ESPECIAL DE NATAL! Livro “Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental” (2008) – Capítulo 2

Neste capítulo, revela-se que a Igreja Católica foi a única luz que sobreviveu às constantes invasões bárbaras dos séculos IV e V e, nos séculos IX e X, às mais devastadoras ondas de ataques, desta vez dos vikings, magiares e muçulmanos.  Coube a ela reconstruir toda a civilização. A visão certeira e a determinação dos bispos, monges, padres, estudiosos e administradores civis católicos acabaram por salvar a Europa, que teria emergido em uma verdadeira Idade das Trevas sem a sua intervenção.

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Atenção: Isso não é uma defesa da Doutrina Católica. Não acredito que Maria pariu virgem ou que continuou assim após o parto; que Jesus multiplicou pães e peixes, etc. Também abomino a discriminação que é feita contra homossexuais (ao dizer que homossexualismo é pecado)  bem como a propaganda feita contra o aborto, ao não uso de camisinha e afins.

II.

UMA LUZ NAS TREVAS 

“IDADE DAS TREVAS” 

A expressão “Idade das trevas” chegou a ser aplicada a todo o milênio que transcorreu entre o fim da Antigüidade e o Renascimento. No entanto, tem crescido muito o reconhecimento das realizações da alta Idade Média, entre os séculos VI e X, e, em conseqüência – como comenta David Knowles –, os historiadores tem empurrado cada vez mais para trás essa duvidosa distinção, excluindo dela os séculos VIII, IX e X.

Quanto aos séculos VI e VII, porém, restam poucas dúvidas de que foram marcados por um retrocesso cultural e intelectual, como se pode observar na educação, na produção literária e em outros âmbitos semelhantes. Terá sido culpa da Igreja? Já há décadas, o historiador Will Duram, um agnóstico, defendeu a Igreja dessa acusação, atribuindo a causa do declínio, não a ela – que fez de tudo para impedi-lo –, mas às invasões bárbaras do fim da Antigüidade. “A principal causa do retrocesso cultural – explica Duram – não foi o cristianismo, mas a invasão bárbara; não a religião, mas a guerra. Os aluviões humanos arruinaram ou empobreceram cidades, mosteiros, bibliotecas, escolas, e tornaram impossível a vida dos estudantes e dos cientistas. Mas a ruína talvez fosse muito maior se a Igreja não tivesse mantido uma certa ordem em uma civilização que se desintegrava”[1].

Por volta dos fins do século II, a balbúrdia de tribos germânicas que se deslocavam da Europa central para o Ocidente, no que se chamou a Völkerwanderung – a “migração dos povos” –, começou a pressionar as fronteiras romanas no Reno e no Danúbio. Nos séculos seguintes, como os generais romanos se dedicavam a fazer e desfazer imperadores, ao invés de protegerem as fronteiras, os bárbaros começaram a infiltrar-se através dos vazios abertos nas defesas do Império. Essas invasões apressaram o colapso de Roma e puseram a Igreja diante de um desafio sem precedentes.

O impacto das invasões bárbaras sobre o Império Romano variou de acordo com cada tribo germânica. Os godos, que tinham sido autorizados a estabelecer-se dentro das fronteiras do Império em 376, mas se revoltaram contra as autoridades imperiais em 378, não eram hostis aos romanos, antes respeitavam e admiravam Roma e a cultura clássica: Alarico, o general godo que viria a saquear Roma em 410, depois de tomar Atenas, dedicou-se a explorar a famosa cidade, a admirar os seus monumentos, a assistir ao teatro e a ouvir a leitura do Timeu, de Platão[2]. Já os vândalos nutriam uma inimizade implacável por tudo o que não fosse germânico: saquearam a cidade de Roma em meados do século V e depois conquistaram o norte da África, instaurando ali uma autentica política de genocídio.

Quando a divisão do Império Romano do Ocidente em uma colcha de retalhos de reinos bárbaros passou a ser um fato consumado e a ordem política quase desapareceu, bispos, sacerdotes e religiosos lançaram-se a restabelecer sobre as ruínas os alicerces da civilização. O homem que consideramos o “pai da Europa”, Carlos Magno, embora não estivesse completamente livre de resquícios bárbaros, estava ao menos tão persuadido da beleza, verdade e superioridade da religião católica que fez todo o possível para construir sobre ela a nova Europa pós-imperial.

A CONVERSÃO DOS PRIMEIROS BÁRBAROS  

Os “bárbaros” que tomaram o Império eram povos rurais ou nômades, de língua germânica, sem literatura escrita e com pouca organização política afora a lealdade a um chefe. De acordo com algumas teorias etimológicas, romanos e gregos, ao ouvirem as línguas desses povos, só entendiam “bar bar bar”, e por isso os apelidaram de barbari. Na sua maioria, eram também guerreiros, e a sua ferocidade chocava os romanos já cristianizados. No dizer de Christopher Dawson. “a Igreja teve que incumbir-se da tarefa de introduzir a lei do Evangelho e a ética do Sermão da Montanha entre povos que consideravam o homicídio como a mais honrosa das ocupações e a vingança como sinônimo de justiça”.

Quando os visigodos saquearam Roma, em 410, São Jerônimo, que se encontrava em Belém, manifestou-se profundamente triste e chocado: “Um terrível rumor chega do Ocidente. Roma está cercada. Os cidadãos salvam a vida a troco de ouro, mas, depois de espoliados, voltam a ser sitiados e perdem a vida depois de lerem perdido as riquezas. Não consigo continuar, os soluços interrompem o meu ditado (ao amanuense que escreve a carta). Foi tomada a Cidade que tomou o mundo inteiro!”[3] E Santo Oríêncio. bispo de Auch, escreveu na primeira década do século V sobre a invasão da Gália pelos francos: “Vede como a morte se abateu de repente sobre o mundo inteiro, quantas pessoas foram ceifadas pela violência da guerra. Nem as densas e selvagens florestas, nem as altas montanhas, nem os rios que se lançam impetuosamente pelas corredeira», nem as fortalezas nas remotas alturas, nem as cidades protegidas pelas suas muralhas, nem os confins do mar, nem a triste solidão do deserto, nem os buracos abertos no chão, nem as cavernas sob os íngremes rochedos conseguiram escapar aos ataques bárbaros”[4].

Os francos que se instalaram na Gália (a atual França) eram o mais numeroso desses povos. Ao contrário da maior parte das tribos vizinhas, não se tinham convertido ao arianismo – a heresia que negava a divindade de Cristo, reduzindo-o o um “espírito superior” ou “primeira criatura” de Deus –, e por isso pareciam mais inclinados a receber a fé. Além disso, os galo-romanos cristãos ainda constituíam a imensa maioria dos seus súditos. Assim, quando Clóvis (cerca de 466-511) se tornou rei dos francos, em 481, os bispos gauleses vislumbraram a sua oportunidade. São Remígio, bispo de Reims, escreveu uma carta de congratulações ao novo rei, lembrando-lhe como seria benéfico se colaborasse e cooperasse com o episcopado: “Manifesta deferência para com os teus bispos, recorrendo sempre a eles em busca de conselho. E, se estiveres em harmonia com eles, a tua terra prosperará”. Efetivamente, sob o seu reinado, os gauleses foram equiparados aos seus conquistadores germânicos quanto a direitos e deveres, ao contrário do que aconteceu nos demais reinos bárbaros.

Alguns historiadores conjecturaram que o casamento de Clóvis com a bela, piedosa e católica Clotilde teria sido inspirado e arranjado pelos bispos, visando converter à fé o seu régio esposo. Embora as considerações políticas tivessem certamente desempenhado o seu papel, Clóvis parece ler tido uma conversão genuína, motivado pelo que ouviu sobre a vida de Cristo: conta-se que, quando lhe relataram a crucifixão, teria exclamado: “Ah, se eu tivesse estado ali com os meus francos!” Tardou uns três a quatro anos, mas finalmente recebeu o batismo, provavelmente em 496. Segundo São Gregório de Tours, o bispo São Remígio ter-lhe-ia dito antes de batizá-lo: “Abaixa a cabeça, ó sicâmbrio! Adora o que queimaste e queima o que adoraste”.

Ainda haviam de passar outros quatrocentos anos até que todos os povos bárbaros da Europa Ocidental se convertessem, mas era um início auspicioso. Santo Avito, um destacado bispo gaulês, reconheceu a importância da conversão de Clóvis quando lhe disse: “Graças a ti, este canto do inundo resplandece com grande fulgor e a luz de uma nova estrela cintila no Ocidente. Ao escolheres para ti mesmo, escolheste para todos. A lua fé é a nossa vitória!”

Como os povos bárbaros se identificavam fortemente com os seus reis, em geral bastava que o monarca se convertesse para que todo o povo o seguisse. Esse processo, no entanto, nem sempre se implantava facilmente nem era homogêneo; nos séculos seguintes, os sacerdotes católicos francos celebravam a missa para os seus, mas continuavam a oferecer também sacrifícios aos antigos deuses da natureza. Não bastava, pois, converter nominalmente os bárbaros: a Igreja teve que continuar a guiá-los, tanto para garantir que a conversão se consolidasse como para assegurar que a fé começasse a transformar-lhes o modo de vida e as instituições.

A linhagem dos reis merovíngios, à qual pertencia Clóvis, perdeu o seu vigor ao longo dos séculos VI e VII. Eram governantes incompetentes e, além disso, lutavam ferozmente entre si; não era incomum que queimassem vivos os membros de famílias rivais. No transcorrer das suas lutas pelo poder, muitas vezes concediam aos aristocratas francos poder e territórios em troca de apoio, e em conseqüência enfraqueciam-se cada vez mais. O historiador Nurman Cantor chegou a descrevê-los na sua última fase como um conjunto de mulheres, crianças e débeis mentais.

Infelizmente, a degenerescência dos merovíngios afetou também a Igreja. No século VII, os sacerdotes francos, infectados pela depravação e imoralidade, foram caindo numa situação cada vez mais desesperadora. O estado do episcopado não era muito melhor, pois os homens competiam entre si para assumir o controle dos bispados, que para eles representavam unicamente poder secular e riqueza. A Igreja franca só seria reformada por missionários irlandeses e anglo-saxões, que por sua vez tinham recebido a fé católica do continente.

Apesar de tudo, no século VIII o Papado recorreu aos francos em busca de proteção e de uma aliança que permitisse restaurar a civilização cristã. A Igreja tinha desfrutado de um relacionamento especial com os últimos imperadores romanos e, após o colapso do Império Romano do Ocidente, mantivera esse bom relacionamento com a única reminiscência da autoridade “romana”, que passara a ser o imperador do Oriente, em Constantinopla. Mas, no século VII, o Império do Oriente – que nunca chegou a ser conquistado pelos bárbaros germânicos – vinha lutando pela sua própria sobrevivência contra os árabes e os persas, e deixara de poder oferecer à Igreja uma proteção eficaz; pior ainda, os basileus bizantinos julgavam-se no dever de intervir constantemente na vida da Igreja em áreas que estavam claramente fora da competência do Estado. Assim, alguns eclesiásticos acharam que linha chegado o momento de procurar ajuda em outro lugar.

A RENASCENÇA CAROLÍNGIA  

A Igreja tomou então a importante decisão de afastar-se dos imperadores de Constantinopla e procurar a proteção e cooperação dos francos, que, ainda semi-bárbaros, se haviam convertido ao catolicismo. No século VIII, a Igreja abençoou a transferência oficial do poder da dinastia merovíngia para a família carolíngia: a família de Carlos Martel – que, em 732, havia infligido a famosa derrota aos muçulmanos em Tours – e de Carlos o Grande, ou Carlos Magno, que viria a tornar-se o pai da Europa.

Os carolíngios tinham sabido beneficiar-se do declínio dos merovíngios. Avocando para si o posto hereditário de prefeito do palácio – um cargo semelhante ao de primeiro ministro –, e demonstrando-se muito mais hábeis e competentes que os próprios reis, vinham resolvendo cada vez mais os assuntos ordinários de governo, a tal ponto que, em meados do século VIII, já na posse do poder exercido pelos reis, procuraram alcançar o título correspondente. Pepino o Breve, o prefeito do palácio em 751, escreveu ao papa Zacarias I perguntando-lhe se era bom que um homem sem poder fosse chamado rei, e um homem com poder estivesse privado desse título. Entendendo muito bem aonde Pepino queria chegar, o papa respondeu-lhe que a situação que descrevia não era boa e que os nomes das coisas deveriam corresponder à realidade. Desse modo, fazendo uso da sua reconhecida autoridade espiritual, deu a sua benção à mudança de dinastia no reino dos francos. O último rei merovíngio retirou-se silenciosamente para um mosteiro.

Foi assim que a Igreja facilitou a transferência pacífica do poder dos decrépitos merovíngios para as mãos dos carolíngios, com os quais, nos anos seguintes, os eclesiásticos viriam a trabalhar tão intimamente para a restauração da vida civilizada. Sob a influência da Igreja, esse povo bárbaro converteu-se em construtor da civilização. Carlos Magno (rei 768-814), talvez o maior de todos os francos, personificou esse Ideal. (Com as anexações territoriais que fez, o reino franco estendeu-se da assim chamada Marca Espanhola, a leste, através da Fiança dos tempos modernos, até ao norte da Itália, à Suíça e a grande parte da Alemanha). Embora não soubesse escrever – ainda que uma lenda popular, claramente apócrifa, o apresente corrigindo traduções bíblicas no último ano da sua vida –, fomentou vigorosamente a educação e as artes, solicitando aos bispos que organizassem escolas ao redor das suas catedrais. Como explica o historiador Joseph Lynch, “a escrita, as cópias de livros, os trabalhos artísticos e arquitetônicos e o pensamento dos homens educados nas escolas das catedrais ou monásticas incentivaram uma mudança na qualidade e na intensidade da vida intelectual”[5].

O resultado desse estímulo à educação e às artes é conhecido como Renascença Carolíngia, e estendeu-se do reinado de Carlos Magno ao de seu filho, Luís, o Piedoso (rei 814-840). Talvez a figura intelectual central da Renascença Carolíngia tenha sido Alcuíno (cerca de 755-804), um anglo-saxão educado em York por um pupilo de Beda o Venerável, o grande santo e historiador eclesiástico, uma das maiores inteligências do seu tempo. Alcuíno era o diretor da escola da catedral de York, e mais tarde tornou-se abade do mosteiro de São Martinho de Tours. Além de dominar uma grande variedade de assuntos, também se destacava como professor de latim, tendo assimilado as bem-sucedidas técnicas dos seus predecessores irlandeses e anglo-saxões. Ensinar ao povo germânico um latim gramaticalmente correto – habilidade difícil de adquirir durante os instáveis séculos VI e VII – foi um elemento essencial da Renascença Carolíngia.

O conhecimento do latim tomou possível o estudo tanto dos Padres da Igreja latinos como do mundo da antigüidade clássica. Com efeito, as mais antigas cópias da literatura romana que chegaram até nós datam do século IX, período em que os estudiosos carolíngios resgataram essas obras do esquecimento. “As pessoas nem sempre são conscientes – escreveu Kenneth Clark – de que exislem apenas três ou quatro manuscritos dos antigos autores latinos: todo o nosso conhecimento da literatura antiga se deve ao trabalho de compilação e transcrição iniciado durante o reinado de Carlos Magno, e é por isso que quase todos os textos clássicos que tinham sobrevivido até o século VIII continuam vivos atualmente”[6].

A educação carolíngia inspirou-se nos modelos da antiga Roma, nos quais se descobriram as sete artes liberais: o quadrivium da astronomia, música, aritmética e geometria, e o trivium da lógica, gramática e retórica. Dada a especial urgência em fomentar a educação literária, o quadrivium foi muitas vezes abordado superficialmente nos primeiros anos desse reflorescimento da instrução. Mas foi esse o terreno sobre o qual viria a construir-se o futuro progresso intelectual.

Outro resultado substancial da Renascença Carolíngia foi a inovação na escrita, que ficou conhecida como a “minúscula carolíngia”. Anteriormente, o isolamento geográfico havia contribuído para a proliferação de escritas por toda a Europa ocidental, o que tornava difícil ler e compreender um texto[7]. Tanto mais que, além de não haver minúsculas, também não havia pontuação nem se deixavam espaços em branco entre as palavras[8].

Fredegiso (?-834), o sucessor de Alcuíno como abade de São Martinho, desempenhou um papel capital no desenvolvimento e na difusão da minúscula carolíngia, com o que a Europa Ocidental passou a dispor de textos que podiam ser lidos e escritos com relativa facilidade. As letras minúsculas, mais os espaços entre as palavras e outras medidas destinadas a aumentar a legibilidade, aceleraram tanto a leitura como a escrita. Dizem dois estudiosos modernos que passou a haver “insuperável graça e clareza, certamente decisivos para a sobrevivência da literatura clássica, que pode assim plasmar-se numa forma que todos podiam ler com facilidade e prazer”[9]. “Não haveria exagero – escreve Philippe Wolff – em relacionar essa inovação com a invenção da própria imprensa, como dois passos decisivos para o progresso de uma civilização baseada na palavra escrita”[10]. A minúscula carolíngia – desenvolvida pelos monges – foi, pois, crucial para a difusão da cultura na civilização ocidental.

Os historiadores da música falam com freqüência da desafortunada “ânsia de prestígio” que leva muitos compositores a querer imitar os gênios e os prodígios. Fenômeno similar se deu no campo das letras durante a Renascença Carolíngia. Einhard, o biógrafo de Carlos Magno, moldou claramente o seu trabalho pela Vida dos Césares, de Suetônio, chegando mesmo a plagiar parágrafos inteiros da obra do amigo romano. Mas de que outro modo poderia ele, um bárbaro, alcançar a elegância e a mestria de uma civilização tão rica e completa?

Mas os católicos da época de Carlos Magno, apesar das suas notórias carências, aspiravam ao nascimento de uma civilização muito maior que as da Grécia e da Roma antigas, porque, como dizia Alcuíno, eles possuíam um valor que os antigos não possuíam: a fé católica. Modelaram-se conforme a antiga Atenas, mas estavam convencidos de que seriam maiores que Atenas, pois possuíam uma pérola de grande preço que não estava ao alcance dos seus predecessores gregos, apesar de todos os seus êxitos. O entusiasmo de Alcuíno era tão grande que o levou a escrever a Carlos Magno, em termos extravagantes, sobre os cumes da civilização que de achava possível atingir:

“Se muitos se deixarem contagiar por essa aspiração, criar-se-á na França uma nova Atenas, uma Atenas mais refinada que a antiga, porque, enobrecida pelos ensinamentos de Cristo, superará toda a sabedoria da Academia. Os antigos tiveram por mestres apenas as disciplinas de Platão, que. inspiradas nas sete artes liberais, ainda brilham com esplendor: mas os nossos estarão dotados também dos sete dons do Espírito Santo e superarão em brilho toda a dignidade da sabedoria secular”[11].

O espírito da Renascença Carolingia nunca arrefeceu, apesar dos terríveis golpes infligidos pelos invasores vikings, magiares e muçulmanos nos séculos IX e X. Mesmo nos dias mais tenebrosos dessas invasões, o espírito de estudo permaneceu sempre vivo nos mosteiros e assim tornou possível o seu pleno renascimento em tempos mais calmos.

A LENTA RECONQUISTA DO CONHECIMENTO 

Depois da morte de Carlos Magno, a iniciativa da difusão do conhecimento recaiu cada vez mais sobre a Igreja. Diversos concílios locais clamaram pela abertura de escolas, como ocorreu num sínodo na Bavária (798) ou nos concílios de Chálons (813) e Aix (816)[12]. O amigo de Alcuíno, Teodulfo, bispo de Orleans e abade de Fleury, também incitou a expandir a educação: “Nas aldeias e cidades, os sacerdotes devem abrir escolas. Se algum dos fiéis lhes confiar os seus filhos para que aprendam letras, não devem recusar-se a instruir esses pupilos com absoluta clareza, usando de toda a caridade […]. Desempenharão essa tarefa sem pedir nenhum pagamento e, se receberem alguma coisa, que sejam apenas pequenos presentes oferecidos pelos pais”[13].

Como educadora da Europa, a Igreja foi a única luz que sobreviveu às constantes invasões bárbaras dos séculos IV e V e, nos séculos IX e X. às mais devastadoras ondas de ataques, desta vez dos vikings, magiares e muçulmanos, como dissemos acima. (Para se ler uma idéia do que foram estas invasões, tenha-se em conta que um dos mais conhecidos guerreiros vikings era chamado Thorfin Quebra-crânios). A visão certeira e a determinação dos bispos, monges, padres, estudiosos e administradores civis católicos salvaram a Europa de um segundo colapso[14]. Tudo isso se deveu às sementes da instrução plantadas por Alcuíno. Como escreveu um erudito, “havia apenas uma tradição disponível: a que provinha das escolas fomentadas por Alcuíno”[15].

Após o declínio do Império carolíngio, segundo o historiador Christopher Dawson, os monges iniciaram a recuperação do saber.

“Os grandes mosteiros, especialmente os do sul da Alemanha – Saint Gall, Reichenau e Tegernsee –, foram as únicas ilhas remanescentes da vida intelectual no meio do refluxo do barbarismo que, mais uma vez, ameaçava submergir a Cristandade. Porque, embora a vida monástica pareça à primeira vista uma instituição pouco apta para resistir à destruição material de uma época de guerras e sem lei, demonstrou possuir um extraordinário poder de recuperação”[16].

Esse poder de recuperação dos mosteiros manifestou-se na rapidez e intensidade com que trabalharam para reparar a devastação das invasões e o colapso político.

“Noventa e nove de cada cem mosteiros podiam ser queimados e os seus monges assassinados ou expulsos, mas bastava que ficasse um único sobrevivente para que se reconstruísse toda a tradição; e os lugares arrasados não tardavam a ser repovoados por novos monges, que retomavam a tradição interrompida, seguindo as mesmas regras, cantando a mesma liturgia, lendo os mesmos livros e tendo os mesmos pensamentos que os seus predecessores. Foi assim que a vida monástica e a cultura monacal retornaram na época de São Dunstan à Inglaterra e à Normandia, vindos de Fleury e Ghent, depois de mais de um século de completa destruição; daí resultou que, um século mais tarde, os mosteiros normandos e ingleses se contavam novamente entre os líderes da cultura ocidental”[17].

Esta preservação da herança clássica ocidental e das realizações da Renascença Carolíngia não foi coisa simples. Hordas de invasores saquearam muitas vezes os mosteiros e incendiaram bibliotecas, cujos volumes eram mais preciosos para a comunidade intelectual daquele tempo do que podem imaginar os leitores modernos, tão acostumados a ofertas baratas e abundantes de livros. Dawson tem toda a razão em dizer que foram os monges que preservaram da extinção a luz do conhecimento.

Uma das luminárias do primeiro estágio da reconquista foi Gerberto de Aurillac, que mais tarde se tomaria o papa Silvestre II (999-1003). Era sem dúvida o homem mais culto da Europa na sua época, tendo-se tomado famoso pela vastidão dos seus conhecimentos, que abrangiam astronomia, literatura latina, matemática, música, filosofia e teologia. A sua fome de manuscritos antigos evoca-nos o entusiasmo do século XV, quando a Igreja oferecia recompensas aos humanistas que recuperassem textos antigos.

A partir dos anos 970, Gerberto dirigiu a escola episcopal de Reims – onde estudara lógica avançada –, e pôde dedicar-se inteiramente ao estudo e ao ensino. “A fé faz viver o justo – dizia –, mas é bom adicionar-lhe a ciência”[18]. Pôs muita ênfase no cultivo da capacidade de raciocínio, que não em vão foi dada ao homem por Deus: “A divindade concedeu um grande dom aos homens. concedendo-lhes a fé e, ao mesmo tempo, não lhes negando o conhecimento – escreveu –. Aqueles que não o possuem são chamados tolos”[19].

Em 997, o imperador alemão Otto III escreveu-lhe implorando a sua ajuda. Desejando ardentemente a sabedoria, recorreu ao futuro papa: “Sou um ignorante – confessou –, e a minha educação foi enormemente negligenciada. Vem e ajuda-me. Corrige o que esteja errado e dá-me conselhos para que governe o império com retidão. Despe-me da minha grosseria saxônica e fomenta as coisas que herdei dos meus antepassados gregos. Explica-me o livro de aritmética que me enviaste”. Gerberto acedeu alegremente ao pedido do rei. “Sendo grego por nascimento e romano pelo Império – assegurou-lhe –, podes pedir por direito de herança os tesouros dos gregos e a sabedoria dos romanos. Não é verdade que há neles algo de divino?”[20]

A dedicação de Gerberto ao ensino e a influência que exerceu nos professores e pensadores posteriores foram emblemáticas na recuperação de um século de invasões da Europa, uma recuperação que teria sido impossível sem a inspiração da Igreja.

O trabalho e as intenções da Igreja viriam a trazer os seus maiores frutos no desenvolvimento do sistema universitário, como veremos daqui a pouco; mas antes analisemos as sementes da instrução plantadas pelos mosteiros.



[1] Will Durant. Caesar and Christ. MJF Books, New York. 1950, pág. 79.

[2] Henri Daniel-Rops. A Igreja dos tempos bárbaros, trad. de Emérico da Gama, em História da Igreja de Cristo, vol. 2. Ouadrante, São Paulo. 1991, pág. 68.

[3] Jocelyn N. Hillgarth, ed., Christianity and Paganism 350-750: The Conversion of Western Europe. University of Pennysilvania Press, Philadelphia,1986. pág. 69.

[4] Jocelyn N. Hillgarth, ed., Christianity and Paganism 350-750, pág. 70.

[5] Joseph H. Lynch, The Medieval Church: A Brief History, Longman, London, 1992, pág. 89.

[6] Kenneth Clark, Civilization: a Personal View, Happer Perennial, New York, 1969, pág. 18.

[7] Joseph H. Lynch. The Medieval Church, pág. 95.

[8] David Knowles escreve que foi Alcuíno quem “insistiu na necessidade de boas cópias de todos os melhores modelos no campo dos livros-texto, montando ele próprio excelentes scriptoria em muitos lugares. Conferiu “um novo impulso e uma nova técnica à cópia de manuscritos, que prosseguiu sem decaimento em muitos mosteiros, de modo mais metódico e com mais amplo alcance do que antes; e teve um instrumento de grande poder na assim chamada minúscula carolíngia, que, na verdade, deve muito à escrita da Irlanda e do norte da Úmbria. Com Alcuíno começou a grande era das cópias dos manuscritos latinos, patrísticos e clássicos, e esse gradual acúmulo de livros escritos com mais clareza (e correção) foi de um valor inestimável quando, dois séculos mais tarde, chegou o renascimento mais amplo” (David Knowles, The Evolution of Medieval Thought, 2ª ed., Longman, London, 1988, pág. 69).

[9] Leighton Durham Reynolds e Nigel G Wilson. Scribes and Scholars: A Guide to the Transmission of Greek and Latin Literature, 3ª ed., Claredon Press, Oxford, 1991, pág. 95.

[10] Philippe Wolff, The Awakening of Europe. IXth-XIth Centuries, Penguin Books, New York, 1968. pág. 57

[11] Philippe Wolff, The Awakening of Europe, pág. 77.

[12] Philippe Wolff, The Awakening of Europe, págs. 48-49.

[13] David Knowles, The Evolution of Medieval Thought, pág. 66.

[14] Philippe Wolff, The Awakening of Europe, págs. 153 e segs.

[15] Andrew Fleming West, Alcuin and the Rise of Christian Schools, Charles Scribner’s Sons, New York, 1892, pág. 179.

[16] Christopher Dawson, Religion and the Rise of the Western Culture, Image Books, New York, 1991 [1950], pág, 66.

[17] Christopher Dawson, Religion and the Rise of the Western Culture; grifo nosso.

[18] Henri Daniel-Rops, A igreja dos tempos bárbaros, pág. 548.

[19] Philippe Wolff, The Awakening of Europe, pág. 183.

[20] Philippe Wolff, The Awakening of Europe, págs. 177-178.

6 respostas a “ESPECIAL DE NATAL! Livro “Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental” (2008) – Capítulo 2”

  1. Marco Diz:

    Para quem estiver interessado em uma opinião diferente da defendida por Woods, recomendo os textos dos historiadores e filósofos Glen Bowman e Andrew Berstein:
    .
    http://www.isthatlegal.org/archives/2006/01/feelgood_histor.html
    .
    http://www.theobjectivestandard.com/issues/2006-winter/tragedy-of-theology.asp
    .

  2. Vitor Diz:

    Oi, Marco

    note que mesmo Bowman concorda com muito do que Woods diz.

  3. Vitor Diz:

    Marco,
    se você traduzir o texto do Bowman eu publico a crítica após ter postado o livro do Wood.

  4. João Panegalli Diz:

    Olá Vitor, por um acaso é sua a página no Facebook com o título “Obras Psicografadas”?

  5. Vitor Diz:

    Oi, João, é sim, mas tá fraquinha, não sei como deixar aquilo interessante, meio que abandonei.

  6. Marco Diz:

    Oi Victor,

    Vou tentar mas não prometo porque tradução exige um tempo que infelizmente eu não tenho :-(. Mas se for traduzindo um ou dois capítulos por dia, acho que consigo terminar em algum momento =).

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