Resenha do livro “religião Para Ateístas” (2012)

Foi lançado recentemente o livro Religion for Atheists (Religião para Ateístas, em tradução livre), de Alain De Botton. Apresento aqui uma resenha do livro por Everton de Oliveira Maraldi publicada no Boletim Academia Paulista de Psicologia, pelo fato do tema religião ser frequente nos comentários do blog.

Boletim Academia Paulista de Psicologia, v. 32, n° 83, 2012.

De Botton, Alain. (2012). Religion for Atheists: a non-believer’s guide to the uses of religion. New York: Pantheon Books, 320p.  

Everton de Oliveira Maraldi[1]

Instituto de Psicologia Universidade de São Paulo – USP 

É bastante comum entre os céticos e ateus militantes uma atitude desdenhosa frente às crenças e práticas religiosas, não raro envolvendo a tentativa (um tanto utópica) de supostamente eliminá-las ou impedir sua disseminação, mediante a estratégia de combater, em termos lógicos e racionais, suas doutrinas e princípios morais – a exemplo do que vemos em Deus: um delírio, de Richard Dawkins. Apesar da controvérsia e do burburinho instaurados pelas investidas agressivas desses autores, as religiões permanecem bem, obrigado. É até possível, como em diversas outras situações semelhantes, que o “tiro saia pela culatra” e acabe promovendo uma indesejada e não intencional propaganda das ideias religiosas, contra os próprios interesses dos que apertaram inicialmente o gatilho. A verdade é que muitos ateus atacam um inimigo que talvez não exista, pelo menos não do modo reducionista e particularizado como o concebem. Embora não desvalorizemos por completo o esforço de denunciar nas religiões tudo o que há nelas de desumano e patológico, não devemos negligenciar, por outro lado, como psicólogos e profissionais de saúde mental, o seu importante papel psicológico e social na vida de milhares de pessoas. Já não se trata apenas de questionar a veracidade dessas crenças, mantendo a questão em um nível puramente ontológico (embora esse aspecto não deva ser cientificamente menosprezado), mas principalmente de investigar seus usos e sentidos, isto é, os motivos e fatores psicossociais que fazem com que as religiões, ainda hoje, e a despeito de nosso mundo dito “secularizado”, sejam um campo altamente atrativo e reconfortante para indivíduos em diferentes circunstâncias e contextos socioculturais. Não é ocioso lembrar, como o fez Carl Jung, que um dos vários fundamentos da moderna psicoterapia remonta, historicamente, à prática cristã da confissão. Muito antes de havermos desenvolvido nossas técnicas de trabalho, eram certamente os clérigos e os xamãs que, sem a mesma sistematização e conhecimento de que dispomos, exerciam-nas já em proveito dos que delas necessitavam. Se quisermos (e pudermos) efetivamente nos desfazer dessas crenças e práticas algum dia, devemos ser capazes de reconhecer o que delas angariamos de benéfico em seu percurso histórico, e de respeitar e preservar tais contribuições.

É o que parece defender, com outras palavras, o escritor Alain de Botton em seu imaginativo, ricamente ilustrado e instigante livro Religion for Atheists. De Botton sugere que valorizemos nas religiões não suas doutrinas, mas sua sabedoria. A premissa central do livro é a de que é possível permanecer ateu e, no entanto, considerar as religiões “esporadicamente úteis, interessantes e consoladoras – e mostrar-se curioso quanto às possibilidades de se importar algumas de suas ideias e práticas para o mundo secular” (p. 12). Embora a abordagem do autor seja típica de um filósofo, acessando os assuntos, em cada capítulo, de modo amplo e especulativo, suas ideias tem clara influência psicanalítica esociológica, e conduzem o leitor de modo agradável ao longo das páginas – preenchidas, aqui e ali, por belas imagens relacionadas aos assuntos levantados.

É possível que o livro de De Botton provoque reações diversas em seus leitores. O próprio autor reconhece que os religiosos talvez se ressintam de seu discurso contrário à veracidade de suas doutrinas, ao passo em que os ateus porventura se revoltem contra sua atitude respeitosa ao Cristianismo, ao Judaísmo e ao Budismo, as três principais tradições abordadas no livro. A solução encontrada por De Botton é a de um caminho intermédio. Partindo de uma premissa claramente psicológica, ele defende que as religiões teriam sido criadas para servir a necessidades centrais da vida humana, como, por exemplo, a necessidade das pessoas de viverem juntas e manterem comunidades coesas eharmônicas (apesar de nossos instintos violentos e egoístas), e a necessidade de enfrentar graus excessivos de dor e sofrimento que surgem de nossa vulnerabilidade ao fracasso profissional, aos problemas de relacionamento e à morte de pessoas queridas. Estas eoutras funções das religiões são exploradas em detalhe pelo autor, ao longo de sua obra. Para ele, nosso mundo secular não tem nos preparado suficientemente bem para lidar com todas essas questões, e De Botton também investiga as razões disso. Deus pode estar morto para alguns, mas não os dilemas psicológicos e sociais que se acham na origem de diferentes religiões. De modo inverso ao discurso cético reinante, De Botton oferece um panorama inteligível e bem fundamentado dos motivos de se ter fé, deixando de lado a concepção das religiões como fenômenos inteiramente regressivos.

Cada capítulo é dedicado a uma virtude das religiões. De Botton inicia sua análise pela noção de comunidade. Ele explica que com o aumento populacional, e com o elevado número de pessoas vivendo nas grandes metrópoles, a sociabilidade foi prejudicada, e o contato com estranhos se tornou uma fonte de apreensão. A arquitetura das cidades é desenhada de tal modo, nas sociedades contemporâneas, que desvaloriza a reciprocidade entre as pessoas e o valor de cada uma no esquema geral das coisas, a não ser no sentido do mero compartilhamento de um espaço público, sem interatividade significativa. Ele também sustenta que os encontros em bares, restaurantes e eventos sociais diversos em nosso mundo secular ocidental não representam uma verdadeira comunidade, mas apenas dão continuidade a vínculos profissionais e pessoais particulares, novamente afastando estranhos de estranhos. A mídia funcionaria, por sua vez, como um grande mediador imaginário na relação com os outros, criando estereótipos e padrões de comportamento reproduzidos de modo alienante. Tomando a missa como modelo de comunidade, De Botton argumenta que nela todos compartilhariam um mesmo pecado, o pecado original, e suas dores e sofrimentos seriam simbolicamente partilhados, como parte da noção de uma humanidade falível. A caridade e a solidariedade são enfatizadas, ainda que nem todos a sigam com presteza, o que é compreensível, dada a falibilidade da condição humana. O tipo de amor valorizado aí é uma forma de amor universal, em contraste com a sempre egoísta e orgulhosa paixão romântica, que coloca no outro a responsabilidade por nossa própria felicidade. Nos rituais comunais, seria possível uma mediação psicológica entre os interesses dos indivíduos e da comunidade, ao contrário da ênfase no individualismo e na busca por sucesso profissional.

De Botton defende também que as religiões nos legaram importantes lições do ponto de vista educacional. Ele afirma que, em contraste com a ideologia liberalista, as religiões sempre se dispuseram a estabelecer padrões, códigos e normas de conduta específicas sobre como os indivíduos devem se comportar em sociedade. Embora nos vangloriemos dos ideais da democracia e da liberdade de expressão, vemo-nos em apuros, no instante seguinte, ao tentarmos impor algum limite aos nossos filhos quando agem de maneira considerada inadequada, ou quando tentamos impor a nós mesmos a dieta necessária para a nossa saúde ou o esforço de vontade para nos livrarmos de nossos vícios e hábitos insalubres. De Botton critica nossa presumida maturidade racional, lembrando-nos que, do ponto de vista emocional, guardamos conosco muitas das incertezas e vulnerabilidades da infância, havendo a necessidade de seguirmos modelos de referência comportamental, mesmo quando adultos. Segundo o autor, a lei e a polícia não seriam suficientes, porque permanecem em um nível concreto de julgamento e sanção, enquanto os modelos paternalistas religiosos foram além, monitorando também a vida íntima das pessoas. De Botton afirma que as religiões sabem que não basta acreditar no potencial humano para o crescimento e a autonomia; é preciso garantir isso constantemente, e daí a importância de mecanismos institucionais e ritualísticos capazes de avivar a todo o momento nossa memória, recordando-nos de nossos deveres, obrigações e ideais. Para o autor, “parece claro que as origens da ética religiosa repousam na necessidade pragmática das primeiras comunidades de controlar as tendências de seus membros para a violência, inspirando-lhes hábitos contrários de harmonia e perdão” (p. 79). De Botton argumenta, ainda, que teria sido crucial para essas comunidades a inconsciência acerca das origens dessas necessidades e do caráter artificial de suas construções mágicas e religiosas. Caso contrário, se soubessem de sua natureza puramente psicológica, elas não temeriam com tanto vigor seus deuses e criaturas infernais, nos quais depositaram sua crença, e que foram elaboradas no intuito de perpetuar um eficaz mecanismo subjetivo de controle moral. Na contramão dos princípios pedagógicos liberalistas, as religiões não temem ensinar às pessoas como agirem na vida e serem felizes por meio de seus sermões, exortações religiosas e técnicas meditativas e de controle mental.

Mas um dos insights mais importantes de De Botton se refere ao fato de que, tal mecanismo de controle atua não apenas internamente, como externamente, na arquitetura e outras formas de arte que perpassam o espaço público. As religiões reconheceram no uso da arte, há séculos, uma ferramenta indispensável de disseminação de suas doutrinas e práticas. Embora se diga que o espaço público nas sociedades seculares deve ser neutro, ele está, na verdade, bem longe de sê-lo. Ele é regularmente preenchido por anúncios em outdoors, logotipos de empresas e marcas de produtos. Ao invés de promover reflexão e crítica, o espaço público está saturado de chamarizes que nos tratam, quase exclusivamente, como consumidores e clientes. A propaganda sabe como se utilizar de diferentes mecanismos sensoriais e argumentativos para chamar a atenção das pessoas e fazê-las comprar mais, mas não sabemos como usar isso para promover uma melhor sociedade ou melhores indivíduos. Era o que se propunha a fazer, no entanto, a arte religiosa nos afrescos e nas construções de igrejas e templos, bem como nas imagens de santos e outras figuras metafísicas, transportadas para a casa do indivíduo ou para onde quer que fosse (como o exemplo do crucifixo).

O livro de De Botton é rico, ainda, em outros tantos insights, e não é nossa intenção esgotar aqui seus comentários, senão instigar o leitor a folhear as muitas páginas dessa interessante obra. Deve-se salientar, por outro lado, que a abordagem positiva de De Botton frente às religiões, conquanto represente uma benéfica compensação ao extremismo ateísta, pode acabar por gerar outra forma de exagero, a de idealizar as religiões, negando suas múltiplas manifestações concretas. Bem sabemos, e não são necessários maiores dados científicos para isso, que as religiões possuem também suas mazelas, e que os objetivos veneráveis a que se propõem, estudados em detalhe por De Botton, nem sempre são cumpridos por elas. Muitos movimentos religiosos recentes, bem como variações de tradições religiosas estabelecidas, têm inclusive cedido aos mesmos interesses individualistas e imediatistas a que a sociedade de consumo se devota frequentemente. É preciso assinalar, portanto, que o estudo das religiões exige maior complexidade teórico-metodológica, e que as opiniões de De Botton não deveriam ser apressadamente generalizadas a qualquer sistema de crença, a qualquer cultura e a qualquer momento histórico. A sugestão de De Botton de aprendermos com as religiões é válida, mas não podemos nos esquecer de que ela sempre passará pelo crivo de nossas categorias e interpretações seculares, não constituindo uma simples identificação dos melhores aspectos a serem aproveitados.




[1] Psicólogo, doutorando no programa de Psicologia Social do IP-USP, bolsista FAPESP (Processo n° 2011/05666-1, agradecimentos pela bolsa concedida), membro do Inter Psi – Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos Psicossociais da USP, Student Associate da Parapsychological Association (Estados Unidos). Contato: Rua José de Alcântara Machado Filho, n° 30, Jardim Guapira, São Paulo, SP. CEP: 02316-220 – Brasil. Tel: (11) 2242-2417. E-mail: [email protected]

8 respostas a “Resenha do livro “religião Para Ateístas” (2012)”

  1. Marco Diz:

    Poooxa, não resisto rsrsrsr — Se o que vamos aprender com as religiões deve passar “pelo crivo de nossas categorias e interpretações seculares”, porque não ficamos logo com as nossas “categorias e interpretações seculares”?

  2. Marciano Diz:

    Vitor, tu tá doido pra voltar a ser religioso, se é que não voltou, virou católico.
    Trocou seis por meia-dúzia.

  3. Marciano Diz:

    Prefiro mil vezes “Gos is not great”, de Christopher Hitchens.

  4. Marciano Diz:

    GOD is not great.

  5. Contra o Chiquismo. Diz:

    Quando vai ter cx de novo?

  6. João Panegalli Diz:

    O autor desse livro já palestrou no TED Talks, é só procurar por “Atheism 2.0″ no youtube

  7. martinez Diz:

    Eu não sou religioso gostaria até que, as religioes fossem banidas assim como foi no regime de Fidel Castro, desde 1992 as restrições foram flexibilizadas, mas entendo que a religião aqui no Brasil não dá para ser banida pois se tratando de Brasil aonde o povo em sua maioria é pobre e não tem, em muitos casos esperança de mudança alguma e aí a sua unica esperança passa a ser a religião, sem estrutura e ignorantes de certa forma nunca vão compreender um sistema aonde não exista um lugar aonde se fale de um Deus que vá trazer salvação. Pois um país que tem na sua população arraigado crenças muito antigas, como do tipo se vc fazer o mal vai para o inferno se for bom vai para o céu, imagine voces se a religião fosse extinta hoje o que iria acontecer? simples um exemplo, a maioria desses presidiários e ex presidiarios acreditam que só Deus deve julga-los e que se tem uma coisa em que ele deve se apegar é justamente nesse criador agora se vc tira isso deles simplesmente eles irão pensar, bom já que Deus não existe e se eu morrer não vou para lugar nenhum independente de fazer o mal ou bem então vou continuar fazendo tudo isso e pior, eu já presenciei vários ex presidiários que depois de tantos crimes diziam, agora Deus me libertou e eu frequento tal igreja, percebem como no Brasil é impossivel tirar a religião devido a falta de estrutura familiar e educação em nosso país?, então por isso eu concordo em parte com o texto, mas lembrando que eu gostaria que a religião não existisse e que se vc acredita em algo espiritual faça como gnosticismo que prega que cada pessoa deve chegar ao conhecimento por si mesma, mas um país defasado como esse sem chances.
    

    

  8. Antonio G. - POA Diz:

    De maneira geral, os crentes acreditam em Deus e adotam determinada religião pelos motivos errados, ou seja, porque têm medo e porque “negociam” o futuro de suas almas.
    É mais ou menos assim: “Eu acredito em Deus porque posso ser castigado por ele se não acreditar. Se eu vacilar em minha fé, coisas ruins poderão acontecer comigo e com minha família. Eu perderei a proteção divina e inviabilizarei a obtenção de um lugar no paraíso. Deus é um sujeito que tem carência afetiva, é vingativo e não tolera dissidências… Deus é F…”

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