, ela escreveu o apelido do homem mais tarde condenado por assassinato, e que pode ser uma referência para o esconderijo das joias roubadas. (Cortesia de Christine Holohan)

Holohan mencionou cinco nomes além do de Jacqui Hunt: Betty, Sylvia, Terry (a quem ela mencionou seis vezes), Bárbara Stone, e Tony. Ela também mencionou “alguém vivendo num apartamento sobre uma banca de jornal” e finalmente nomeou o assassino, como descrito abaixo. Terry era o nome de um dos irmãos de Poole, de quem ela era especialmente próxima. O nome de sua mãe era Betty e a mãe do namorado se chamava Sylvia. A melhor amiga de Poole, Gloria, vivia em um apartamento acima de um vendedor de jornais. É interessante notar que enquanto Batters esteve no apartamento de Poole, depois de descobrir o corpo, ele atendeu ao telefone três vezes. As pessoas que ligaram tinham sido Betty, Sylvia e Gloria. Quanto a Bárbara Stone, o nome não dizia nada na época aos detetives e não surgiu durante as investigações. Só em 2001 ela foi identificada como sendo uma amiga íntima de Poole.

Holohan ainda tinha mais a oferecer. Ela disse que não conseguiu entender direito o apelido do assassino, mas que tentaria recebê-lo pela escrita automática, que ela usava com êxito com seus clientes. Os detetives perguntaram se ‘Jacqui’ também podia dar-lhes alguns indícios sobre as joias roubadas. Holohan então fez alguns rabiscos e marcas numa folha de seu bloco de notas, e escreveu o número 221, uma palavra ilegível, e as palavras ‘Ickeham’ [sic], ‘jardim’ e ‘Pokie’ (ver Figura 2). A importância do número e as primeiras duas palavras são discutidas abaixo. Pokie foi imediatamente reconhecido por um dos detetives como o apelido um tanto incomum de Anthony Ruark, que também era conhecido como Tony.

Em retrospecto, o leitor pode pensar que os detetives deveriam ter prontamente detido Ruark e acusá-lo de assassinato. Ele foi de fato detido e interrogado por algum tempo, mas teve que ser liberado por falta de evidências. De acordo com Batters, ele não era um suspeito importante (dos quais havia aproximadamente trinta na época), pois ele não tinha nenhum registro de violência, mas ele já tinha sido entrevistado pela polícia depois que voluntariamente se apresentou com sua namorada como um conhecido de Poole. A evidência do tipo fornecida por Holohan elevou-se a não mais que um rumor, embora intrigante, e não teria sido aceita em qualquer corte. Muito do que ela disse não havia ainda sido verificado nessa etapa ou não parecia relevante para a investigação. Além disso, Holohan fez suas declarações sem nenhuma ordem particular e elas soaram menos evidentes na época em que foram feitas do que quando Batters organizou-as mais tarde em grupos como descritos no Apêndice. Numa etapa inicial da entrevista, os oficiais também suspeitaram que Holohan pudesse ter obtido suas informações por meios normais, talvez por pessoas que a estivessem usando como uma forma de transmitir informações, verdadeiras ou falsas, à polícia. Devemos realçar que não surgiu nenhuma evidência de que este fosse o caso. Holohan então produziu o que foi, para os detetives, a melhor demonstração de suas capacidades. Batters a descreveu para nós da seguinte forma:

Estávamos sondando — “Onde conseguiu esta informação? Certamente você falou com os parentes? Você conhece alguém no grupo de assassinos possíveis?” E ela disse: “Veja bem, com base nessas perguntas eu acho que você não acredita em mim. Eu gostaria de fazer algo, e Jacqui está me dizendo para fazer isto, então se algum de vocês me der algo que seja pessoal a vocês, eu tentarei mostrar algo”. Agora, o que ela fez em seguida não me dizia muito até que saímos da porta principal, quando Andy [Smith] ficou pálido e literalmente tremendo. Aquilo teve um impacto enorme nele. 

O que Holohan fez, de acordo tanto com ela quanto com Batters, foi segurar o molho de chaves de Smith e fazer três declarações específicas muito claras. Ela disse que ele tinha recebido recentemente uma carta sobre um trabalho elétrico essencial, como ele de fato recebeu, de uma Building Society dizendo-lhe que fazer uma nova instalação elétrica na casa que esperava comprar, caso quisesse uma hipoteca. Ela disse que ele estava prestes a ser transferido para outro departamento, o que ele achou muito improvável — até que ele foi informado de sua transferência pendente somente dias depois. Primeiramente, no entanto, ela fez uma observação que deve ter sido espantosamente exata. Batters contou-nos que “até o dia da minha morte eu não posso expor o que ela disse. Foi bastante extraordinário, com detalhes”. Holohan descreveu Smith como “chocado”. Após a entrevista, a polícia decidiu investigar Ruark mais a fundo, e ele foi interrogado demoradamente pelo chefe da polícia no departamento de Ruislip, o Detetive-Superintendente Tony Lundy (agora aposentado e que, fomos informados, não estava disponível para entrevistas), que tinha orgulho do fato de nunca ter falhado em conseguir uma condenação num caso de assassinato. Outra vez Ruark teve que ser liberado por falta de evidência, e por 18 anos o caso de Poole permaneceu não resolvido.

O CASO É REABERTO

Como parte de suas pesquisas de rotina em 1983, os detetives do Esquadrão de Assassinato retiraram um pulôver pertencente a Ruark de uma sacola de lixo que o Superintendente mandou ser armazenado como possível evidência junto a outros itens de casos ‘frios’ ou não resolvidos. Em 2000 o caso finalmente foi resolvido—não por uma voz do mundo dos espíritos, mas graças aos avanços recentes em LCN (Low Copy Number) [Baixo Número de Cópia] da tecnologia do DNA, em que combinações podem ser feitas entre as minúsculas amostras. O caso foi reaberto em 2000 porque um informante nomeou alguém (não Ruark) como o assassino. Um técnico de laboratório então examinou alguns itens incluindo o pulôver de Ruark usando a nova tecnologia de LCN-DNA, e como Batters (2001) lembrou:

Os resultados foram completamente conclusivos, identificando numerosas trocas de fluidos corpóreos, células de pele e fibras das roupas entre a vítima e o seu assassino, Pokie Ruark. As possibilidades de erro foram citadas na corte como menos de uma em um bilhão. 

Havia 46 combinações, e em 2002 Batters nos deu detalhes adicionais que indicam a minúcia com que os peritos criminais tinham feito seu trabalho em 1983, mais de uma década antes da tecnologia de LCN tornar-se disponível para eles. (A seu pedido, nós omitimos todo material aqui concernente ao assassinato real em consideração aos muitos parentes e amigos vivos de Jacqueline Poole).

Ruark foi detido, preso pelo assassinato de Poole, e condenado em Old Bailey em agosto de 2001, tendo pego prisão perpétua. O veredito do júri foi unânime. De acordo com The Times (25 de agosto de 2001), a condenação foi obtida “como o resultado de avanços na ciência forense”.[2] Embora nenhuma menção tivesse sido feita

no julgamento à contribuição de Holohan no caso, Batters nos disse em 2002 que “sem a informação de Christine, nós talvez tivéssemos falhado em obter a evidência mais conclusiva” [ex.: o pulôver]. Ele também nos informou que foi apenas em 2001 que soube (do irmão de Poole, Terry) quem era Bárbara Stone. Ela era a melhor amiga de Poole, morta em um acidente na estrada 2 anos antes da morte de Poole.

Holohan fez uma ou duas declarações não-específicas tais como “eles sabiam onde estavam” e “olhando pela soleira da janela”; mencionou meia dúzia de detalhes que podiam ser lidos na imprensa local; fez algumas declarações mais de uma vez (o que torna uma contagem exata difícil), e cometeu apenas um erro direto ao dizer que o assassinato acontecera no sábado em vez de na sexta-feira. Naturalmente, é impossível dizer quantas de suas declarações não verificáveis eram verdadeiras ou falsas, mas nenhuma era inconsistente com os fatos determinados. No total, no entanto, seu índice de êxito foi notável e, acreditamos, nunca visto. Batters (2001) calcula que “das cerca de 130 declarações específicas que Christine fez, mais de 120 agora parecem ter sido provadas como sendo completamente corretas”. Não sabemos de nenhum outro caso remotamente comparável a este em termos de evidência verificada exata, e se pudéssemos expor os itens confidenciais, o caso em favor da alegação de Holohan de que a sua informação veio diretamente da Poole morta ficaria ainda mais forte.

O ESCONDERIJO?

Depois do julgamento, Batters decidiu por si próprio examinar os nomes e numerar o que Holohan escrevera na página de seu bloco de notas que felizmente ele tinha mantido, junto com as próprias notas, e armazenado em seu sótão. As palavras que ainda o confundiam eram ‘jardim’ e ‘Ickeham’ (claramente um erro de ortografia de Ickenham, o subúrbio entre Uxbridge, onde Ruark viveu, e Ruislip), e sua relação, se houvesse, com o número 221. Dois jardins, o de Poole e um próximo ao apartamento de Ruark, foram revirados pela polícia, e Batters perguntou-se se as joias poderiam ter sido escondidas em outro jardim. Ruark não teria levado os itens roubados ao seu receptor costumeiro, que conhecia Poole e poderia muito bem tê-los reconhecidos, e pela mesma razão ele também não os teria levado para casa, onde se sabe que ele esteve logo depois do assassinato, porque a sua namorada também conhecia Poole. O cenário mais provável seria tê-los escondidos em algum lugar entre o apartamento de Poole e o seu.

Olhando um mapa do local, Batters traçou a rota que Ruark alegou ter feito para chegar a casa (ele admitiu em seu julgamento ter visitado Poole na noite do assassinato) e notou que só uma estrada ou rua, a Estrada de Swakeleys, tinha um número 221 — ou melhor, tinha um número 219 e alguns números mais altos, mas onde devia ser 221 era um espaço aberto usado como um jardim público facilmente acessível da estrada. Batters nos disse o que ele pensou e fez quando foi ao local:

Se eu fosse um ladrão, onde eu esconderia as coisas? Aqui há folhagens e árvores ao lado da 219, vou e olho no matagal, e há pedras protuberantes. Eu limpo o caminho e retiro as pedras, e há um buraco de aproximadamente 15 centímetros de largura e 18 centímetros de profundidade, mas está vazio. Isto é totalmente inconclusivo, mas acredito, sim, que esse teria sido o lugar ideal para esconder o material no caminho [de casa]. Eu pensaria, tendo percorrido a rota, que seria o primeiro ponto comunalmente acessível onde poderia fazê-lo sem ser notado, porque não pode ser visto de nenhuma das casas.

Naturalmente, é possível que o buraco tenha sido feito depois de 1983, talvez por crianças brincando, porém é preciso dizer que é muita coincidência encontrar um esconderijo ideal para um punhado de anéis e braceletes para o que pode bem ter sido o jardim do nº 221 na única estrada do local com aqueles vários números de casas. 

PRECEDENTES

“Excetuando-se as fabricações e confabulações criadas por psíquicos e seus biógrafos, distorções da mídia, e casos de fraude total, permanece um número considerável de casos documentados em que detetives psíquicos conseguiram êxitos impressionantes aparentemente inexplicáveis” (Lyons & Truzzi, 1991, p. 155). Esta foi a conclusão dos autores de um estudo detalhado e altamente crítico de detecção psíquica. No entanto, não é sempre certo que tais êxitos sejam devido ao exercício de qualquer sentido psi, embora possa ser o caso da ‘intuição’ às vezes (talvez sempre?) ter um componente psi. Por exemplo, num caso de 1977 muito divulgado em Chicago, Allan Showery foi condenado pelo assassinato de uma mulher filipina chamada Teresita Basa após a alegação feita por outra mulher filipina, Remibias Chua, de que ela tinha se comunicado com o espírito de Basa em sua língua nativa, o Tagalog, e foi-lhe dito sobre o roubo de um anel além do assassinato. Confrontado com esta evidência, Showery (que já havia sido entrevistado pela polícia) confessou e o anel foi recuperado. Lyons e Truzzi (1991, pp. 59, 245-6) notam que como Chua conhecera tanto Basa e Showery, ela pode ter suspeitado que o último era culpado e compôs sua história mediúnica para incriminá-lo. (Não está claro, no entanto, como ela poderia ter sabido sobre o anel).

Um caso mais contundente é descrito pela médium Dixie Yeterian (1984, pp. 49-56). Ela recebeu a visita pela manhã de um jovem que lhe pediu ajuda para achar seu pai perdido e deixou alguns dos pertences do pai com ela para que ela fizesse uma leitura psicométrica. Yeterian imediatamente ‘viu’ que o homem na realidade havia assassinado seu pai, e imediatamente chamou a polícia. Detiveram o homem e conseguiram uma confissão e uma condenação. O detetive encarregado contou a Lyons e Truzzi (1991, p. 2) que se tratava de um ‘caso fora do comum’ e admitiu que tinha trabalhado com Dixie anteriormente. Um detalhe interessante do registro de Yeterian é sua experiência do que ela chama de uma ‘divisão psíquica’ em que “às vezes eu via a situação do ponto de vista do filho, e em outras vezes eu captava as percepções do homem assassinado” (Yeterian, 1984, p. 52). Holohan parece ter experimentado uma “divisão” semelhante, no seu caso em três partes — Bratters, Poole e Ruark.

Por mais impressionantes que estes casos pareçam ser, em cada um deles a médium conhecia ou ao menos tinha encontrado o assassino e poderia ter colhido pistas importantes por meios normais, tais como leitura da linguagem corporal ou anotando observações ou comportamentos suspeitos. Um caso em que isto não pode se aplicar é o do assassinato do autor e parapsicólogo D. Scott Rogo em 1990, em que um grupo de médiuns encabeçados pela amiga de Rogo, Betty Bandy forneceu à polícia de Los Angeles informações exatas que, embora não reabrissem o caso, “certamente o teriam feito, não estivesse o novo exame já a caminho”, de acordo com o detetive encarregado (Smith, 1992).

Lyons e Truzzi (1991) e Bardens (1965, cap. 4) citam vários outros casos em que médiuns deram demonstrações impressionantes de clarividência e produziram evidência que foi útil para a polícia. Tais relatórios datam de vários séculos passados, embora em sua pesquisa erudita de “Ghosts Before the Law”, Lang (1894, pp. 248-273) pôde citar só um caso remotamente comparável ao de Poole. Este caso aconteceu em 1631 e foi resumido em detalhes por Surtees (1816-1840, II, 146-149), e envolveu um moleiro chamado James Graham que alegou que o espírito plenamente materializado de uma vítima local de assassinato chamada Anne Walker tinha lhe aparecido dando plenos detalhes de sua morte e da localização do seu corpo, e nomeou seus dois assassinos. Estes foram devidamente presos, após a descoberta do corpo no lugar indicado por Graham, embora não houvesse outra evidência contra eles ou a favor da visão de Graham. Há suspeitas de que Graham tivesse cometido o assassinato e criado esta história fantástica, o que seria totalmente inverificável e não nos soa muito verdadeiro, embora observemos que enquanto Graham aparentemente não tinha nenhum motivo para cometer o assassinato, um dos homens presos supostamente tinha um motivo muito forte.

Depois de uma investigação cuidadosa do caso amplamente publicado do século XIX da suposta identificação do assassino serial conhecido como Jack Estripador feita pelo médium Robert Lees, West (1949) avaliou a alegação como “não apoiada pelos fatos conhecidos”. Voltando ao presente, Ahsan (2003) descreve sua investigação no uso de psíquicos pelos pela polícia britânica e irlandesa, e cita uma declaração de um Inspetor Detetive da Irlanda em que uma médium chamada Diane Lloyd Hughes foi usada para ajudar num caso de assassinato de 1999 na Irlanda e “era capaz de esboçar os detalhes do assassino, descrição, etc., e seu auxílio aumentou grandemente nossa investigação. Espero trabalhar com ela no futuro”. Um testemunho um tanto mais significativo foi apresentado em um videoclipe durante o programa The Ultimate Psychic Challenge no Canal 4 em 23 de agosto de 2003, quando vários oficiais da Polícia da Filadélfia elogiaram o papel que um médium do Reino Unido, Keith Charles, desempenhara para ajudar a localizar pessoas ou objetos desaparecidos. Suspeitamos que a colaboração de médiuns e da polícia poderia ser maior do que a última está geralmente disposta a admitir, e pode mesmo aumentar em conseqüência do caso de Poole. Batters nos contou que ele não recebeu nenhuma das ‘críticas’ esperadas após a publicação do seu artigo de 2001, e que muitas das reações de seus colegas foram bastante favoráveis.

Quanto a Holohan, que agora vive na Irlanda e trabalha como uma médium profissional, ela nos disse que nunca teve uma experiência semelhante ao seu suposto encontro com Poole, embora Batters (2003) tenha declarado que num caso recente “ela deu informações muito pertinentes para a polícia sobre a localização do corpo de uma vítima de assassinato, verificadas quando [o corpo foi] achado em Hampshire, em setembro de 2001”. Depois de uma breve sessão privada seguindo nossa entrevista com ela em outubro de 2002, a esposa de um de nós (Keen) pode testificar que Holohan espontaneamente deu-lhe informações específicas e muito impressionantes sobre uma questão bastante privada da família além do conhecimento normal de Holohan.

DISCUSSÃO

Tendo em mente a máxima de que qualquer fenômeno psi que pareça ser único é suspeito até que seja provado verdadeiro, nós agora examinaremos os meios em que a informação produzida por Holohan poderia ter sido obtida por outra fonte além da Poole desencarnada. Estas podem ser quaisquer fontes normais ou paranormais que não envolvam a comunicação de espíritos. Explicações normais parecem muito difíceis de serem encontradas em vista da ausência de qualquer indicação de que Holohan conhecesse alguém ligado ao caso ou que tivesse aprendido algo sobre ele pelos meios de comunicação locais que pudesse explicar algo além de talvez meia dúzia das declarações listadas no Apêndice, e absolutamente nenhuma daquelas que nós retivemos.

Batters se lembra de que ele e dois colegas examinaram cada jornal nacional e local disponível durante vários dias depois do assassinato, achando só dois ou três artigos muito curtos (ex.: na Uxbridge News [Notícia de Uxbridge] e no Ruislip Echo [Eco de Ruislip] de 18 de fevereiro e um comprido do Uxbridge Gazette [Gazeta de Uxbridge] de 17 de fevereiro), todos os quais nós vimos. Pode ser dito quase com certeza que tudo o que Holohan poderia ter aprendido dos meios de comunicação era o nome de Poole (mas não o seu nome de solteira), endereço, causa de morte e perda das joias; que não tinha havido nenhum sinal de entrada forçada e que Poole havia se separado de seu marido sete meses antes.

Uma possível explicação paranormal é que ela leu a mente de Batters, como ele próprio suspeitou inicialmente, já que, como ele nos disse, muito do que Holohan lhe descreveu era exatamente como ele tinha visto. Isso incluiu detalhes tais como as duas xícaras de café na cozinha das quais só uma tinha sido lavada, a pilha de jornais não lidos, o envelope e a carta, e os dois anéis que permaneceram nos dedos da vítima, além de uma descrição exata da posição do corpo, roupas e ferimentos. Esta explicação também pode ser rejeitada pela simples razão de que Holohan também forneceu informação que nem ela nem Batters poderiam ter sabido à época, notavelmente a descrição do assassino (para não mencionar seu apelido incomum), suas atividades anteriores e a reação dos seus amigos à pergunta se ele era capaz de violência. De fato, como Batters repetidamente nos disse, a única possível fonte para toda a informação é Jacqueline Poole. A hipótese de telepatia tem que explicar o fato de que Holohan lia três mentes, a de Batters, a de Ruark e a da Poole morta, e obtinha informações (p.ex. a referência a Bárbara Stone) que não eram conhecidas por nenhuma pessoa diretamente relacionada ao caso por dezoito anos. Consideramos que este caso adiciona peso considerável às escalas de credibilidade de psi normal ou de super-psi contra a sobrevivência e comunicação de desencarnados no lado do último. Como Gauld (1977, p. 589) observa numa discussão sobre comunicadores ‘esporádicos’ ou comunicadores não conhecidos por seus contactantes:

É óbvio que os casos de comunicações verificadas de comunicadores inesperados rejeitam a teoria de telepatia dos consulentes. Se, além disso, a informação correta comunicada não poderia ter sido adquirida telepática nem clarividentemente por qualquer fonte isolada e sim montada a parir de uma diversidade de fontes, até mesmo a teoria de super-PES torna-se algo forçado. 

O que precisa ser explicado pelos proponentes de super-PES ou da hipótese de super-psi é, Gauld adiciona, a questão de como o médium seleciona da massa infinita de material teoricamente disponível somente esses itens que têm ligação com o comunicador esporádico em questão. Além disso, podemos adicionar, Holohan não forneceu qualquer informação específica que eventualmente não fosse descoberta como sendo relevante, direta ou indiretamente, ao assassinato de Poole; ela não deu qualquer informação incorreta à exceção do dia do assassinato, e não mencionou quaisquer outros nomes além dos aqui listados, sendo que todos foram identificados como ligados intimamente à vítima. O argumento mais forte contra uma explicação de super-psi e a favor de uma hipótese de sobrevivência seguramente deve ser que uma grande quantidade de informação dada por Holohan só poderia ter vindo de uma pessoa que, na época da comunicação, estava sem dúvida morta.

CONCLUSÃO

Críticas comuns de casos de resoluções de crimes por psíquicos são que eles são auto-relatados, às vezes muito tempo depois do acontecimento; eles não são corroborados pela polícia; a evidência é selecionada para focar nos acertos (ou suposições afortunadas) enquanto suprimem numerosos erros; e que ocorrem “forçações de barra” ou declarações gerais que podem se aplicar a qualquer coisa. (“Estou vendo água” ou “a letra A é significativa?”). Wiseman, West e Stemman (1996) revisam alguns casos em que estas críticas parecem justificadas. Detetives psíquicos também podem estar completamente errados. Batters (2001) lembrou que “durante o curso da investigação [de Poole], nós recebemos várias chamadas das pessoas oferecendo seus serviços como psíquicas, mas o que diziam não passava de disparates”.

Foi sugerido que alguma informação pode ter sido obtida através de parentes de Poole ou amigos. Mas nós não estamos cientes de qualquer evidência de quaisquer dos amigos ou parentes de Poole de que eles conhecessem Holohan. Além do mais, a única pessoa fora os funcionários da polícia que teve permissão para entrar no apartamento desde o ocorrido foi o pai do namorado de Poole, que entrou pela janela do saguão para identificar o corpo, permanecendo por apenas alguns segundos. Ele não tinha nenhum meio de saber que o corpo estava ferido, quais as mudanças de roupa realizadas, como eram a cozinha ou o banheiro — sendo estes alguns dos detalhes informados pela médium. Nem foi permitido que qualquer membro da família entrasse no apartamento. O primeiro a entrar foi o ex-marido de Poole uma semana mais tarde, bem depois do chamado de Holohan à polícia e da subsequente entrevista. Ainda que — como uma hipótese ainda mais tênue — Holohan conhecesse Ruark ou algum de seus amigos, isto não explicaria mais do que uma fração da informação que ela comunicou, ainda que fosse sugerido que Ruark prontamente desse a Holohan uma descrição detalhada do modo com que ele acabara de assassinar a Sra. Poole. Além disso, tivesse havido qualquer evidência de que Holohan freqüentasse os mesmos bares que Poole, em particular o Windmill, onde Ruark e muitos de seus principais amigos bebiam, a polícia teria descoberto isto imediatamente. De fato o único contato de Holohan com bares ocorreu em duas ocasiões em que ela trabalhou em um bar diferente, o Tally-Ho. Mas mesmo que ela tenha se misturado com muitos dos amigos de Poole, ou supostamente freqüentado os mesmos bares, isso não pode ter nenhuma relevância sobre a riqueza de detalhes exatos que ela forneceu.

Nenhuma das críticas acima, no entanto, pode ser aplicada ao caso de Poole, em que as evidências, muitas delas altamente específicas, foram registradas dentro de alguns dias do assassinato pelo primeiro agente da polícia a visitar a cena do crime, e tudo está informado aqui, não houve qualquer seleção ou supressão exceto onde foi claramente expresso. Além do mais, o material suprimido, que nos foi mostrado, adiciona muita força a este caso. É muito provável que nenhum caso deste tipo venha a ser perfeito, dada a impossibilidade de provar uma negativa. No entanto, no programa de televisão mencionado acima, Tony Batters declarou que “aceitei o fato de que Jacqui se comunicou com Christine”, assim como, nos disse, aceitaram todos os seus colegas policiais com quem ele discutiu o caso. Nós não encontramos uma explicação alternativa plausível de como a informação comunicada foi reunida. Se algum dos leitores tiver uma explicação, teremos prazer em ouvi-la.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos ao Tony Batters e à Christine Holohan por seu precioso tempo e plena cooperação, ao Andrew Smith por ler e aprovar o esboço que enviamos; ao Canon Michael Perry por sua pesquisa na biblioteca no caso de Walker, e ao Professor Chris French e ao Dr. Adrian Parker por nos informarem sobre o caso de Poole. Também agradecemos os comentários e sugestões dos editores (atuais e prévios) e dos três árbitros anônimos.

REFERÊNCIAS 

Ahsan, T. (2003) Psychics solve crime. Prediction 69 (5), 18-22.

Bar dens, D. (1965) Ghosts and Hauntings. London: The Zeus Press.

Batters, A. (2001) But ghosts can’t testify? Police December, 23-27.

Batters, A. (2003) Personal communication to Keen,  16th April.

Gauld, A. (1977) Discarnate survival. In Wolman, B. B. (ed.) Handbook of Parapsychology. New York: Van Nostrand Reinhold. Lang, A. (1894) Cock Lane and Common-Sense. London: Longman, Green & Co.

Lyons, A. and Truzzi, M. (1991) The Blue Sense: Psychic Detectives and Crime. New York: Warner Books.

Smith, S. S. (1992) Leaving the body: the life and death of D. Scott Rogo. Fate November, 62-69.

Surtees, R. (1816-40) The History and Antiquities of the County Palatinate of Durham (4 vols). London: J. B. Nichols & Son.

West, D. J. (1949) The identity of ‘Jack the Ripper’. JSPR 35, 76-80.

Wiseman, R., West, D. and Stemman, R. (1996) An experimental test of psychic detection. JSPR 61, 34-45.

Yeterian, D. (1984) Casebook of a Psychic Detective. Briarcliff Manor: Stein & Day.


APÊNDICE 

A declaração de 1983 de Christine Holohan a Batters e Smith foi feita numa série de frases curtas que Batters anotou, preenchendo 199 linhas de seu bloco de notas A5. As declarações não estavam numa ordem imediatamente reconhecível, e Holohan freqüentemente mudava de assunto, ocasionalmente se repetindo. Citamos abaixo todas as declarações (exceto o material sensitivo concernente ao assassinato real, declarações não-específicas tais como essas mencionadas acima, e repetições) como anotadas por Batters (coluna do lado esquerdo), junto com seus comentários (coluna do lado direito), aos quais adicionamos mais detalhes por escrito fornecidos por ele em nossa entrevista em 2002. Nossos comentários estão entre colchetes. Algumas repetições foram omitidas e a ordem das declarações foi alterada para dar um registro mais coerente do seu conteúdo ao leitor.

1. Detalhes do acontecido 

“Desde Dom[ingo] Jacqui Hunt. Dizendo que não devia ter estado lá. Suposto que teria ido trabalhar. Dois homens ligaram para ela mais cedo. Ela não quis ir. Não sentia-se bem. Teve esta experiência por volta das 9 horas. Noite de sábado”.

Na noite do assassinato (sexta-feira, 11de fevereiro de 1983) Jacqueline Poole (JP) estava prestes a começar um novo trabalho como garçonete. Dois funcionários do bar ligaram para o seu apartamento às 19h45min para levá-la ao trabalho. Ela tinha dito aos amigos pouco antes disso que ela se sentia doente demais para sair, e que então ficaria em casa. O assassinato aconteceu entre 20h45min e 21h15min de sexta-feira, não no sábado. Esta é a única declaração incorreta que Christine Holohan (CAP) fez. [O nome de solteira de JP, Hunt, não tinha se tornado público na época da entrevista.]

“Ela está me mostrando uma corrente. Corrente de porta. Não tem certeza se deve deixá-lo entrar. Pensou que ele tinha uma mensagem. Essa é a razão pela qual ela o deixa entrar”.

Um amigo a visitara em relação à sua planejada visita ao seu filho (o então namorado atual dela), que estava num centro de detenção. O amigo partiu às 20h05min da noite e confirmou que JP tinha colocado a corrente na porta quando ele saiu. JP sabia que Ruark também conhecia seu namorado e podia estar trazendo uma mensagem dele ou sobre ele.

“Ela o conhece socialmente, o homem responsável. Não é um ex-namorado. O amigo de um amigo — parte de um grupo de amigos. Conheceu-o há aproximadamente 6 meses. Ela nunca gostou deste sujeito. Ele estava se tornando uma peste. Ele a visitava no trabalho. Ela disse que ficava muito irritada com isto. Disse-lhe que contaria a mais alguém”.

Por vários meses JP e seu namorado visitaram o bar que Ruark costumava frequentar. Ela definitivamente o conhecia, mas rejeitara suas tentativas de flertar com ela. Um homem com sua descrição foi visto visitando JP na loja onde ela trabalhou no dia do assassinato, e também em outro dia anterior a essa semana. O pai do seu namorado disse que ela tinha querido contar-lhe algo na sua última visita a ela, mas que tinha mudado de ideia.

“A ligação está na prisão. Ambos tiveram o mesmo amigo que estava na prisão. Não prisão, ela diz, “detenção”. Foi visitá-lo duas semanas antes.”

Seu namorado estava num Centro de Detenção e não numa delegacia ou prisão. CH não entendeu a diferença. A última visita de JP a seu namorado foi 12 dias antes do assassinato e exatamente duas semanas antes do seu corpo ter sido achado.

 


“Ela está falando sobre o roubo. Joias. Está me mostrando um St. Christopher. Pulseira pesada. Sua avó deu-lhe algo. Sua mãe deu-lhe algo para o Natal. Muito amável. Uma parte foi roubada, a outra ficou. Há outro anel além destes dois? Ela está dizendo Terry, ela pergunta por Terry.”

JP sempre usou várias correntes, pulseiras e anéis, alguns dados por sua família. Os itens mencionados foram todos roubados; só dois anéis dos doze ou quase isso que ela tinha usado mais cedo nesse dia permaneceram em seus dedos, estavam apertados demais para serem retirados. Terry era um de seus três irmãos, a quem ela era muito próxima. CH citou o nome dele seis vezes.

“Ela estava deprimida. Tomava pílulas. Ainda tem uma receita. Está passando por um divórcio. Está pensando em seu marido.”

JP tomava remédios para tensão e depressão causadas por problemas pessoais. Uma nova receita foi achada em sua bolsa. Esteve separada de seu marido durante vários meses e um divórcio era iminente.

“Ela queria que sua vida pessoal fosse mantida em segredo. Com as pessoas erradas do passado. Queria romper com o passado. Estava indo para outro trabalho. Conseguiu uma entrevista. Trabalhou em bar. Três cervejarias. Diz área de Hillingdon. Bebia mais do que devia. Conheceu muitas pessoas. Perguntou por Terry outra vez. Recebo o nome Bárbara — Bárbara Stone.”

Quase todas estas declarações eram corretas ou altamente possíveis, exceto por não haver nenhum registro de uma entrevista pendente. Embora JP não tivesse nenhuma ficha criminal, ela certamente se misturou em círculos criminais e tinha contado a um amigo no dia anterior ao assassinato que ela queria romper com o passado. Era considerada como alguém que bebia socialmente em vez de habitualmente, mas podia ter sentido ou ouvido que andava bebendo mais do que devia. Todos os contatos conhecidos de JP foram localizados durante a investigação de 14 meses, mas ninguém mencionou Bárbara Stone. [isso não ocorreu até o julgamento em 2001 quando Batters soube pelo irmão de JP, Terry, quem ela era].

 

2. A cena do crime 

“Agora ela está me mostrando onde vive. Dois lotes de apartamentos. O nome da estrada começa com ‘L’. Algo “Close”. Ele está estacionado na esquina. Há um estacionamento. Esteve lá antes. Fez algo, um trabalho para ela no passado. Ela não quis deixá-lo entrar. Ele disse que tinha uma mensagem.”

JP viveu numa casa dividida em dois apartamentos, em Lakeside Close. (CH podia ter visto o nome em relatórios de jornal.) Há áreas de estacionamento na rua, mas não um estacionamento normal. Há uma curva na estrada, mas nenhuma esquina, a qual é possível se referir como sendo à esquina do edifício. Ruark tinha visitado o apartamento de JP quatro meses antes do assassinato para trocar seu gerador, que seu namorado tinha desligado depois de uma briga, deixando JP na escuridão, o que ele sabia que a deixava com medo. Ruark também desligou os geradores na noite do assassinato. Isto pode ter ligação com o modo como a atenção de CH foi direcionada a JP quando as luzes de seu quarto foram ligadas e desligadas. É muito provável que JP teria deixado Ruark entrar se ele dissesse que tinha uma mensagem de seu namorado, que ele conhecia.

“Estou num corredor. Jornais não lidos. Há um armário.”

Verdade, mas fácil de adivinhar. Havia vários jornais no tapete de JP [quando Batters entrou pela primeira vez no apartamento, o qual tinha um armário no corredor].

 

“Duas xícaras na cozinha. Uma lavada. Ela fez uma xícara de café.”

Outra vez verdadeiro, mas menos fácil de adivinhar. A cozinha era muito arrumada; os únicos itens não guardados eram uma xícara lavada no escorredor de louça e outra xícara cheia até a metade de café.

“Ela fica me levando ao banheiro. Foi atacada no banheiro.”

O corpo de JP foi encontrado no sofá, mas há um toalheiro recentemente danificado no banheiro e um tapete desarrumado.

“Agora a sala de estar. Ela não conseguiu chegar ao telefone.”

Um amigo tinha telefonado a JP quando Ruark podia ter estado no apartamento. Ela parecia assustada e pediu que ele ligasse de novo em 15 minutos. Ele ligou 30 minutos mais tarde, mas não ninguém atendeu o telefone.

“Há um envelope e uma carta. Acabou de chegar. Um livro preto de endereço. Lugar pequeno, agradável, compacto. Você achou-o diferente. Os móveis foram redistribuídos. As almofadas do sofá estão mexidas. Fora de lugar. Um pouco à frente. Usa jeans, um suéter. Mudei minhas roupas duas vezes, ela diz.”

Uma carta recentemente entregue foi achada, também um livro preto de endereço. (CH não mencionou um livro vermelho de endereço também encontrado). O sofá era compacto, bem decorado e arrumado com exceção das almofadas no chão. O fato que JP tinha mudado de roupas duas vezes foi verificado no julgamento em 2001.

3. O assassinato 

[CH fez 58 afirmações sobre o assassinato das quais apenas uma (o dia em que ocorreu) estava errada. Essas são omitidas aqui por razões já citadas. CH descreveu cada estágio do ataque em detalhes, e dos comentários escritos de Batters está claro que enquanto muitas das declarações são inevitavelmente inverificáveis, a grande maioria era correta, provável ou consistente com as observações ou deduções da cena do crime]. 

4. O assassino 

Como lembrado por Batters, em notas digitadas em 2002 e dadas a nós em nossa entrevista de outubro: 

As pálpebras de Christine se agitaram. Ela voltou ao estado normal.

“Desculpe-me. Tenho que parar.”

“Como você está se sentindo?”

“Muito cansada. Isto requer muito energia.”

“Você conseguirá continuar?”

“O que você precisa saber? Eu não sei onde paramos. Foi útil?”

“Extremamente interessante. Mas precisamos de mais informações sobre o assassino. Há mais?”

“Recomeçarei em alguns minutos. Você já recebeu o nome? Eu nunca consegui entender o nome que ela usa para se referir a ele. Gostaria de uma bebida? Recomeçarei em seguida.” 

Durante o café, perguntas foram feitas sobre as possíveis fontes de informação de Christine, p.ex. a família da vítima, amigos, a polícia, e sobre suas notas escritas e vida pessoal. [CH tinha mencionado que às vezes produzia informações através da escrita automática quando ela não podia receber a informação da maneira normal].

Depois dos cafés: retornou ao transe como antes, mas mais rapidamente. Depois de uma espera (aprox. 30 segundos):

 

“O indivíduo responsável. Ela está me enviando imagens. Cinco pés e oito polegadas, não muito mais. Pele escura, cabelo afro-ondulado colorido. Vinte e poucos anos. 22. Conhece-o. Aniversário em abril, maio. É de Touro. Tem tatuagens nos braços. Espada? Cobra? Rosa? Recebo um nome, Tony. Tem um apelido, não um nome próprio. Eu não consigo entender o que ela diz. Um nome engraçado, como o nome de uma coisa.”

Uma boa e detalhada descrição de Anthony Ruark, como, por exemplo, a sua pele miscigenada, o cabelo e altura (5’9′). Nasceu em abril de 1959, e tinha 23 na época do assassinato. Tinha várias tatuagens nos braços. [Presumimos que ele era conhecido por alguns como Tony, e que JP não conhecia sua idade exata e adivinhara.] Pokie é uma gíria australiana para uma máquina de jogos. Ruark jogava nela constantemente.

“Ele esteve trabalhando recentemente, como pintor ou decorador. Não tem um trabalho regular, não um trabalho próprio. É frio, astuto, entrou em lugares antes. E é esperto com carros. Macaco de graxa, é como ela o chama. Teria trabalhado num carro de um amigo.”

Ele era um criminoso ativo envolvido em arrombamento e roubo de carro. Seu único negócio legítimo, aprendido na prisão, era como rebocador. Tinha trabalhado como um por dois dias na semana antes do assassinato. Era mecânico de carro DIY, embora o termo ‘macaco de graxa’ não tenha surgido durante a investigação.

“É um rapaz conhecido na área A polícia já o viu. O rapaz vive num imóvel. Uma casa popular ou apartamento. Gosta de beber. Está ainda por perto, bebendo com amigos. Bebia com um grupo de amigos na noite anterior.”

Ruark era uma das duas dúzias de pessoas que se declararam como amigo ou conhecido de JP. Vivia num pequeno apartamento em Uxbridge. Era um beberrão regular — 3 a 4 litros de cerveja por dia e tinha passado a noite anterior numa cervejaria com seus fregueses regulares.

“Ele tem uma namorada. Ela conhecia Jacqui. Tem o cabelo escuro, é pequena, bonita. Tem um C em suas iniciais. Vocês têm o grupo correto. Vocês estão próximos.”

Ele tinha uma namorada regular, pequena e bonita, morena, cujo sobrenome começava com C. [Batters se questiona sobre o motivo da fonte só ter dado uma inicial, já que JP conhecia a mulher bem.] Ruark estava prestes a ficar noivo dela, cerca de dois dias depois do assassinato, e precisava de dinheiro urgentemente para um anel. Quando foi detido três dias depois do assassinato, ele carregava £400 para os quais não tinha explicação.

“Ele passou dez minutos olhando o local. Ele está olhando um relógio. E um espelho.”

Estas declarações não foram verificadas, e se verdade sugere que JP reteve alguma forma de consciência imediatamente após a morte [supondo que morreu instantaneamente, como parece quase certo].

“Verifique o álibi dele.”

Isto era naturalmente uma instrução ao invés de uma declaração, e a polícia checou os álibis de Ruark (ele tinha dois), testando-os completamente, desmentindo um e não conseguindo corroborar o outro. Vários outros suspeitos também não conseguiram confirmar seus álibis e não havia nenhuma evidência para ligar Ruark ao assassinato na época.

“Alguém o viu sair? A senhora do outro lado da estrada poderia ter visto, uma senhora com um cão. Estava frio—ele não tinha nenhum arrependimento quando foi embora. Quando você o pegar, seus amigos ficarão surpresos. Eles não acreditarão que ele é capaz de fazer isto.”

Uma vizinha andava com seu cão toda a noite, mas não pôde ajudar. Depois de ir para casa para se trocar, Ruark passou o resto da noite num clube com amigos, que mais tarde descreveu-o como completamente normal e descontraído. Todos os que o conheciam pensaram que ele era incapaz de cometer um crime violento.

 


“Há algo sobre uma alegação de seguro. Verifique uma alegação de seguro. Recebo o nome Sylvia. Ela tem medo de dizer algo. Diz Betty. Uma amiga de sua mãe? Algo sobre sua mãe. Há alguém vivendo num apartamento sobre uma loja, um amigo. Uma loja de jornal. Mantenha-se na direção que você está indo.”

Descobriu-se mais tarde que Ruark fez uma alegação fraudulenta de seguro depois de vender os próprios pertences e alegar que foram roubados. A única Sylvia que surgiu durante a investigação era a mãe do namorado de JP. A mãe de JP se chamava Betty, e ela tinha uma amiga com esse nome. A amiga mais próxima de JP, Gloria, vivia em um apartamento em cima de um vendedor de jornais. [como Batters anotou na época, todas estas três mulheres telefonaram enquanto ele estava no apartamento depois de acharem o corpo de JP, e não houve outras chamadas nas cinco horas que ele passou no local.] 

Das declarações que CH fez sobre o assassino, 3 ou 4 não foram verificadas e nenhuma era incorreta.

 

4. Nomeando o assassino 

Batters lembrou em suas notas mencionadas acima: 

Christine saiu do transe para o seu estado normal, como antes.

“Eu sei que você quer um nome. Eu não posso receber. O que ela diz não faz sentido. Tentarei escrevê-lo.”

“Como você fará isso já que você não pode entender?”

“Vou só segurar a caneta. Espero que Jacqui comece a escrever. Fiz isso antes para parentes.”

Pedimos que tentasse obter também alguma informação sobre as joias.

[CH então pegou seu bloco de notas, uma caneta esferográfica e disse em voz alta: – “Jacqui, eles precisam saber o nome dele. O nome dele. E o que aconteceu às suas joias.” 

Ela voltou ao transe como antes. Segurou a caneta meio solta, meio que na parte de cima. Depois de aproximadamente 30 segundos a caneta começou a sacudir, escrevendo em uma área do papel. Então moveu a outra parte da folha, e escreveu uma palavra muito lenta e espasmodicamente. Os olhos de Christine ficaram fechados, mas ela podia ter tido o controle. A caneta então moveu-se para outro ponto, começou a escrever, então parou. Começou de novo no mesmo ponto depois de alguns segundos, e escreveu uma palavra. Este padrão repetiu-se várias vezes. 

Deste modo, CH escreveu ‘Ickeham’ [sic], ‘221’, ‘jardim’ e ‘Pokie’. Como já descrito, esta informação levou à prisão de Ruark e à descoberta de Batters de um possível esconderijo no terreno junto ao Nº 219.

DECLARAÇÃO

Eu confirmo que o registro acima confere com o meu registro da entrevista que fiz com Christine Holohan e com o meu conhecimento do caso. 

(Assinado) Anthony Paul Batters. Metropolitan Police Warrant 153617. 27.11.2002 

(Assinado) Andrew Smith, Detective Sergeant. Metropolitan Police Warrant 91/167901. 27.11.2002 

DEDICATÓRIA

É com profunda tristeza que informo as mortes de Tony Batters, em 30 de dezembro de 2003, e de Montague Keen, em 15 de janeiro de 2004, e eu gostaria de dedicar este artigo à memória deles.                                   

                                                                                                                                             GLP

Artigo publicado originalmente como: Playfair, G. L; Keen, M. A Possible Unique Case of Psychic Detection. Journal of the Society for Psychical Research, Vol. 68.1, 874, pp. 1-17, January 2004. 

Este artigo foi traduzido por Vitor Moura Visoni e revisado por Inwords.                       

Este artigo tem uma réplica no site http://www.tonyyouens.com/ruislip_murder.htm e uma pequena tréplica no site http://www.aeces.info/Top40/Cases_51-75/case69_poole.pdf



[1] Holohan nos garantiu que ela não se lembra de alguma vez ter encontrado ou mesmo ouvido sobre Poole ou quaisquer de seus amigos, nem mesmo seu assassino. Os detetives entrevistaram todos os conhecidos de Poole, e Holohan não estava entre eles. Seu nome sequer constava na lista telefônica de Poole.

[2] Batters nos disse em julho de 2003 que “sem as informações de Christine, nós não teríamos (a) recuperado o pulôver; (b) entrevistado e ouvido as declarações de todo mundo com quem Ruark veio a entrar em contato depois [da noite do assassinato] e (c) checado e verificado todos os seus movimentos durante a quinzena prévia. Estes três elementos foram vitais para combater as potenciais (e reais) defesas, que eu acredito teriam levantado dúvida suficiente para levar a um veredicto de “inocente”. Assim consideramos inegável que Holohan exerceu um papel significativo, embora anônimo, na condenação de Ruark.

3 respostas a “CRIMES E DESAPARECIMENTOS RESOLVIDOS COM A AJUDA DE UM PSÍQUICO OU MÉDIUM – PARTE 3 (2004)”

  1. Antonio G. - POA Diz:

    Em matéria de imaginação, eu prefiro o devaneio poético, porque é uma fantasia que não engana nem frauda.
    Vejam que “viagem” bacana o poeta faz no célebre poema:
    .
    .
    OUVIR ESTRELAS
    .
    “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
    Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
    Que, para ouvi-las, muita vez desperto
    E abro as janelas, pálido de espanto…
    .
    E conversamos toda a noite, enquanto
    A via-láctea, como um pálio aberto,
    Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
    Inda as procuro pelo céu deserto.
    .
    Direis agora: “Tresloucado amigo!
    Que conversas com elas? Que sentido
    Tem o que dizem, quando estão contigo?”
    .
    E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
    Pois só quem ama pode ter ouvido
    Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
    .
    (Olavo Bilac – Poesias, Via-Láctea, 1888.)
    .
    .
    Desejo um ótimo final de semana aos amigos!

  2. Caio Diz:

    Antonio, como você julga o caso em questão? Quero dizer, você crê que se trata de fraude?

  3. Sanchez Diz:

    Pessoal melhor ater ao artigo em questão para não sairmos muito do rumo.

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