Refutação da crítica de Richard Rockley à pesquisa de Ian Stevenson (2013)

Este artigo é uma refutação à crítica de Richard Rockley ao livro “Children Who Remember Previous Lives, A Question of Reincarnation”, de Ian Stevenson. O artigo original de Rockley pode ser encontrado aqui. Os comentários que fiz usam trechos e idéias oriundas de várias fontes, como o artigo “Reflections on the Blue Sense and its critics” (1995), de Marcelo Truzzi, “O Método nas Ciências Naturais e Sociais”, de Alda Judith Alves-Mazzotti e Fernando Gewandsznajder (1999), “O amor me trouxe de volta”, de Carol Bowman (2001) e o site Survival Top 40. Demais fontes são citadas ao longo do texto.

 

Book Review: Children who remember previous lives,

A question of reincarnation, Ian Stevenson 

por Richard Rockley, 1º de novembro de 2002

Ian Stevenson passou 40 anos estudando a evidência para a reencarnação, investigando principalmente as alegações de crianças que parecem lembrar-se de aspectos de suas vidas anteriores. Sua pesquisa consiste num corpo de trabalho enorme, e é considerada por muitos tratar-se de uma evidência científica da reencarnação. Stevenson escreveu este livro, onde detalha 14 casos, com o objetivo de apresentar um registro da sua pesquisa, e então parece razoável supor que a evidência mostrada seja ao menos representante do total. De fato, seria esperado que o livro consistisse nos casos mais convincentes. Conseqüentemente eu acredito que seja válido examinar no que consiste a evidência apresentada neste livro, e extrair conclusões dele sobre o restante da pesquisa de Stevenson.

Comentários: Rockley comete diversos equívocos no parágrafo acima. Ele diz acreditar que os 14 casos são representantes do total da pesquisa de Stevenson, e ainda que seriam os casos mais convincentes. Nada mais longe da verdade. Nenhum dos 14 casos é representativo dos casos mais fortes registrados – ou seja, aquele que o próprio pesquisador chegou a tempo de investigar antes que as duas famílias envolvidas tivessem se conhecido, e onde pôde confirmar a extrema precisão das declarações fornecidas pela criança. Para piorar, esse livro de Stevenson contém diversas omissões (resumos) especialmente por se destinar ao público em geral (leigos). Conseqüentemente, os casos perdem bastante de sua força, o que facilitou o ataque do crítico. Material mais completo e de melhor qualidade, destinado ao publico acadêmico, encontra-se no livro Twenty Cases Suggestive of Reincarnation (1966-1974) e em alguns dos melhores artigos dele mais recentes, como o Three New Cases of the Reincarnation Type in Sri Lanka With Written Records Made Before Verifications (1988). Apenas como exemplos de acadêmicos elogiando o trabalho de Stevenson, a respeito do livro Twenty Cases, Lester S. King, o Redator de Revisão de Livros da JAMA: The Journal of the American Medical Association, escreveu que “a respeito da reencarnação [Stevenson] tem esmerada e impassivelmente colecionado uma série detalhada de casos da Índia, casos em que a evidência é difícil de explicar em qualquer outra base.” Ele também adicionou, “Ele registrou uma quantidade grande de dados que não pode ser ignorada.” Uma crítica mais recente (2005) e extremamente positiva de um dos livros de Stevenson, “Casos Europeus do Tipo Reencarnação”, foi publicada no American Journal of Psychiatry, outra revista pertencente ao mainstream científico.

 

Assim no que o livro consiste? Primeiro, fico impressionado pela integridade e honestidade de Stevenson, mas menos pelo seu rigor intelectual. Os 14 casos que ele cita não registram nada mais que anedotas: todo o “comportamento de vidas passadas” foi testemunhado antes de o autor ter encontrado qualquer um dos indivíduos e então a veracidade das histórias é difícil de determinar. Além do mais, nos capítulos posteriores Stevenson faz várias declarações e tira conclusões que em minha visão colocam em dúvida sua credibilidade e neutralidade. Estou ciente que Stevenson publicou muito mais trabalho que isto, mas acredito que os casos e os comentários neste livro são representantes do seu trabalho.

Comentário: O próprio crítico admite acima que nenhum dos casos pertence à categoria mais forte, e apesar de ciente que o trabalho de Stevenson é muito mais amplo, ainda assim insiste que os casos são representantes do seu trabalho. Quem é mesmo que está perdendo credibilidade aqui?

Como se não bastasse, Rockley classifica os casos de “anedóticos”. Os céticos assumem uma posição bastante peculiar sobre o que constitui evidência científica. Para eles, aparentemente, a evidência para ser chamada de “científica” deve passar por um limiar de confiabilidade, sendo este critério preenchido principalmente por relatórios sobre experimentos publicados em revistas e jornais. A evidência anedótica seria simplesmente muito fraca para ser admissível no tribunal da ciência, e julgam que nenhuma ciência pode usar histórias como prova porque elas são propensas a erros, distorções e falsificações retrospectivas. Esta não é apenas uma posição muito conservadora, é uma com a qual os filósofos e os historiadores da ciência contemporâneos dificilmente concordariam. Se seguirmos esse critério rigoroso e destituirmos toda a evidência anedótica, não só eliminamos as ciências sociais (especialmente aquelas que dependem da etnografia), mas também muito em medicina e nas ciências naturais (especialmente etologia, grande parte da geologia, biologia e astronomia, e, certamente, muito da psicologia clínica).

Os céticos parecem ignorar o fato de que alguns relatos são melhores do que outros. Assim como os tribunais não descartam todo testemunho humano, a ciência o usa e igualmente distingue o testemunho ocular de boatos, os especialistas das testemunhas comuns, e assim por diante. Em ciência, um relatório de observação de um evento incomum normalmente receberá mais peso caso se trate de um investigador experiente do que se de um novato, se houve múltiplos observadores ou apenas um. Anedotas não são todas cientificamente iguais e, certamente, não são todas igualmente descartáveis. Tudo isso para não dizer nada sobre as questões epistemológicas mais profundas, como o fato de que os relatos experimentais são eles próprios vulneráveis à maioria das críticas levantadas sobre o testemunho humano.

Além disso, Relato de Casos Anedóticos não é a mesma coisa que Estudo de Casos. E mero Estudo de Casos não é a mesma coisa que Estudo de Casos com Tentativa de Controle de Variáveis Envolvidas e Tentativa de Avaliação Quantitativa. Os estudos CORT (Cases of the Reincarnation Type, ou “Casos do Tipo Reencarnação”) não estão incluídos na primeira categoria (que é a mais fraca). Os estudos CORT também não estão incluídos na segunda categoria (de força mediana). Eles fazem parte do terceiro grupo, que possui força bem superior: Estudo de Casos com Tentativa de Controle de Variáveis Envolvidas e Tentativa de Avaliação Quantitativa.

 

Os 14 casos 

Antes de eu pegar o livro, eu me perguntava como Stevenson asseguraria que as histórias eram genuínas. Eu imaginava que ele tinha pesquisado algumas crianças aleatoriamente, visto se qualquer uma delas se lembrava de uma vida anterior, e então acompanhado. Parecia o tipo de coisa a se tentar, e pensei que devia ser algo como isso. Então como comecei a ler os casos eu fiz notas sobre quando o autor tomou conhecimento do caso pela primeira vez. Eu logo abandonei nessa idéia porque, como descobri, o autor não se envolveu em nenhum destes casos até algum tempo depois considerável que as crianças foram informadas como se lembrando de suas vidas anteriores. Assim eram todos apenas anedotas, embora bem documentadas e referenciadas. Era menos do que eu tinha esperado.

Comentário: Além de continuar a ignorar a existência de casos em que o investigador chegou a tempo de investigá-los antes que as famílias envolvidas tivessem tido conhecimento uma da outra, e em que pôde confirmar as declarações da criança, Rockley insiste em tratar anedotas bem documentadas e referenciadas como meras anedotas. Não são. Mesmo céticos como Ray Hyman estão dispostos a aceitar a observação em ambientes não laboratoriais desde que se tratasse de observação sistemática que seguisse protocolos padronizados.

A própria metodologia que Rockley sugere beira o absurdo, sendo inviável na prática. Na Índia, apenas cerca de uma a cada 500 crianças se lembra de uma vida anterior. Se Stevenson levou 40 anos para estudar 2.500 casos usando sua metodologia, a metodologia de Rockley só lhe permitiria estudar 5.

 

De qualquer jeito, dos 14 casos: 

a. Três eram não resolvidos (i.e., a identidade da “vida anterior” era desconhecida)

b. Nove foram resolvidos, mas a pessoa da vida anterior teve (ou podia ter tido), algum contato com a família da criança

c. Dois foram resolvidos, e as famílias aparentemente não tiveram nenhum contato. 

Para mim, os casos “não resolvidos” não valem nada. A criança poderia estar fantasiando, poderia estar repetindo o que ela ouviu na TV ou rádio, ou poderia haver outras explicações que não envolvem reencarnação.

Comentário: A afirmação de Rockley é extrema. Mesmo os casos “não resolvidos” possuem um valor intrínseco, pois um quadro coerente de memórias de adultos de vidas passadas ainda emerge deles. Um caso pode permanecer não resolvido por muitas razões, sendo que apenas uma delas corresponde à fantasia. Os sujeitos de casos não resolvidos mencionaram o nome da pessoa anterior significativamente menos do que os sujeitos de casos resolvidos. O fato de que nomes normalmente são exigidos para resolver um caso certamente contribuiu para que estes casos ficassem sem solução. Além disso, alguns casos não resolvidos incluem declarações verificadas, inclusive exibindo informações paranormais relativas ao local, idioma ou outros aspectos da vida anterior. Sobre a possibilidade de captação de informações por meio de rádio e televisão, em Vinte Casos Stevenson escreveu em que “os rádios são quase completamente desconhecidos nas aldeias da Índia e do Ceilão, e a televisão está apenas no início, mesmo nas grandes cidades.”

 

Os nove casos resolvidos com contato são interessantes. A identidade da vida anterior foi confirmada, e freqüentemente a criança foi reportada como sabendo informações sobre a pessoa morta, a sua família, o modo de morte etc. No entanto, há claramente outro meio em que a criança podia ter conseguido esta informação. Estes casos são mais interessantes, em minha visão, em demonstrar o desejo forte que o autor tem em provar uma conexão reencarnatória. Discutirei quatro desses nove casos, e também sobre os dois casos resolvidos sem nenhum contato (que devem ser os mais fortes em favor da hipótese de reencarnação).

Primeiramente, aqui estão quatro dos casos com uma conexão familiar. Forneço descrições muito breves – o livro naturalmente tem muito mais. 

Corliss Chotkin Jr 

Numa comunidade que acredita em reencarnação, um homem idoso conta a sua sobrinha que ele renascerá como seu filho. E aí, pronto, ela tem um filho que ela alega ser seu tio renascido, com as marcas de nascença nos mesmos locais que as cicatrizes do seu tio. No entanto, na época em que Stevenson “examinou pela primeira vez estas marcas de nascença, ambas tinham mudado de lugar.”

Isto é ilusão da parte da mãe. Também, uma indicação aparente da ingenuidade no autor, aceitando que as marcas de nascença tinham se “movido”.

Comentário: Rockley parece pensar que marcas de nascença são imóveis, numa clara demonstração de ignorância. Stevenson acompanhou as crianças crescerem e verificou a mudança de localização das marcas em muitos casos. Rockley parece também possuir o dom da onisciência para afirmar com tanta convicção que a mãe é vítima de auto-ilusão.

 

Gillian e Jennifer Pollock 

Duas meninas gêmeas (de seis e onze anos) foram mortas tragicamente. O pai era um crente forte em reencarnação, e estava seguro que elas renasceriam através de sua esposa como gêmeos. Os gêmeos nasceram, e entre as idades de 2 e 4 anos, começaram a fabricar declarações sobre as suas irmãs falecidas.

Como o pai acreditava que os gêmeos eram reencarnações de suas irmãs mortas, é possível que falasse sobre isso na frente das meninas quando bebês. É também possível que os amigos e a família falassem sobre a morte trágica das duas meninas anteriores. Apenas surpreende que as meninas sejam informadas ter conversado sobre as suas “vidas anteriores”. Os pais também podiam estar interpretando demais as declarações dos gêmeos, ou podiam estar mentindo. Nós nunca saberemos.

Comentário: Rockley omite o fato de que a mãe era fortemente contrária à ideia de reencarnação, e ainda assim sua versão dos fatos foi essencialmente a mesma. Ela sequer esperava que estivesse trazendo gêmeos, uma vez que o obstetra afirmou ter ouvido apenas um coração. E ao nascerem, as meninas, embora gêmeas idênticas, exibiam marcas de nascença completamente diferentes, o que por si só é notável, já que tais diferenças entre gêmeos idênticos parecem ser muito raras. Mais do que isso, as marcas lembravam sinais e machucados que as gêmeas falecidas exibiam antes do episódio que as vitimou (as gêmeas renascidas não exibiram nenhuma marca relativa às suas trágicas mortes na vida anterior, contudo). Enfim, embora Rockley avise que iria fornecer resumos muito breves, a maneira de Rockley narrar o caso é muito enganadora.

 

Michael Wright 

Uma jovem menina tem um namorado de infância que morre numa batida de carro. Ela iria se casar com ele, mas por causa do acidente, casou-se com outra pessoa. Ela então tem uma criança que ela pensa ser a reencarnação de seu namorado. (Sonhou com ele um ano depois da sua morte, o que Stevenson chama como um “sonho anunciador”.) A mãe da criança e a avó acreditam fortemente em reencarnação, e elas são as únicas que testemunharam a criança “lembrar-se” da sua vida anterior.

Isto nos diz mais sobre o desejo da mulher para com o rapaz morto, e seu relacionamento com seu marido real, do que sobre reencarnação. O que é mais importante, também nos diz muito sobre a credulidade de Stevenson. Uma colega dele, a Dra. Emily Kelly, aparentemente concorda comigo aqui. Para crédito de Stevenson ele cita a opinião dela: 

“Ela acha bastante plausível que algum motivo mais benigno, tal como uma nostalgia ou um desejo por um amor do passado, possa ter levado (a mãe) a encorajar sua identificação do filho com (o namorado) e ter extraído mais das suas declarações do que se podia” 

Sem brincadeira! A frase “possa ter” indica isto não é prova de reencarnação. 

Comentário: Ver comentário abaixo.

 

Hanumant Saxena 

Uma mulher indiana sonhou que um homem recentemente morto da sua aldeia apareceu a ela e disse, “venho a você”. A mulher deu à luz uma criança que teve uma marca de nascença coerente com onde este homem tinha sido baleado. Muitos dos aldeãos começaram a dizer que a criança era o homem baleado renascido “antes mesmo (de a criança) ter começado a falar sobre a vida (do homem morto)”. Presumivelmente os pais da criança falaram sobre isso também, embora não haja registro disso no livro.

 Pensamento fantasioso outra vez: A criança provavelmente ouviu as pessoas conversando sobre a sua “vida anterior” (outra vez). Stevenson conclui dizendo: 

“Um cético diria que seus pais… impuseram esta identificação nela. Ache esta soma combinada de interpretações pesada e não satisfatória, mas eu não posso negar que tem uma certa plausibilidade.” 

Novamente, se essa explicação é “plausível”, isto não é prova de reencarnação. 

Comentário: Stevenson nunca afirmou que os seus casos “provam” a reencarnação, pois, como em quase tudo nessa área, temos de lidar com probabilidades, ou melhor: com uma tentativa de estimar as probabilidades, de um modo intuitivo. A mãe teve um “sonho anunciador” que identificou a pessoa que se trataria da vida anterior de seu filho. Seu filho nasceu com uma marca de nascença que correspondia em localização ao ferimento fatal de sua vida anterior (Stevenson obteve um relatório post-mortem que lhe permitiu averiguar isso). A criança ainda exibiu memórias dessa vida anterior. Stevenson, em Vinte Casos, informa que “com exceção de crianças em casos do tipo reencarnação, eu nunca soube de criança alguma que se identificasse de tal modo com outra personalidade, que chegasse a afirmar, durante um longo período de tempo, crer numa unidade da sua personalidade com outra, como o fazem muitas das crianças que alegam ter vivido antes. Isso realmente ocorre com pacientes adultos psicóticos que por vezes afirmam outras identidades. Mas psicoses de qualquer espécie são extremamente raras em crianças, e a identificação falsa com uma outra pessoa parece ainda mais rara. Discuti essa questão com dois psiquiatras de crianças, um particularmente especializado em esquizofrenia infantil. Nenhum deles jamais havia ouvido falar em algum caso em que a criança afirmasse ser uma outra pessoa. As crianças, em verdade, ocasionalmente identificam-se por curto tempo, com outras pessoas ou animais, quando brincam, e algumas crianças psicóticas identificam-se com máquinas. Mas não descobri nenhum caso na literatura psiquiátrica, de alegações prolongadas de uma outra identidade, por parte de crianças fora as dos casos sob discussão aqui”. Isso por si só faz com que esse caso se constitua, a meu ver, em justa “aparente anomalia”. Somadas todas as suas características, não parece razoável que se veja esse caso como confortavelmente explicável pelo que é aceito pelas correntes mais predominantes da ciência atual

 

Casos resolvidos sem nenhum contato 

Então vamos aos dois casos resolvidos onde as duas famílias não tiveram nenhum contato. O primeiro, na Índia, Gopal Gupta de dois anos de idade começa a lembrar-se de detalhes da sua vida prévia numa aldeia próxima. Os detalhes incluem a criança comportando-se como se fosse de uma casta mais alta que a da sua família atual. Ele também (mais tarde), sabe de detalhes de como um sócio de negócios tinha sido baleado até a morte, de outra família e de detalhes do negócio que mais tarde foram confirmados pela outra família.

No segundo caso, um rapaz libanês, Suleyman Andary, começou a sonhar com uma vida anterior. Alguns exemplos aparentemente notáveis de comportamento começaram quando a criança tinha 11 anos, onde agia como um adulto, e lembrou certos aspectos da sua vida anterior. Ele foi capaz de fornecer os nomes da maioria dos seus filhos e outros aspectos de sua vida anterior. No entanto, quando ele foi à aldeia atual ele pareceu “tímido e inibido” e não reconheceu os seus “filhos” nem as fotografias das pessoas em “sua família”. 

Os problemas com estes dois casos 

Aceitando-se os casos de boa fé, eles inicialmente parecem convincentes. Tenho alguns problemas com eles, entretanto, a saber: 

a. São anedotas. No primeiro, Stevenson não participou até que a criança tivesse 13 anos e no segundo até que a criança tivesse 14 (11 anos depois da primeira “lembrança” no primeiro caso, desconhecido no segundo mas provavelmente sete ou oito anos depois). Praticamente tudo já havia sido observado (por outros) na época em que Stevenson apareceu em cena, logo há muito espaço para invenção, interpretação errônea, exagero e realce das histórias. Simplesmente não sabemos o que realmente aconteceu, e nunca vamos saber.

Comentário: A maioria das pessoas que tenta menosprezar as evidências de Stevenson, criticando suas pesquisas, ignora os diversos procedimentos considerados válidos para maximizar a confiabilidade dos relatos e da investigação em si. Com Rockley não é diferente. Entre tais procedimentos podemos citar a permanência prolongada no campo; a “checagem pelos participantes”, o questionamento por pares, a triangulação e a análise de hipóteses rivais e de casos negativos. Stevenson adotou todos eles em suas pesquisas, fazendo sua investigação sistemática e meticulosa. O coração de seu método é a entrevista, e ele é perito nesta área. No início de sua carreira, escreveu um livro didático para psiquiatras, The Diagnostic Interview (A entrevista para o diagnóstico), baseado nos métodos utilizados pelos advogados para reconstituir eventos do passado e apresentá-los como provas num tribunal. Múltiplas entrevistas são a chave do processo. E, sob o escrutínio tão rigoroso de um entrevistador profissional, é inconcebível que qualquer pessoa, principalmente os simples habitantes de pequenos vilarejos, consigam ocultar um embuste ou fazer com que exageros e fantasias sejam vistos como fatos.

Quando Stevenson começa a investigar um caso, sempre visita a criança e a família em casa, e também pessoas próximas a ela. Documenta e compara quaisquer afirmações ou comportamentos que a criança tenha demonstrado antes que o caso se tornasse conhecido. Para ser promissor, o caso deverá conter informações suficientes para a identificação do morto que ela afirma ter sido. Ian chega de surpresa à vila do morto e conduz uma nova série de entrevistas. Anota tudo o que pode descobrir sobre a vida dele e as circunstâncias de sua morte e, depois, compara-as com as afirmações e os comportamentos da criança. Se um sinal de nascença estiver presente, ele o fotografa e tenta localizar relatórios de julgamentos e autópsias ou boletins médicos sobre o morto.

Enquanto continua com a coleta de fatos, o pesquisador se dedica com afinco a descobrir quaisquer outras explicações diferentes da reencarnação para o que a criança disse e fez. Considera as maneiras normais que poderiam levar a criança a saber de detalhes da vida do morto, como o fato de ter ouvido conversas de adultos. Está sempre alerta para embustes, auto-ilusão ou exagero das famílias. Quando a única possibilidade que persiste é a reencarnação, Stevenson relata e publica o caso. Em cada um dos relatórios, descreve detalhes do processo e ressalta os possíveis problemas de cada caso, discutindo como as memórias poderiam ser explicadas de maneira normal. Fiel ao seu caráter de estudioso, Ian jamais chegará ao ponto de afirmar ter comprovado a reencarnação. Como repetiu inúmeras vezes, não está tentando provar nada. Seu objetivo é fornecer evidências da mais alta qualidade e com a maior objetividade possível. Ele nos estimula a tirar nossas próprias conclusões.

 

b. Ambos ocorrem em comunidades que acreditam em reencarnação, e onde o pensamento crítico (podemos dizer), não é colocado em primeiro lugar. A chance para a auto-ilusão é alta.

Comentário: Rockley está sendo preconceituoso aqui. Há sim pensamento crítico nas comunidades que acreditam em reencarnação. A pesquisadora Anne Bennett, em seu artigo Reincarnation, Sect Unity, and Identity Among the Druze (2006), informa que entre os drusos “mesmo os céticos mais dogmáticos tiveram que rever sua posição sobre a reencarnação devido a experiências que tiveram que eram difíceis de explicar. Em tais casos, os indivíduos tinham sempre o cuidado em fornecer uma prova irrefutável de que alguém que alegava ser um ente querido reencarnado de fato o era. O fornecimento de provas é uma parte essencial de todas as histórias drusas de reencarnação, e geralmente assumem a forma de algum conhecimento íntimo da família revelado por um sujeito que afirma ser um parente reencarnado, conhecimento esse só sabido a um ou dois íntimos da família e ao membro falecido. [...]. Mas a aceitação de tal testemunho não é sempre imediata. Nem os encontros que ocorrem são acontecimentos festivos necessariamente; mais ocasionalmente, são ocasiões tensas, com emoções misturadas. Assim, os drusos possuem uma variedade de reações com relação à reencarnação: desqualificação, ceticismo, crença relutante, e aceitação (ênfases minhas).

 

c. Suleyman Andary só começou com suas fortes memórias de vidas anteriores quando tinha 11 anos de idade. Em todos os outros casos (e acredito que na maioria dos casos estudados de Stevenson) a criança lembra-se de coisas de ao redor de dois anos velho mas os esquece por volta dos 11. Isto não desmente reencarnação, mas é estranho que os únicos dois casos fortes no livro contradigam a tendência. Torna possível que haja outra solução, em minha visão.

d. A comunidade libanesa drusa de Suleyman Andary acredita que quando você morre renasce no mesmo instante – seu espírito não paira no limbo nem mesmo um dia. No entanto, sua pessoa prévia morreu 12 anos antes dele “renascer”. Como explicaram isto? A criança disse que ela reencarnou numa vida intermediária nos 14 anos perdidos, embora ele convenientemente não possa nos dizer nada sobre esta vida. Então se espera que acreditemos que ele não pode lembrar-se de uma vida anterior, mas pode se lembrar de uma antes da vida anterior. Não muito convincente. Uma solução mais prosaica é que ele de algum modo soube sobre a vida do rapaz que morreu 12 anos antes de ele nascer, e teve que inventar a reencarnação intermediária para fazer isto se encaixar.

e. Gopal Gupta teve uma vida intermediária também – em Londres, na Inglaterra. Mesmo Stevenson conclui que isto é “ao menos em parte uma fantasia”, mas ainda aceita os detalhes da vida anterior muito melhor lembrados antes desta “fantasia”. Por quê?

f. Em 13 dos 14 casos a vida anterior vivia na mesma comunidade que a da vida atual. Um indiano lembra-se da vida anterior como um indiano, etc. Embora isto não desminta a reencarnação, eu acho estranho que o mundo espiritual só permita às almas retornarem à mesma área geográfica asperamente (embora às vezes numa casta mais baixa). Na minha visão isto mostra que alguma outra força mais provável está atuando. Eu ficaria mais impressionado se uma criança (digamos) numa remota aldeia indiana lembra-se de detalhes de sua vida anterior como (digamos) um rapaz surfista na Califórnia, com tudo que isso implicaria. E por que tanto na mesma família? Parece um pouco conveniente demais.

Comentário: Outra visão deturpada da pesquisa de Stevenson devido à leitura de um único livro. A maior parte dos casos de Ian Stevenson não ocorreu na mesma família. Uma vez que seu maior interesse está na coleta de provas que se sustentem diante de um exame crítico feito pela comunidade científica, ele preferiu os casos em que pode demonstrar não ter havido nenhum contato entre as duas famílias envolvidas. Isso facilita a comprovação de que a criança não está apenas repetindo algo que tenha ouvido. Ainda assim, ele descobriu que casos na mesma família são comuns, e há vários deles em seus artigos e publicações.

 

A exceção foi a menina burmesa que se lembra da vida como um soldado japonês. Entretanto, este foi um caso não resolvido, e absolutamente não muito convincente em minha opinião.

Comentários: Casos de reencarnação internacionais são dificílimos de resolver. De fato, ainda estamos em busca do primeiro! No entanto, há muitos casos de crianças que se lembram de vidas passadas em outros países e que adotam comportamentos condizentes com os daquele país. Por exemplo, há o caso de uma menina indiana que alegou ter vivido anteriormente na Inglaterra e que por isso não podia se ajustar a sua vida presente – ela preferia carne em vez da dieta vegetariana de sua família atual e para comer faltava-lhe um garfo e uma faca (ver Nature 227, 1293-1293, 26 Sep 1970, New World).

 

Conclusão 

Claramente estes casos não podem ser desmentidos. Mas aplicando a Navalha de Occam eu acredito que haja soluções mais prosaicas que a reencarnação, especialmente quando se considera o aparente sistema de crença de Stevenson.

Comentário: A navalha de Occam consiste em tentar cortar os excessos de premissas sem prejudicar a consistência teórica em explicar mais eficientemente todos os dados coletados. Rockney, como demonstrado, sequer conhece todos os dados coletados para poder aplicar a navalha.

6 respostas a “Refutação da crítica de Richard Rockley à pesquisa de Ian Stevenson (2013)”

  1. NVF Diz:

    Só se recusam as evidências do trabalho de Ian como científicas por mera crença materialista, orgulho acadêmico e incapacidade de abstração*.
    .
    *Por incapacidade de abstração, entenda-se a alta dificuldade de se enxergar o mundo de forma diferente do que se aprendeu; por exemplo, reduzir todo o mundo real às leis da física conhecidas hoje.

  2. Sanchez Diz:

    Vitor
    .
    Muito bom o artigo. Seus comentários estão bem mais coerentes com o paradigma da pesquisa de Stevenson do que Richard Rockley que alias não comenta o livro vinte casos curioso, não?
    .
    Sabe onde eu posso baixar esse livro “O Método nas Ciências Naturais e Sociais”, de Alda Judith Alves-Mazzotti e Fernando Gewandsznajder. Não consegui achar na net (no post do site o link está apagado) e tampouco na estante virtual.

  3. Vitor Diz:

    Sanchez,
    já inseri um novo link para o livro. Confere lá!

  4. Sanchez Diz:

    Vitor
    .
    Consegui baixar. Muito Obrigado pela atenção.

  5. SHELLDEI Diz:

    Vitor,cadê o link do livro que o Sanchez pediu?

  6. Vitor Diz:

    Aqui: https://mega.co.nz/#!0Vs0CTpT!V0R2V2bHtXiE_Y08-temSzTaYasEH_AFidVUn7sp6FY

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